Ronaldo Cavalcante é um amigo de longa data. Mente brilhante e acadêmico dos mais refinados. Não sei se fica bem elogiar a humildade, parece contra producente, mas ele o é. Sujeito simples, afável, amigo. Conversar com o Ronaldo é prazer que gostaria de ter mais vezes. Seu livro Espiritualidade cristã na história: Das origens até Santo Agostinho (Editora Paulinas), é uma aula que não podemos perder. Faço breves comentários sobre o livro.
Na introdução lemos essa frase que nos desafia: “Mas a espiritualidade do futuro precisa ser apoiada e alicerçada na espiritualidade do passado.” Ricardo Barbosa. Permita-me ler um trecho (uma pequena amostra grátis do muito que esse texto nos oferece) e que o Autor citando Larrañaga afirma:
A fé de Israel sai robustecida da experiência do deserto. Mas o caráter ambíguo e paradoxal sobressai, pois aquela peregrinação foi marcada por adoração e blasfêmia, rebeldia e submissão, fidelidade e deserção, aclamação e protesto. Tais acontecimentos, de encontros e desencontros, venturas e desventuras, servem-nos hoje de modelo e referencial de fé: “Ora, tudo o que se escreveu no passado é para nosso ensinamento que foi descrito, a fim de que, pela perseverança e pela consolação que nos proporcionam as Escrituras, tenhamos a esperança” (Rm 5,4).
Que preciosidade de afirmação especialmente quando vivemos um período extremamente perigoso no meio protestante: a negação do sofrimento ou quando muito o sofrimento como causa de falta de fé.
O Autor resgata o âmago do verdadeiro cristianismo quando na sua análise do NT afirma: “É em sua identificação com a pessoa e o ministério de Jesus que deve ser compreendida a vinda do Reino”. Hoje quando a identificação cristã se encontra na igreja e em seu estilo de culto e louvor ou por muitas vezes na sua liderança rouba-se a riqueza da obra de Cristo e faz dela apenas um instrumento de angariação de bens ou acumulo de pessoas interesseiras nas bênçãos oferecidas aos montes, bênçãos essas que geralmente não se materializa.
O Autor passeia pela história e nós vamos perambulando com ele, começando pela extraordinária conversão de Justino ao dialogar com um anônimo ancião; depois vamos para Santo Inácio para quem “Deus quer livrar o mundo e a humanidade do despotismo do príncipe deste mundo”. Depois vamos conhecer mais de Ireneu de Lião, considerado o maior teólogo do século II. Com ele somos desafiados a ver “o Cristo encarnado como modelo a ser buscado pelo homem da imagem exata do ser de Deus”.
Mudando de cenário lemos sobre a teologia romano-africana começando com Hipólito de Roma que procurou normatizar muitas questões na igreja. Curiosamente poderia ser chamado de o pai da quebra das maldições, pois antes do batismo as pessoas deveriam receber a unção com óleo de exorcismo, diriam: “Renuncio a ti, Satanás, a todo o teu serviço e a todas as tuas obras”. Chegamos a Tertuliano, esse grande nome da nossa história onde aprendemos alguns fundamentos da missão integral, pois a “prática de caridade é mais que nada o que aos olhos de muitos nos imprime um selo peculiar”. Com Cipriano de Cartago somos recordados da famosa frase: “Fora da Igreja não existe salvação”. Com Clemente nós declaramos:
Com os mais singelos hinos,
cantemos sem disfarce
do Cristo a realeza;
juntemos nossas vozes,
pagando-lhe o tributo
pelas lições de Vida.
E assim Ronaldo vai andando pela história mencionando Orígenes, Justino e seus amigos leais a Cristo num maravilhoso testemunho de fé rumo à morte.
O Autor prossegue agora pelos corredores do Concilio de Nicéia e a importante vitória do reconhecimento de Cristo como sendo verdadeiramente homem e verdadeiramente Deus descrevendo a espiritualidade do deserto. Destaco essas palavras de Basílio Magno: “Chorei amargamente minha desperdiçada vida e pedi um mestre que me iniciasse nos princípios da piedade”.
Vemos nessa trajetória o cuidado com a missão integral da igreja. A preocupação não era somente com o mundo vindouro, mas com este mundo e viver neste mundo de uma forma piedosa. O amor a Deus motivava a uma santificação que nos desafia hoje.
Observar num futuro livro:
1. Gênero – a linguagem deveria ser inclusiva. O uso do substantivo homem para designar a raça humana é démodé. Vemos isso nas citações de Antonio Gouvêa Mendonça no livro.
2. Essa mesma observação pode ser feita ao Autor.
Quem ler esse livro será muito abençoado. Imperdível.

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