Uma lição sobre a tolerância

Neste sermão vamos aprender um pouco mais sobre tolerância.

Texto: Lucas 9.49-50

INTRODUÇÃO
Tolerância – eis o nosso tema.
O texto que lemos apresenta uma breve cena de intolerância. Numa de suas modalidades mais terríveis: a religiosa. Os discípulos de Jesus se mostram intolerantes. Mas Jesus se mostra contra a intolerância.

É verdade que há coisas que não podem ser jamais toleradas. O crime, por exemplo. Combater a criminalidade com tolerância zero é boa política. Pena que não seja sempre e em toda parte praticada. Mas não é disso que se trata aqui. Trata-se aqui daquela tolerância que é necessária e mesmo indispensável para o bom convívio entre as pessoas em sociedade. A tolerância que todos gostam que lhes seja oferecida, que queremos e precisamos que os outros tenham para conosco, mas que nem sempre estamos dispostos a mostrar com relação ao próximo. A tolerância que reflete a que o próprio Deus tem para conosco, e sem a qual não poderíamos permanecer um segundo sequer em sua santa presença. (Lembrar o Salmo 130: “Se observares, Senhor, iniquidades, quem, Senhor, subsistirá?”)

Os discípulos acharam que estavam agindo bem ao serem intolerantes. Jesus discorda. Para Jesus, quem participa do Reino de Deus não pode ser intolerante. Pois quem toma parte no Reino de Deus serve aos interesses do Deus desse Reino, que quer que convivamos em paz e em amor. E é impossível amar e conviver em paz sem tolerância. Isto nos leva ao nosso primeiro ponto.

Como ser tolerantes?
Tolerância envolve aceitação da diferença

Intolerância decorre da dificuldade de se aceitar a diferença. Para muitos, parece preferível reprimir e até eliminar a diferença, a admitir o direito do diferente de se expressar e, até, de existir (ponto a que os discípulos também chegam, um pouco mais adiante no texto, v. 54). Mas Deus nos fez diferentes. E para viver juntos. É no convívio com a diferença que crescemos e nos enriquecemos, para além de nossa estreiteza de mente e de percepção das coisas.

Quem não é tolerante torna-se sectário e até violento. Duas coisas que Jesus jamais quis para os seus seguidores: que o seu movimento fosse uma seita (mais uma entre tantas que já havia) e que descambasse para a violência.

A Igreja nem sempre foi tolerante. Nem sempre aceitou as diferenças em seu meio. Desde os inícios, com os problemas de aceitação dos gentios, quando se correu o grave e sério risco de se formarem duas Igrejas paralelas, uma de judeus e outra de gentios. Quanta luta da parte do apóstolo Paulo pela unidade da Igreja!

A intolerância causou muitos males à Igreja e ao mundo, através da Igreja. Mas isto não confere com o Jesus dos Evangelhos, que, em seu círculo mais amplo de seguidores e até no círculo mais íntimo dos doze, tinha espaço para pessoas tão distintas entre si. Que aceitava como seus discípulos homens e mulheres, ricos e pobres, letrados e incultos. Nem confere com o Novo Testamento como um todo, que se mostra um conjunto de escritos onde há espaço para muita diversidade. Unidade na diversidade. E diversidade na unidade. Os quatro evangelhos canônicos são o melhor exemplo disso. Um mesmo Jesus, quatro retratos diferentes. Os quatro com igual autoridade.

Com direito de integrar o cânon. A Igreja rejeitou tanto o Diatessaron (obra que reuniu os quatro Evangelhos em um só, formando com eles uma narrativa unificada da vida e obra de Jesus) quanto o marcionismo (que propunha ficar com um único Evangelho, o de Lucas, ainda assim expurgado de elementos considerados judaicos). Porque a verdade é sempre complexa, e maior do que nós. Tem várias facetas. Que não podem ser abarcadas por uma única visão. Daí a necessidade de acolher a visão do outro também. Isto nos leva a um segundo ponto.

Por que ser tolerantes?
Tolerância manifesta humildade

Intolerância decorre também da pretensão de ser o dono da verdade. Só eu e os que pensam como eu estamos certos. Só nós podemos estar certos. Mas a verdade não é posse de ninguém, que ninguém conhece e domina toda a verdade. Pois a verdade é como um círculo, em cuja circunferência nós nos encontramos. Jamais seremos capazes de ver o círculo inteiro, por mais amplo que seja nosso ângulo de visão. Assim, todo conhecimento da verdade, por maior que seja, é sempre parcial. Querer ser dono da verdade não passa de presunção. Uma presunção perigosa, que, se associada ao poder, pode destruir vidas. Muitas vidas. Porém, destruição de vidas nada tem a ver com a proposta de Jesus (cf. v. 56).

Ninguém vê tudo. Ninguém sabe tudo. Podemos e devemos aprender com o outro. Com suas experiências e reflexões. Isto é sabedoria. Que só os humildes e abertos possuem. Quem não é humilde e aberto a aprender, torna-se arrogante, fechado. E tolo. Pois só há dois tipos de pessoas no mundo: os sábios, que sabem que não sabem tudo, e os tolos, que acham que sabem tudo.

Cuidado com as concepções extremadas, unilaterais. Elas distorcem a verdade. Lembremos do que diz Tiago em sua epístola, no combate aos que distorciam o ensino de Paulo a respeito pela justificação somente pela fé. O mesmo Paulo que também ensinou também a prática de boas obras como algo indispensável na vida cristã. Que disse que a fé opera pelo amor e que o amor ao próximo é o cumprimento da lei de Deus (Gl 5.6 e 14). Mas que foi mal compreendido. Então Tiago ensina que não há fé sem obras, que sem obras a fé é morta (2.14-26). Não contradizendo Paulo, mas enfatizando outro aspecto importantíssimo da verdade sobre a salvação; esclarecendo e complementando o ensino de Paulo. Duas visões acolhidas no NT. Ambas autoritativas. Ambas expressões da verdade. Que só é acessível aos humildes. Aos que são tolerantes.

Para que ser tolerantes?
Tolerância propicia união de forças

Intolerância decorre ainda da ilusão de que podemos fazer tudo sozinhos. Mas a força do mal é imensa. Precisamos de ajuda.

É contra o mal que somos chamados a lutar. Não contra pessoas. Efésios 6.12: “porque nossa luta não é contra o sangue e a carne, e, sim, contra os principados e potestades, contra os dominadores deste mundo tenebroso, contra as forças espirituais do mal, nas regiões celestes”. O mal é uma realidade potente. Que domina e escraviza corpos e consciências, que corrompe valores e idéias. É coisa dos demônios. Que precisam ser expelidos para que as pessoas sejam verdadeiramente livres. Mas isto só conseguiremos fazer na união de forças na única causa digna que existe, a do bem. Que é a vontade de Deus.

Os discípulos de Jesus são os que estão do lado do bem. E com eles estão todos os que promovem o bem. “Quem não é contra vós outros, é por vós”, diz Jesus. Optar pela luta contra o mal é estar ao lado dos discípulos, ao lado do próprio Jesus, ainda que não seguindo com eles. Mas, como estar ao lado de Jesus sem uma adesão explícita a ele? E as motivações dessas pessoas, quais são? Não nos cabe julgar. E, em última análise, não importa, como diz Paulo (ler Fp 1.15-18).

Importa é que o Evangelho seja pregado, que o mal seja combatido, que a vida seja promovida, que pessoas sejam libertadas. Pois esta é a vontade de Deus. E foi para isto que Jesus Cristo veio. E é isto que faz a unidade da Igreja: não que eu tenha que em tudo pensar exatamente como os outros, mas que seja sempre capaz de vê-los como irmãos, sentar-me à mesa com eles, e com eles agir em prol da salvação.

Que nós mostremos ao mundo quem somos, em nome de quem agimos, o que queremos, de que lado estamos. Com toda a sinceridade e verdade. E sem desprezar aliados, que a dor do mundo é muito ampla e profunda.

CONCLUSÃO
Ser tolerantes – um ensino de Jesus.

Tolerância envolve aceitação da diferença. Antídoto único contra o sectarismo, que isola e divide sem remédio. E contra a violência, que só gera violência. Queremos paz e comunhão. Sejamos tolerantes.

Tolerância manifesta humildade. A verdade não é monopólio de ninguém. Jesus não é nosso. Nós é que somos de Jesus, o Senhor da Igreja e do mundo, que se serve dos instrumentos que ele bem quer usar segundo seus propósitos. Por mais que às vezes nos seja difícil compreender seus pensamentos e caminhos. Mas diante do que não entendemos, só nos cabe ser humildes. Confiando na soberania e na sabedoria do Senhor, que sabe o que faz. Humildade é prova de sabedoria da nossa parte. Queremos ser sábios, conhecedores da verdade. Sejamos tolerantes.

Tolerância propicia união de forças. Não podemos tudo sozinhos. O mal é muito grande e muito forte. Queremos o triunfo do bem, da vida, da liberdade. Sejamos tolerantes.

Autor: Rev. Paulo Severino da Silva Filho

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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