Culto e Bíblia – compromisso com a vida

Ler:

21 Aborreço, desprezo as vossas festas, e não me deleito nas vossas assembléias solenes.
22 Ainda que me ofereçais holocaustos, juntamente com as vossas ofertas de cereais, não me agradarei deles; nem atentarei para as ofertas pacíficas de vossos animais cevados.
23 Afasta de mim o estrépito dos teus cânticos, porque não ouvirei as melodias das tuas liras.
24 Corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene.

Introdução

No calendário litúrgico cristão vivemos o período da Páscoa e Ascensão de Jesus. Nesta época lembramos da ressurreição de Jesus, suas aparições aos discípulos e ascensão. Primeiro, um momento de dúvidas e incertezas: onde está nosso mestre? O que faremos agora? Segundo, um momento de alegria e euforia: Jesus está vivo, Ele apareceu para algumas mulheres! Ele venceu a morte! Terceiro, um momento de preparação e espera: Eu enviarei um consolador, que virá sobre vós:

“E eis que sobre vós envio a promessa de meu Pai; ficai porém, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder. Então os levou fora, até Betânia; e levantando as mãos, os abençoou. E aconteceu que, enquanto os abençoava, apartou-se deles; e foi elevado ao céu. E, depois de o adorarem, voltaram com grande júbilo para Jerusalém; e estavam continuamente no templo, bendizendo a Deus.”

Este acontecimento como podemos perceber no texto bíblico conduziu os discípulos a permanecerem no “templo continuamente”.

Qual a relação destas ações com a nossa vida. O tema da mensagem é: culto e Bíblia – compromisso com a vida. O que essas palavras significam para nós? O que essas realidades expressam? Vamos analisar alguns textos bíblicos e a realidade que nos cerca para refletirmos sobre este assunto, tendo sempre à nossa lembrança este período que os discípulos ficaram e prepararam-se, aguardavam seu revestimento do alto.

Percebemos em nossos dias uma sacralização do culto e da Bíblia. Tornaram-se elementos sagrados, no entanto, em sua forma exterior. Na verdade, nada tem representado para o homem e a mulher, como Palavra de vida, Palavra que traz transformação, edificação e crescimento. Há necessidade que o culto e a Bíblia, pela ação do Espírito Santo, passem para a vida, aconteçam no viver diário. Celebra-se no culto a Bíblia, a Palavra de Deus, mas não se vive no dia-a-dia a Bíblia. Ao Espírito Santo não é permitido transformar a Bíblia em vida. Ora, a Palavra de Deus está em função da vida, sua razão de ser é o direito e a justiça. Negar isso é rejeitar a ação de Deus.

Leitura do Texto de Amós 5.21-24.

No tempo de Amós o povo encontrava-se em situação semelhante a esta que nos encontramos hoje.

1º – Contexto de Amós:

Amós era vaqueiro e cultivador de sicômoros (7.14) do sul de Técua (1.1). Deus o chamou para ir ao Reino do Norte denunciar os desvios e abusos ali presentes. Podemos situar Amós no reinado de Jeroboão II, por volta dos anos 750/760 aC. Amós encontrou uma sociedade deturpada, como a nossa hoje, muito distante da vontade de Deus. No Texto que lemos, mais precisamente, ele denuncou a forma vazia de realizar o culto, sua ostentação de riqueza que não agradava a Deus. Mais ainda, um culto que não levava em conta os preceitos do Senhor: o Direito e a Justiça.

2º – O culto: ostentação de riqueza:

Chama atenção o versículo 22, o termo animais cevados, animais gordos. Quem podia cevar animais, engordar animais? Certamente não era a viúva, o órfão, o forasteiro. O que Amós condenou não foi o culto, mas a forma de apresentá-lo. Neste culto estavam excluídos os menos favorecidos. Nisto residia o problema: na injustiça social. Vamos recorrer a um texto semelhante ao de Amós: Is 1.10-17, vv 16 e 17:

“Lavai-vos, purificai-vos; tirai de diante dos meus olhos a maldade dos vossos atos; cessai de fazer o mal; aprendei a fazer o bem; buscai a justiça, acabai com a opressão, fazei justiça ao órfão, defendei a causa da viúva.

A solução estava em atender aos pequeninos, desprezados, marginalizados. Os profetas Amós e Isaías denunciaram a prática que estavam tendo, que Deus abominava, a saber, o culto exterior. Um culto que não penetrava no fundo do ser, que não produzia transformações na vida, novas atitudes:

De que me serve a mim a multidão de vossos sacrifícios? diz o Senhor. Estou farto dos holocaustos de carneiros, e da gordura de animais cevados; e não me agrado do sangue de novilhos, nem de cordeiros, nem de bodes. Quando vindes para comparecerdes perante mim, quem requereu de vós isto, que viésseis pisar os meus átrios? Não continueis a trazer ofertas vãs; o incenso é para mim abominação. As luas novas, os sábados, e a convocação de assembléias …. não posso suportar a iniqüidade e o ajuntamento solene! As vossas luas novas, e as vossas festas fixas, a minha alma as aborrece; já me são pesadas; estou cansado de as sofrer. Quando estenderdes as vossas mãos, esconderei de vós os meus olhos; e ainda que multipliqueis as vossas orações, não as ouvirei; porque as vossas mãos estão cheias de sangue. Is 1.11-15

3º – Deus rejeita totalmente esta forma exterior de culto:

Duas palavras importantes no texto de Amós: aborreço (odeio) e desprezo. Dois verbos do original hebraico, da raiz: SANE’ e MA’AS . São estes verbos os mais fortes existentes no hebraico para indicar a rejeição. Podemos perceber, portanto, que Deus não está apenas em desacordo com a forma de cultuar, mas Ele a rejeita em toda a sua expressão. Não basta mudar essa ou aquela atitude, é necessário uma mudança completa na forma de agir e cultuar, na forma de viver. O culto nas palavras de Amós tem implicações que vão além dos ritos, vão até a forma de viver, vão até a vida.

4º – Culto – Palavra de Deus e vida:

Sim, as Palavras do Senhor na boca de Amós vão dar conta disso: do direito e da justiça como integrantes do culto. A forma de viver como forma de cultuar a Deus. No versículo 24: “Corra, porém, a justiça como as águas, e a retidão como o ribeiro perene”; outras duas palavras chamam atenção: Direito – MISPAT e Justiça – TSDAQAH .

MISPAT – Direito – dizia respeito a jurisprudência local. Quando qualquer pessoa tinha alguma queixa, deveria apresentá-la aos anciãos. Um julgamento procederia, o acusado poderia defender-se, seriam avaliadas provas e testemunhas. Este mecanismo valia para assegurar o direito dos órfãos , viúvas e estrangeiros de forma imparcial sem opressão por parte dos mais “fortes”. O que Amós denuncia é que, justamente isso, não acontecia: ao invés destes cultos aparentes que o direito seja praticado, este é o apelo de Amós.

TSDAQAH – Justiça – este termo compreendia uma estado de relacionamento íntegro entre as partes da sociedade (pais/filhos, membros da comunidade entre si). Por ausência do MISPAT (Direito) este relacionamento não era respeitado, havendo por parte de uns privilégios sobre os outros. Isto não pode acontecer, deve haver harmonia na sociedade: Justiça, este é o apelo de Amós.

Há necessidade de resgatar a justiça e o direito, já há muito perdidas. A ação de Deus está vinculada a este acontecimento. “Pois o Senhor não rejeitará o seu povo, nem desamparará a sua herança. Mas o juízo voltará a ser feito com justiça, e hão de segui-lo todos os retos de coração.” Sl 94.14-15.

Conclusão: Como temos celebrado o culto em nossos dias? Como temos observado a Palavra de Deus?

O período litúrgico que vivenciamos enseja-nos refletir sobre estas realidades. Muitas vezes queremos sair, irmos até os confins da terra e levarmos o Evangelho que liberta e salva. Mas, nesse momento, somos convidados a, como os discípulos, permanecermos em Jerusalém, continuamente no templo, bendizendo ao Senhor!

Como fazer isso a partir da Palavra de Deus é o que o texto bíblico de Amós nos orienta.

Creio que muitas vezes encaramos o culto em si, como um ato de alívio, de “missão cumprida”: – Já fizemos hoje o que é do agrado do Senhor. Este é o culto externo, odiado e desprezado pelo Senhor. Um culto que não produz nada, onde Deus não é presente.

Da mesma forma encaramos a Bíblia. No entanto, por si só, a leitura da Bíblia e o culto não passam de atitudes vazias, se não há por parte do praticante conversão ao direito e a justiça, se não é colocado em prática o Evangelho, se não há liberdade para ação de Deus e do Espírito Santo. Somente o Espírito Santo pode dar vida ao culto e à Bíblia. O Espírito Santo que age em nós, impulsionando-nos para uma vida reta.

É necessário deixarmos que o culto e a Bíblia passem pela vida. Como celebrar o culto ou ler a Bíblia, persistindo ao nosso redor atitudes de injustiça? Quando ficamos omissos ou até mesmo coniventes com essas atitudes. Quando somos os responsáveis pela falta de unidade, pela fofoca, pela intriga em nosso meio.

Deus chama-nos para sermos santos. O que acontece e queremos fazer os outros santos, e acabamos esquecendo de nós mesmos. A transformação deve partir de cada um de nós, tornemo-nos santos. Que o direito e justiça sejam constantes em nossas vidas. Que o nosso culto e leitura da Bíblia não sejam vazios. Que possamos mudar isso. No cotidiano de nossas vidas estejamos em acordo com a leitura da Palavra de Deus, sejam nossas vidas um culto ao Senhor.

Basta de legitimarmos a injustiça. Tenhamos um culto libertador. Que o Espírito Santo seja presente em cada coração para uma vida plena na presença do Senhor. Queremos que o Reino de Deus aconteça em nosso meio. Que todos tenhamos uma vida de paz, amor, alegria e comunhão com os outros e com Deus. Seja o Culto e a leitura da Bíblia um revestimento do alto para nossas vidas. Neste tempo, continuamente, vamos adorar e bendizer ao Senhor. Que Deus nos abençoe.

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