Cáfila e buraco da agulha no paiol da Igreja

Vez por outra recebo algum email de alguém que estudou na FTSA (Faculdade Teológica Sul Americana) ou em algum outro seminário e que encontra dificuldades em ser ordenado em sua denominação. Esse (geralmente) jovem relata as barreiras que são impostas “pelos homens da igreja” e a principal delas é que o mesmo cometeu a barbaridade de não estudar no seminário da sua denominação e ousou estudar em outra escola. Essa outra escola, pelo que se deduz só tem gente ruim.

Vocês não tem ideia de como é difícil vencer essas barreiras! Esses “homens da igreja” se arvoram no direito de falar em nome de Deus. Dizem para o candidato que ele não estudou a história da denominação, não sabe as leis da igreja, não leu os doutores da igreja, não fez isso ou aquilo. Pressupõe que somente quem faz seminário denominacional é que sabe essas coisas. Como se não fosse possível estudar isso fora da escola. Eu mesmo já participei de várias dessas comissões e já examinei candidatos “oficiais”, ou seja, que fizeram o “seminário certo”. Meus Deus, quanta ignorância teológica a respeito da teologia da América Latina, quanta ignorância da história do nosso povo, quanta ignorância do contexto em que vivemos, quanta ignorância dos congressos de missão integral (alias nunca ouviram o termo antes). Mas… fizeram o seminário certo. Vão ser ordenados.

Nessas reuniões nada é perguntado se o moço é crente, se ama a Jesus, sabe compartilhar as boas novas do Reino, se é solidário com o pobre, se ama a justiça, se lê e prega a Palavra, se tem o coração na missão integral da igreja. Essas coisas são TODAS de menor importância. O que importa mesmo é se o camarada é “um homem da denominação” como eles o são.

É mais fácil, mas muito mais fácil passar uma cáfila pelo buraco de uma só agulha do que muitos desses pastores entrarem no reino dos céus. Se eles entrarem eu fico imaginando com que cara vão dizer ao Cordeiro de Deus que impediram um jovem de pregar o evangelho porque ele não fez o seminário da denominação! E se Jesus lhes disser: “Olha, esse jovem estava orando exatamente por aquilo que eu pedi, ou seja: mais trabalhadores para a seara, e ele colocou sua vida a meu dispor, e vocês disseram não.” Fico pensando naquele momento em que eles vão topar com o Apóstolo Paulo, um homem que incentivou tantos jovens ao ministério e que tudo fez pela causa de Cristo e Paulo lhes perguntar: “Então vocês foram os responsáveis por aquele jovem que tanto queria ser um pastor e vocês não deixaram?”

Tem gente que ama tanto, mas tanto a sua denominação que se chegar no céu ficará extremamente irado com Deus porque ele ousou salvar gentalhas. Espero que não tenham a petulância de recriminar Deus por isso. Tem gente que ama tanto, mas tanto a sua denominação que tem a coragem de considerar os pentecostais, por exemplo, como crentes de segunda ou terceira categoria.

“Olha, esse jovem estava orando exatamente por aquilo que eu pedi, ou seja: mais trabalhadores para a seara, e ele colocou sua vida a meu dispor, e vocês disseram não.”

Dou graças a Deus porque um dia ele converteu meu coração ao Cristo, ao meu povo, à minha cultura e ao seu Reino. Cometi e tenho muitos pecados, mas de um estou livre: o de amaldiçoar meus irmãos e irmãs em Cristo. Com essas pessoas e com o meu Rei eu estarei na glória eterna.

Se a mensagem aqui servir para você peça misericordia e arrependa-se do seu pecado de ser uma pedra de tropeço. Você sabe o que acontece quando a gente se torna uma dessas pedras?

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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