Espiritualidade da resistência no Apocalipse

Neste sermão vamos aprender sobre a espiritualidade da resistência no apocalipse.

Texto: Ap 1:9

1. Espiritualidade da resistência é espiritualidade comunitária

João se apresenta como irmão e companheiro. Suas credenciais não são derivadas de cargos ou posições que ele ocupava na Igreja ou em qualquer outra instituição. Sua credibilidade vem de sua relação pessoal com Deus e de sua solidariedade com a comunidade cristã. Suas credenciais são as credenciais da vida em comunidade:

(1.1) ele é irmão, ou seja, é um dos filhos de Deus, uma das pessoas que encontrou a verdade e a vida na mensagem do Evangelho e se submeteu ao Senhor Jesus Cristo – por isso, tornou-se membro de uma nova família, a Igreja, comunidade de irmãos e irmãs – na qual os valores e as posições ocupadas no mundo perdem sua razão de ser, e todos se tornam um, “porque Cristo é tudo em todos”! (Gl 3,26-29; Cl 3,9-11);

(1.2) ele é companheiro, co-participante, é um irmão presente, que está junto com sua família e enfrenta junto com ela todas as lutas da vida, e experimenta junto com ela as alegrias da vida. João, irmão e companheiro, em Jesus! O ponto de referência da vida de João é Jesus. Só por causa de Jesus João pode ser irmão e companheiro. É porque participa da vida de Jesus, que João participa da vida dos irmãos e irmãs; e é por causa de Jesus que João está exilado.

2. Espiritualidade de resistência é espiritualidade subversiva

João estava em Patmos, uma ilha próxima à costa da Ásia Menor, a província romana na qual ficavam as “sete igrejas”. Por que um homem de Deus estava exila-do? Porque fora considerado um criminoso político, um subversivo, um agitador (cf. At 17,7). O exílio era a pena para criminosos políticos. Por que João foi considerado um subversivo? Porque ele pregava a palavra de Deus e dava testemunho de Jesus Cristo.

Não parece estranho? Por que a pregação do Evangelho seria considerada crime político? Não é a religião algo separado da política? Não é a comunidade cristã uma comunidade obediente às autoridades (cf. Rm 13,1)? Pregar o Evangelho era crime político no tempo de João porque era o anúncio de que há um só Senhor sobre a face da terra: Jesus Cristo.

Isso era crime, pois o Império Romano afirmava exatamente o contrário: há muitos deuses e as pessoas podiam crer em quantos deuses quisessem, e adorá-los como bem entendessem – desde que reconheces-sem que há um só Senhor na terra: o Imperador romano! (Em várias moedas do Império Romano, a efígie do imperador era circundada pelos ditos: filho de Deus e Salvador!) Os cristãos do tempo de João não se recusavam a obedecer aos governantes – com uma exceção, porém: quando a obediência ao governante exigia algo que só se podia dar ao Senhor Jesus Cristo! Lealdade absoluta, obediência perma-nente e constante, fidelidade e discipulado somente ao Senhor Jesus.

João seguiu o exemplo de Pedro e João (ele mesmo, ou outro João?) que anunciaram corajosa-mente diante das autoridades judaicas que os haviam prendido: “E não há salvação em nenhum outro; porque abaixo do céu não existe nenhum outro nome, dado entre os homens, pelo qual importa que sejamos salvos.” (At 4,12)

3. Espiritualidade de resistência é espiritualidade da fidelidade missionária

João é pregador do Evangelho e testemunha do Senhor Jesus. João, o exila-do na ilha de Patmos, é nosso irmão e companheiro na tribulação, no Reino e na resistência. Tribulação, porque perseguido, condenado e exilado. Tribulação provoca-da pelo ódio do Império, pela rejeição do mundo ao senhorio de Jesus Cristo. Não a tribulação individualista de hoje em dia (não conseguir comprar isto ou aquilo, não receber o amor que se queria receber, não ter …). Tribulação experimentada pela comunidade cristã, proibida de dar testemunho e intimidade pelo poder do Império através da prisão de seu líder. Tribulação provocada pela submissão ao reino de Deus.

Somente Deus reina, somente a Ele damos nossa lealdade e somente Ele conduz nossas vidas! Nenhum imperador aceita isto: seja o imperador romano, seja o imperador dinheiro, seja o imperador consumo, seja o imperador prazer, seja o imperador poder! Diante da perseguição, da intimidação, o que faz a comunidade cristã? Resiste, não se amedronta, não se acovarda. Fica firme. A palavra resistência, também pode ser traduzida por paciência ou perseverança. É resistência perseverante, e perseverança resistente. Nos tempos de João, a palavra era usada para se referir aos soldados que, na hora do combate, não fugiam do campo de batalha!

Conclusão

A espiritualidade da resistência é missionária, porque é a espiritualidade de quem não foge do mundo, o nosso campo de batalha, ao mesmo tempo em que não se conforma com ele. De quem não desiste de anunciar a Palavra e de dar teste-munho de Jesus, não importa o custo! Em Ap 13,10 e 14,12 João reforça o sentido missionário e corajoso da resistência cristã.

A resistência cristã é resistência contra toda e qualquer forma de idolatria (cf. Ap 20,4), especialmente a idolatria que não tem cara de religião – a fidelidade ao sistema econômico e político do mundo. Nas palavras de outro João (J. Stam), irmão e companheiro nosso na Guatemala e Nica-rágua, “João parece estar convicto de que a Igreja é chamada a uma missão de te-nacidade, resistência e contracultura dentro do sistema corrupto que a rodeia” (“La misión de la iglesia en el Apocalipsis” in PADILLA, C. R. (org.), Bases Bíblicas de la Misión, Nueva Creción, Buenos Aires, 1998, p. 378)

Amém.

Autor: JÚLIO PAULO TAVARES ZABATIERO

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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