As bem aventuranças

INTRODUÇÃO:

1. Há quinze dia atrás enfatizamos aos irmãos, o fato de que Jesus nunca pregou, ou ensinou qualquer princípio de vida que Ele mesmo não tenha praticado, que não tenha vivido. Tudo quanto ensinou, Jesus viveu na prática. Falamos sobre as chamadas três primeiras “Bem Aventuranças”:

a. Falamos sobre os humildes de espírito, que são aqueles que são isentos do orgulho e da arrogância, com os quais Deus mantém um relacionamento íntimo. No texto de Isaías 57.15, podemos ver que embora Deus habite nas alturas, também habita com o contrito e humilde: “Porque assim diz o Alto e o Excelso, que habita na eternidade e cujo nome é santo: Num alto e santo lugar habito, e também com o contrito e humilde de espírito, para vivificar o espírito dos humildes, e para vivificar o coração dos contritos”.

b. Falamos também sobre os que choram, que são os que tem seus corações quebrantados pela Palavra de Deus, e estão dispostos a chorar seus pecados, suas fraquezas de maneira não fingida, mas com sinceridade. Vimos que Esaú, mesmo chorando amargamente não achou lugar de arrependimento diante de Deus, porque seu choro não foi sincero, Hb 12.16, “e ninguém seja devasso, ou profano como [Esaú], que por uma simples refeição vendeu o seu direito de primogenitura”.

c. Falamos ainda sobre os mansos, que são aqueles que mesmo diante das pressões deste mundo, não perdem sua paciência, mantendo sempre um espírito gentil. São os que são contrários ao crente do tipo “pavio curto”, “explosivo”, “temperamental”. Aquele que é manso, é alguém que foi “moldado” por Deus, de acordo com a imagem de Jesus.

2. Hoje queremos continuar analisando mais algumas destas “Bem Aventuranças”, equiparando-as ao nosso dia-a-dia como filhos de Deus.

“VEJAMOS NESTA NOITE MAIS DUAS QUALIDADES QUE PRECISAMOS TER, PARA SERMOS PARTICIPANTES DO REINO DE DEUS”

IV – PARA SERMOS PARTICIPANTES DO REINO DE DEUS PRECISAMOS TER FOME E SEDE DE JUSTIÇA

Vs. 6, “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”.

1. A palavra “fome”, neste texto vem do termo grego “peinaw” – peinao e significa “estar necessitado”, “ter forte desejo”, “almejar ardentemente”, “buscar ansiosamente”. É a mesma palavra de temos em Mt 4.2, quando a Escritura nos afirma que Jesus, depois de um jejum de quarenta dias, “teve fome”, ou seja desejou ardentemente comer alguma coisa. Porém podemos admitir que há uma grande diferença entre estar com o estômago vazio e estar com o coração vazio.

2. Conta-se que certa vez um moço queria que Buda lhe ensinasse o caminho da salvação, o que Buda lhe disse: “Se você almeja a salvação, você precisa buscá-la com todas as forças, pois você só conseguirá aquilo que realmente deseja”. Evidentemente que Jesus, embora não reconheça Buda como sendo o que os seus seguidores professam, certamente concordaria com sua declaração. Pois Jesus mesmo disse que uma das chaves para se entrar no Reino de Deus é justamente, “ter fome e sede dele”. Nós conseguimos somente aquilo que desejamos.

3. Sabemos que a fome e a sede são instintos naturais para a sobrevivência do homem. Quando uma pessoa fica doente, normalmente perde a vontade de comer, o que nos traz uma sensação muito desagradável. Podemos dizer que até mesmo gostamos de ter fome e sede e sentir o prazer em satisfazer este instinto natural. Da mesma forma que sentimos fome e sede, tendo prazer em saciá-las, precisamos sentir “fome e sede de Deus”, para podermos nos saciar com a água viva e com o pão do céu.

4. Jesus procura nos mostrar através desta bem aventurança que antes de possuirmos Deus e seu Reino, precisamos fazer dele o centro de nossa imaginação e busca. É preciso ansiar por Deus. Alguns exemplos na Palavra de Deus:

a) Mt 22.37, “Amarás o Senhor teu Deus, de todo o teu coração, de toda a tua alma e de todo o teu entendimento”. De acordo com este versículo da Palavra, precisamos envolver todos os nossos sentimentos na busca de Deus. Jesus fala que precisamos amá-lo:

a1) com todo o coração (sede dos sentimentos mais profundos);

a2) e amá-lo também com o entendimento (intelecto, ou faculdades mentais e de raciocínio do homem).

b) Mt 13.44, “Também o reino dos céus é semelhante a um tesouro escondido num campo, que um homem achou e escondeu; e, pelo gozo dele, vai, vende tudo quanto tem, e compra aquele campo”.

b1) Aqui encontramos um homem que descobriu um tesouro escondido, e conhecendo o seu valor, não mediu esforços para desprender de tudo quanto possuía para comprar aquele campo, e ser o dono legítimo do tesouro. Assim também acontece conosco quando descobrimos o valor do Reino de Deus. Precisamos renunciar tudo para possuí-lo.

b2) Veja o que Jesus disse em Lc 14.33, “Assim, pois, qualquer de vós, que não renuncia a tudo quanto tem, não pode ser meu discípulo”.

c) Mt 13.45-46, “45 Outrossim, o reino dos céus é semelhante ao homem, negociante, que busca boas pérolas; 46 E, encontrando uma pérola de grande valor, foi, vendeu tudo quanto tinha, e comprou-a”. Novamente temos aqui a idéia de que precisamos desprender de tudo, quando encontramos algo de valor permanente, para possui-lo.

5. A Palavra de Deus nos mostra que é somente o sedento, o faminto espiritual, que se sacia das provisões divinas:

a) Sl 42.1-2, “1 Assim como o cervo brama pelas correntes das águas, assim suspira a minha alma por ti, ó Deus! 2 A minha alma tem sede de Deus, do Deus vivo; quando entrarei e me apresentarei ante a face de Deus?”

- Davi, como pastor de ovelhas tinha experiência nesta área. Muitas vezes pode ver os animais beberem a água das correntes com muita ansiedade. Precisamos ter também esta “sede” pela Palavra de Deus.


b) Am 8.11, “Eis que vêm dias, diz o Senhor Deus, em que enviarei fome sobre a terra; não fome de pão, nem sede de água, mas de ouvir as palavras do Senhor”.

- Aqui a Escritura alude a um tempo em que os homens haverão de ter sede e fome não de água e pão, mas das palavras do Senhor. Bendito há de ser este tempo, porém pode chegar a hora em que mesmo buscando a palavra de Deus com ansiedade ela não será encontrada. Hoje a situação do homem de modo geral é como descreve Paul Earnhart:

“Espiritualmente falando, os homens se parecem com corpos semi-mortos, mas eles teimosamente se recusam a reconhecer a medonha falta de significado da vida sem Deus. Nem todos os que estão numa “terra distante” têm a sanidade mental para confessar, como o pródigo, que “morro de fome” (Lucas 15:17)! Tais indivíduos continuam a procurar, insensatamente, alguma “casca” melhor, para encher o vazio. Aqueles que “têm fome e sede de justiça” resolveram enfrentar sua desesperada necessidade, pelo que ela é, e procurar o alimento que a satisfaz”(1).


c) Ap 21.6, “E disse-me mais: Está cumprido. Eu sou o Alfa e o Ômega, o princípio e o fim. A quem quer que tiver sede, de graça lhe darei da fonte da água da vida”.

- A água da vida é oferecida gratuitamente àquele que desejá-la profundamente. Vivemos num mundo onde temos que pagar por tudo. Pagamos pela luz elétrica, pelo gás, pela água que bebemos, etc. Porém o custo para se ter a água viva é fato de a desejarmos ardentemente.

5. Se tua alma não desejar profundamente o Deus Vivo, a sua Palavra, você não o terá encontrado. Você não o encontrará ainda que você tenha uma posição doutrinária e teológica correta, pois não se busca ao Senhor com a mente, mas com o coração.

- Em Jl 2.13, temos: “E rasgai o vosso coração, e não as vossas vestes, e convertei-vos ao Senhor vosso Deus; porque ele é misericordioso, e compassivo, e tardio em irar-se, e grande em benignidade, e se arrepende do mal”. “Rasgar vestes”, poderia eqüivaler ao ensino teológico. “Rasgar coração”, eqüivale ao ensino divino.

6. Lembremos as palavras de Deus, “Bem aventurados os que têm fome e sede de justiça, porque eles serão fartos”.

V – PARA SERMOS PARTICIPANTES DO REINO DE DEUS PRECISAMOS SER MISERICORDIOSOS

Vs. 7, “Bem-aventurados os misericordiosos, porque eles alcançarão misericórdia”.

1. As palavras aqui empregadas por Jesus, certamente foram tomadas do Sl 18.25: “Para com o benigno, te mostras benigno”.

2. A palavra “misericórdia”, vem do vocábulo grego “elehmwn” – eleemon, significa “bondoso”, benigno”.

3. Como filhos de Deus somos alvos da sua eterna misericórdia. Não somente necessitamos da misericórdia de Deus, mas também precisamos exercê-la no trato com outras pessoas. Deus mostra sua misericórdia para conosco, ainda que não haja qualquer merecimento de nossa parte. Como povo de Deus devemos imitá-lo, exercendo também misericórdia com relação àqueles que vivem à nossa volta. Novamente vemos Paul Earnhart:

“A misericórdia que Jesus elogia vem da percepção penetrante da necessidade desesperada que a própria pessoa tem de misericórdia, não simplesmente a dos homens, mas especialmente a de Deus. Esta é uma misericórdia que mostra compaixão para com os desamparados (Lucas 10:37) e estende o perdão até mesmo aquele que repete a ofensa (Mateus 18:21-22) Esta compaixão não é inspirada pelas atraentes qualidades do ofensor (Como haveríamos de tratar o “feio” pecador?), mas se eleva de nosso sentido de gratidão por aquela misericórdia que Deus nos tem mostrado. Nós, também, não éramos atraentes quando Deus enviou seu Filho para a cruz (Romanos 5:8). Os cidadãos do reino do céu não esquecem suas tristes origens (Tito 3:1-5). Uma das maiores expressões deste tipo de misericórdia é o seu interesse sem egoísmo por um mundo pecador e sem atrativos, mas perdido (Mateus 9:36-38). Ela é uma força motora na pregação do evangelho.”(2).

4. Vejamos alguns textos em sua Palavra:

a) Cl 3.13, “Suportando-vos uns aos outros, e perdoando-vos uns aos outros, se alguém tiver queixa contra outro; assim como Cristo vos perdoou, assim fazei vós também”: Temos aqui dois pontos importantes:

a1) Devemos aprender a “suportar” as fraquezas de nossos irmãos. Isto nos mostra que como humanos somos imperfeitos. Admitindo esta imperfeição tanto em nós, como também em nossos irmãos é que aprendemos a arte de suportar as falhas dos outros, sabendo que também os outros precisam nos suportar.

a2) Somente suportando, é que exercemos a arte maior registrada no versículo, que é o perdão. Não poderemos perdoar, se não aprendermos a suportar. Devemos lembrar aqui que a arte de exercer o perdão é uma exigência de Deus para seus filhos, Mt 6.14-15, “14 Porque, se perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai celestial vos perdoará a vós; 15 Se, porém, não perdoardes aos homens as suas ofensas, também vosso Pai vos não perdoará as vossas ofensas”.

b) Ef 4.32, “Antes sede uns para com os outros benignos, misericordiosos, perdoando-vos uns aos outros, como também Deus vos perdoou em Cristo”. Aqui Paulo menciona algumas virtudes que devem haver nos filhos de Deus, para que estes possam executar o perdão sem traumas:

b1) O crente perdoador é benigno “crhstov” – chrestos. Esta palavra traz a idéia de alguém que é “gentil”, “bondoso”, “benévolo”, “amoroso”. Devemos lembrar que a bondade é um dos frutos dos Espírito descritos por Paulo em Gl 5.22-23, “22 Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, 23 mansidão, domínio próprio. Contra estas coisas não há lei. 24 E os que são de Cristo Jesus crucificaram a carne, com as suas paixões e concupiscências”.

b2) O crente perdoador é misericordioso. Temos aqui a idéia de uma pessoa que possui o “coração terno”, pois a palavra no original “eusplagcnov” eusplagchnos), embora seja usada para referir às “entranhas”, às “vísceras intestinais”, também é usada para se referir ao coração, que é o órgão símbolo de nossa natureza emocional íntima.

5. Na chamada “Parábola do Credor Incompassivo”, Mt 18.23-35, temos a lição de que aqueles que são favorecidos pela misericórdia de Deus, têm a obrigação de demonstrá-la em seu trato com outras pessoas, e se assim não procederem, receberão um severo julgamento, Vs. 32-35, “32 Então o seu senhor, chamando-o à sua presença, disse-lhe: Servo malvado, perdoei-te toda aquela dívida, porque me suplicaste. 33 Não devias tu, igualmente, ter compaixão do teu companheiro, como eu também tive misericórdia de ti? 34 E, indignado, o seu senhor o entregou aos atormentadores, até que pagasse tudo o que devia. 35 Assim vos fará, também, meu Pai celestial, se do coração não perdoardes, cada um a seu irmão, as suas ofensas”.

6. Finalmente vemos em Lc 6.35-36: “35 Amai, pois, a vossos inimigos, e fazei bem, e emprestai, sem nada esperardes, e será grande o vosso galardão, e sereis filhos do Altíssimo; porque ele é benigno até para com os ingratos e maus. 36 Sede, pois, misericordiosos, como também vosso Pai é misericordioso”.

7. Portanto, pesa sobre nós a responsabilidade de exercermos misericórdia sobre as pessoas do nosso relacionamento ou quaisquer pessoas que forem alvos de nossa misericórdia.

CONCLUSÃO:

1. Queremos terminar a palavra desta noite fazendo duas perguntas importantes àqueles que já são crentes:

a) Como Filho de Deus, você tem sentido fome e sede da justiça de Deus? Em outras palavras, você tem fome e sede de Deus e de sua Palavra?

b) Como está seu senso de misericórdia? Você exerce misericórdia para com aqueles que vivem à tua volta?

2. Aos que ainda não crentes, queremos ressaltar que estas duas qualidades são imprescindíveis para que você possa pertencer ao Reino de Deus. Você precisa ter fome e sede da Palavra de Deus, além de abrir seu coração para a compaixão e a misericórdia.

Notas:


Earnhart, Paul, “O SERMÃO DA MONTANHA”, Livro Online, publicado por “Denis Allan” em 1997, pág. 9.


Idem, pág. 12.

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