Na caverna da tribulação

O Hino 380-HCC que iremos cantar no final deste culto foi baseado neste Salmo 142. É uma oração do Rei Davi no meio de uma grande tribulação. O episódio desta tribulação esta registrado no Livro de 1 Samuel capítulo 22. É o momento em que Davi esta fugindo do Rei Saul que procura mata-lo.

Parece que este episódio marcou mais a vida de Davi do que a própria tentativa do seu filho em destrona-lo, porque este é o oitavo e último dos Salmos que ele compôs queixando-se da situação que viveu sob a perseguição de Saul.

A versão NVI traz neste Salmo o seguinte título: “Poema de Davi, quando ele estava na caverna. Uma oração”. – Entretanto em algumas traduções o título deste Salmo vem marcado como “Masquil de Davi”. “Masquil” é um dos termos técnicos do livro de salmos para designar uma composição poética para ensinar uma lição. E só por isso nós já podemos aprender uma lição aqui. DAVI está em perigo de vida e em vez de ficar chorando a miséria e ficar se queixando, ele quer ensinar alguma coisa aos outros.

E com toda certeza à semelhança de Davi muitas vezes passamos pela caverna, passamos pela depressão. Quem é que nunca se sentiu aflito? Quem nunca sentiu a hostilidade de um inimigo poderoso? Quem nunca enfrentou uma incompreensão no trabalho ou dentro de casa? Quem nunca viu um ente querido acometido de uma doença terminal? Quem nunca viu a doença, a incompreensão, a doença, a discórdia baterem à sua porta? Quem é que nunca esteve numa caverna?

Davi estava na caverna da depressão, seu salmo é uma expressão profunda de alguém que está muito deprimido, mas ao mesmo tempo uma expressão de confiança em Deus que nos ajuda a entender como devemos nos comportar.

Analisando este salmo eu gostaria de ver com os irmãos dentro da estrutura dele três aspectos, Primeiro: a situação de um homem na caverna, Segundo: a atitude de um homem na caverna, e Terceiro: o pedido de um homem na caverna.
Vejamos a SITUAÇÃO DE UM HOMEM NA CAVERNA, versículos 3 e 4: “Quando o meu espírito desanima, és tu quem conhece o caminho que devo seguir. Na vereda por onde ando esconderam uma armadilha contra mim. Olha para a minha direita e vê, ninguém se preocupa comigo. Não tenho abrigo seguro, ninguém se importa com a minha vida.” …. Davi esta se referindo ao momento que ele enfrenta um Saul enlouquecido.

Para termos conhecimento deste contexto precisamos ir ao Livro de 1 Samuel 18:7-9: “As mulheres dançavam e cantavam: Saul matou milhares, e Daí, dezenas de milhares. Saul ficou muito irritado com esse refrão e, aborrecido disse: Atribuíram a Davi dezenas de milhares, mas a mim apenas milhares. O que mais lhe falta senão o reino? Daí em diante Saul olhava com inveja para Davi”.

Começa aqui o processo de desintegração da personalidade de Saul e não é um problema emocional, é um problema espiritual. A situação então de Davi é desesperadora porque o que sucede é que ele vem fugindo de Saul e este Salmo, o oitavo, em que ele expressa o seu abandono, retrata muito bem o que se passa no seu coração. A situação é desesperadora.

Vejam o que ele diz no versículo 3, logo no início: “Quando o meu espírito desanima..”. A versão na Linguagem de Hoje diz: ”Quando eu estou a ponto de perder a esperança”. E as vezes pensamos que esses grandes vultos da Bíblia eram pessoas inabaláveis. Que podiam sofrer as maiores catástrofes pessoais, sem sequer ter uma marca de preocupação no rosto.

Mas DAVI em sua oração diz: “Quando eu estou a ponto de perder a esperança” . Ora, passar por aflições, sentir-se angustiado e desesperado, não é sinal de falta de fé. Isto pode acontecer com qualquer pessoa e com a melhor delas. No Evangelho de Marcos, capítulo 14, versículo 33, a Bíblia diz isto sobre Jesus: “Levou consigo Pedro, Tiago e João e começou a ficar aflito e angustiado…”

Não é Judas quem está apavorado e nem se angustiando, é Jesus. Não é de se estranhar que Davi também se sentisse a ponto de perder a esperança e não devemos presumir também que quando o peso sobre os nossos ombros é tão grande que nos sentimos a ponto de nos desesperar…. que estejamos negando a nossa fé. Nenhum de nós pode presumir que seja mais espiritual que Jesus Cristo e tampouco presumir que tenha uma estrutura superior à sua. “Quando dentro de mim esmorece o meu espírito, quando estou a ponto de perder a esperança,… então tu conheces a minha vereda”.
Há uma explicação que precisa ser dada. Geralmente, no texto hebraico, nas construções verbais a ênfase vem no verbo, o verbo é muito forte. Entretanto, temos uma construção aqui em que a ênfase está no pronome, no tu, é como se Davi dissesse: quando estou a ponto de perder a esperança então tu, tu mesmo, conheces a minha situação. O tu é enfático.

As pessoas podem não saber o que se passa dentro dele, mas Deus sabe. Pode ser uma pressão muito grande e ele está a ponto de perder a esperança, mas Deus não ignora, o próprio Deus. Não é como se ele estivesse inacessível e dissesse: olha, vai aí um anjo, um Office boy espiritual para saber o que se passa com você. Não! É o próprio Deus quem conhece.

Esta é a mensagem bíblica – Deus conhece. Isto não lhe é ignorado. Em alguns momentos podemos parecer sozinhos. No versículo 4 ele diz, olha a mão direita e vê. Davi está dizendo para Deus, olha tu, olha para a minha direita e vê. Por que Davi está pedindo para Deus olhar para o seu lado direito? Porque quando alguém aparecia ao tribunal judaico, hebreu, para se defender o seu advogado ficava ao lado direito, ou seja, o lado direito era o lugar do advogado.

Agora Davi está diante de Deus, acusado pelo próprio Rei, com o exército do rei procurando matá-lo e diz a Deus, eu não tenho quem me defenda. Não tenho ninguém ao meu lado, olha para a minha mão direita, olha para o lugar onde deveria estar alguém para me defender, em outras palavras o que ele está dizendo é o seguinte: eu estou a ponto de perder a esperança, estou abandonado. Esta é a situação de um homem na caverna.

E quem já passou pela caverna sabe o que é isso, de se sentir abandonado, de se sentir rejeitado. Se você nunca passou pela caverna não sei se dou os parabéns por ser um supercrente ou pêsames porque alguma coisa está errada. Mas se você algum dia passou e se hoje você esta passando, você sabe o que é isto: abandono, desamparo, prestes a perder as esperanças….

Mas se esta história terminasse aqui seria uma história trágica e iríamos para casa chorar a nossa miséria. Entretanto o Salmo continua e nos mostra em segundo lugar A ATITUDE DE UM HOMEM NA CAVERNA.

Vv. 1, 2 e 5: “Em alta voz clamo ao Senhor, elevo a minha voz ao Senhor, suplicando misericórdia, derramo diante3 dele o meu lamento, a ele apresento a minha angústia. Clamo a ti Senhor, e digo: Tu és o meu refúgio, é tudo o que tenho na terra dos viventes”.

Vimos a situação de um homem na caverna e agora vamos à nossa segunda parte. Qual é a atitude de um homem na caverna? Arrancar os cabelos? Dar testada na parede? Torcer as mãos? Afligir-se? A única alternativa é a que Davi encontrou: ele se entregou à oração.

Do lado de fora da caverna estão Saul e o seu exército, do lado de dentro ele está sozinho. Quando estamos na caverna estamos inferiorizados e nossa única alternativa é a oração.

“Com a minha voz clamo ao Senhor…” – Clamar aqui dá a idéia de gritar em alta voz. Não é aquela oração murmurada, que às vezes oramos e quem esta do nosso fica tentando entender o que estamos orando, mas a oração dele vem lá de dentro, como um grito…

O verbo significa o urro do leão ferido acossado por caçadores e prestes a morrer. Ele se vê como um animal acossado por caçadores prestes a morrer. Não é uma oração de desencargo de consciência, é um urro que vem de dentro de sua alma, é a oração do desesperado.

É uma situação muito aflitiva, mas nós descobrimos que a caverna é um dos lugares onde mais nós descobrimos a graça de Deus e é um dos lugares onde se pode ter a experiência mais profunda com Deus. Por isso ele clamou e gritou, e isso não significa falta de fé!

Por outro lado o silencio sim pode ser o desespero, a entrega dos pontos. Estava lendo alguns dias atrás o relato de alguém que foi a um Safari Fotográfico e ele dizia, fazendo uma explicação de como vivem os animais na África, disse que quando vem o período de seca eles andam longamente a procura de água, e quando não a encontram eles se deitam sob uma árvore para esperar a morte. Sentem por instinto que não há água e vão morrer, entregam os pontos, deitam e ficam esperando a morte chegar.

Devemos evitar confundir as coisas, por vezes a pessoa é apática, entregou os pontos e nós pensamos que aquilo é fé, ou a pessoa está expressando toda a sua inquietação clamando e gritando ao Senhor e nós dizemos, que é falta de fé…. As vezes a pessoa só tem Deus para gritar! Só tem Deus para abrir o coração….
Davi nos ensina qual é a atitude de uma pessoa na caverna, é abrir o coração diante de Deus, não mascarar os sentimentos. Até porque ficou muito arraigado entre nós a idéia de que crente não tem problema e se tiver problema é porque está em pecado, que a nossa vida é uma vida de um sorriso constantemente afivelado no rosto.

Não podemos dizer que temos problemas e se dissermos a pessoa que perguntou até vai embora, mas aprendemos que na caverna aí está melhor lugar para dialogar com Deus, para compartir as emoções com Deus. Jesus esteve na caverna como vimos em Marcos 14:33, começou a angustiar-se e a ter pavor. Por isso nós lemos em Hebreus 5:7 – “Ele, Jesus, nos dias da sua carne, tendo oferecido, com forte clamor e lágrimas, orações e súplicas a quem o podia livrar da morte, e tendo sido ouvido por causa da sua piedade”.

Ele também orou, também chorou, também gritou, também esteve na caverna por isso quando abrimos o coração para com Deus não oramos a um Deus distante e inacessível. O que deve fazer uma pessoa na caverna? Ela deve se abandonar aos cuidados de Deus.

Agora o último aspecto do nosso salmo: O PEDIDO DO HOMEM NA CAVERNA. Vv. 5 a 7: “Clamo a ti Senhor, e digo: Tu és o meu refúgio, é tudo o que tenho na terra dos viventes. Dá atenção ao meu clamor, pois estou muito abatido, livra-me dos que me perseguem, pois são mais fortes do que eu. Liberta-me da prisão, e renderei graças ao teu nome. Então os justos se reunião à minha volta por causa da tua bondade para comigo”.

V. 6 – “Dá atenção ao meu clamor…” – Davi quer uma coisa, ele quer algo, ele diz aqui: “Estou muito abatido. Literalmente: “estou perdendo as forças, se o Senhor não me socorrer não vou demorar muito. Atende ao meu clamor porque estou perdendo as forças. Livra-me dos que me perseguem”.

Esta expressão literal pode ser: “Livra-me dos cães de caça”. Já viram aqueles filmes ou desenhos animados dos cães atrás de uma raposa? É assim que DAVI se sente. Livra-me dos cães de caça que estão nos meus calcanhares! Não deve ser muito fácil ter um bando de “pit bull” correndo atrás de si. É assim que DAVI se sente, tenho esse bando de “pit bulls” atrás de mim, e eles são mais fortes do que eu….

Ah! Irmãos aqui nós precisamos pensar sobre o problema do triunfalismo evangélico. Quem já viveu sob intensa opressão, ou quem já foi fortemente tentado, sabe muito bem que não se mobiliza Satanás com chave de braço e nem se amarra com uma palavra. Fomos feitos, segundo o salmo 8, pouco abaixo dos anjos e ele é um anjo, caído, mas é um anjo e é mais forte do que nós. O diabo, vosso adversário anda ao vosso redor rugindo como leão, não diz que ele anda como gatinho doméstico fugindo de vós e quantas vezes a pressão é tão grande que dizemos como Davi, olha, eu não vou durar muito, eles são mais fortes do que eu.

Nós não podemos viver neste triunfalismo de que nós podemos resolver tudo com uma frase feita: “Está amarrado em nome de Jesus”. Mas vivenciar este reconhecimento: “Eu estou desesperado, vou morrer, preciso de ajuda. Tira-me da prisão”. DAVI se sente como alguém aprisionado, ele está numa caverna, e aí pede: “Tira-me da prisão, livra-me e quando isso acontecer eu vou louvar o teu nome. Quando eu experimentar a libertação não vou achar que o Senhor fez a obrigação, vou louvar o teu nome e os justos me rodearão, pois me farás muito bem”.

O pedido de um homem na caverna é uma declaração de confiança em Deus, integral, e uma disposição de testemunhar o que Deus fez na sua vida.

Mas vamos ao fim. Como terminou a história? O fim da história está em I Samuel 22:1-2: “Davi fugiu da cidade de Gate e foi para a caverna de Adulão. Quando seus irmãos e a família de seu pai souberam disso, foram até lá para encontra-lo. Também juntaram-se a ele todos os que estavam em dificuldades, os endividados e os descontentes, e ele se tornou o líder deles. Havia cerca de quatrocentos homens com ele…”

Ou seja, quando ele estava na caverna Adulão e se sentia sozinho, completamente abandonado, diz o texto bíblico que todo endividado (e se isso fosse nos dias de hoje seria quase toda a população brasileira a não ser uns poucos), todo amargurado, um grupo enorme de pessoas foi procurar por Davi e este grupo formou o núcleo que garantiu o seu reino depois, foram os homens de confiança de Davi.

Que coisa fantástica, num dos momentos mais dolorosos da sua vida ele recebe o socorro e o livramento de Deus porque o próprio Saul reconhece como estava errado, mas Davi recebe a solidariedade de amigos que vão acompanhá-lo por toda a sua vida.

Passar pela caverna não é tão miserável assim. Pode ser uma experiência profunda quando se pede o livramento e quando se reconhece o livramento. A Bíblia nos exorta a abrirmos o coração com Deus , a orar como Davi: “Eu estou muito abatido, me livra se não eu vou morrer”.

Conclusão:

Eu quero encerrar minha palavra dizendo que nós aprendemos isto na experiência de Davi: podemos entrar na caverna, podemos passar um tempo na caverna, mas nós nunca ficaremos na caverna, ela não é o nosso lugar. O lugar de Davi não era a caverna mas o trono. Deus o tirou de lá e confirmou o que prometera a ele.

Portanto se você está na caverna, isto é provisório, não é o seu lugar, você está lá para aprender alguma coisa e aprofundar a sua comunhão com Deus. E eu quero terminar a minha palavra com o texto I Corintios 10:13 – “Não sobreveio a vocês tentação que não fosse comum aos homens. E Deus é fiel, ele não permitirá que vocês sejam tentados além do que podem suportar. Mas quando forem tentados, ele mesmo lhes providenciará um escape, para que o possam suportar”. – Ou seja, podemos estar na caverna mas nunca estaremos desamparados!!!!

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