(Paradoxo=contradição aparente)
INTRODOÇÃO: Quando imaginamos a necessidade do ser humano de ser alcançado por Deus, de ser salvo por ele, nos deparamos com a facilidade e com o grave erro de achar que muitas pessoas boas até poderiam merecer tal graça divina.
A mais comum de todas é quando a religiosidade toma o centro dessa pretensa justificação sendo tal atitude torpe e ineficaz, dando a impressão que tal procedimento, que uma religiosidade frívola, baseada na justiça humana é fato merecedor da graça divina.
O texto de romanos nos mostra uma realidade diferente da pretensa justificação humana pelos seus próprios méritos, onde a mentalidade judaizante tinha na obediência á lei o propósito de ser declarado justo diante de Deus (Rm.3.20).

PROPOSIÇÃO: O propósito dessa reflexão é rememorar doutrinas que embora tão básicas, são indispensáveis para a saúde de nossa fé e de nossas igrejas na atualidade, freqüentemente assaltadas por ventos de doutrinas perniciosas.

TRANSIÇÃO: Qual é portanto o ensino Paulino a esse respeito? Porque o tema dessa reflexão é: “O paradoxo (contradição aparente) dos eleitos de Deus?”. Vejamos três (aspectos) fundamentações que justificam tal proposta reflexiva.

PONTO 01 = A CONDIÇÃO DO SER HUMANO DIANTE DE DEUS.
A mais terrível condição que alguém possa imaginar a respeito de si próprio não é capaz de traduzir do que o pecado nos privou.
O ser humano conforme citação de Paulo em Rm 3.23 é que: Todos pecaram e estão afastados da presença gloriosa de Deus. Essa é certamente a mais trágica conseqüência do pecado, nossa separação do Deus eterno, há uma segunda e indesejável condição que o pecado nos trouxe, a morte, pois o salário do pecado é a morte.
A queda do ser humano se deu em todas as áreas da sua vida, quer a espiritual, moral, física, emocional e volitiva, a essa abrangência da contaminação do pecado na vida do ser humano Calvino pontua como a “depravação total”, ou seja, não há parte em nós que não tenha sido afetada pela queda.
O profeta Isaías afirma 64.6 “Mas todos nós somos como o imundo, e todas as nossas justiças, como trapo da imundícia; todos nós murchamos como a folha, e as nossas iniqüidades, como um vento nos arrebatam.”
O próprio Paulo cita o AT. em Rm. 3.10-18 “Como está escrito: Não há justo, nem um sequer, não há quem entenda, não há quem busque a Deus; todos se extraviaram, à uma se fizeram inúteis; não há quem faça o bem, não há nem um sequer. A garganta deles é sepulcro aberto; com a língua, urdem engano, veneno de víbora está em seus lábios, a boca, eles a têm cheia de maldição e de amargura; são os seus pés velozes para derramar sangue, nos seus caminhos, há destruição e miséria; desconheceram o caminho da paz. Não há temor de Deus diante de seus olhos.”
Fica patente à luz da palavra de Deus nossa condição diante de Deus.
Sendo nossa condição tão deplorável e estando nós mortos, lembrando que morto não tem qualquer reação, não podemos reivindicar nada por méritos nossos diante de Deus para nossa justificação.
Nossa dependência é total da ação única da parte de Deus.

O segundo fundamentação dessa proposta reflexiva é:

PONTO 02: A AÇÃO DE DEUS A FAVOR DOS SEUS ELEITOS.
É a favor dos seus eleitos pois somente os eleitos por Deus é que recebem sua justificação e sua misericórdia.
Se por um lado a nossa condição é absolutamente desfavorável, desqualificada, inoperante e sem mérito de qualquer favor ou graça divina, Deus toma a iniciativa de nos alcançar.
É um ato total, absoluto e irrefutável da parte de Deus, não há em nós mérito ou atitude para tal ação divina.
É, portanto, um paradoxo mas não uma contradição de fato a nossa justificação diante do próprio Deus, dado a proporção da nossa distância, da nossa condição anteriormente citada.
O que temos em nós que possa explicar tal justificação da parte de Deus?
Absolutamente nada.
Para um judeu a justiça de Deus é segundo a lei, no entanto em Jesus Cristo a justiça de Deus se revela em perdão e misericórdia, fundada na gratuidade do amor e não no valor das obras da lei.
É a justiça de Deus pela fé em Jesus Cristo, Rm 9.14 a 16 diz: “Que diremos pois? Há injustiça da parte de Deus? De modo nenhum. Pois ele diz a Moisés: Terei misericórdia de quem me aprouver ter misericórdia, e compadecer-me-ei de quem me aprouver ter compaixão. Assim não depende de quem quer, ou de quem corre, mas de usar Deus a sua misericórdia.”
Tal revelação e pregação por Paulo provocam uma revolta junto aos religiosos judaicos no tempo de Paulo, é um contra-senso, isso aos religiosos e ao povo que se acha escolhido, merecedor e cumpridor da lei, Paulo afirmar não serem participantes de tal graça divina pela obediência a lei apenas.
A lei não transforma o homem, revela sim sua condição de pecador. (Rm 3.20)
Jesus Cristo é o único que pode justificar desde que tenhamos fé em sua pessoa, fé esta dada também por Deus, Ef 2.8,9 “Porque pela graça sois salvos, mediante a fé; e isto não vem de vós, é dom de Deus; não de obras, para que ninguém se glorie.”
Usando do mesmo argumento, fundamentando sua antítese à salvação pelas obras da lei, Paulo aos Gálatas diz: “sabendo, contudo, que o homem não é justificado por obras da lei, e, sim, mediante a fé em Cristo Jesus, também nós temos crido em Cristo Jesus, para que fossemos justificados pela fé em Cristo e não por obras da lei, pois por obras da lei ninguém será justificado.” Essa afirmação procede de um judeu outrora fariseu, agora redimido e justificado pela graça de Deus.
A transformação que a fé em Jesus Cristo proporciona é diametralmente oposta ao que a lei diz proporcionar.
Em Jesus Cristo declaramos que somos pecadores e dependentes de sua graça e misericórdia, pela lei a justificação é buscada apela obras, o que é um desastre e inútil diante de Deus.
A ação de Deus a favor dos seus eleitos é completa, é absoluta e suficiente em Jesus Cristo.
A essa ação unilateral de Deus conhecida como “Graça irresistível” o “charis”, o favor imerecido, é portanto um ponto inegociável da nossa pregação do evangelho.

O terceiro e último fundamento dessa proposta reflexiva é:


PONTO 03: A JUSTIFICAÇÃO É UNICAMENTE PELA FÉ.
Paulo ao escrever essa carta à comunidade de Roma, comunidade esta que conforme os historiadores bíblicos ele não fundou e que nunca a havia visitado, tem como propósito tornar mais claro sua exposição em defesa da salvação pela fé. É uma sistematização do conteúdo da carta aos gálatas, é uma linguagem mais apropriada, mais acessível á compreensão daquela comunidade.
É a antítese fé e obras, e esse é ainda hoje o risco que continuamos a correr.
Louis Berkof, em seu livro; “Manual de doutrina cristã” diz que Justificação pela fé é o fato de nós nos apropriarmos dos méritos de Cristo como base de nossa justificação e assim entrarmos na posse da graça justificante de Deus.
São portanto os méritos de Cristo, sua retidão perfeita a base real da nossa justificação.
Ao crermos, aplicando a fé que por Deus nos é dada como dom, na obra vicária de Jesus Cristo, tomamos posse de tão grande salvação.
Em Hb.11.6 diz “De fato, sem fé é impossível agradar a Deus, porquanto é necessário que aquele que se aproxima de Deus creia que ele existe e que se torna galardoador dos que o buscam.
No texto que nos serve como base, em Rm 3. 28 diz: “Concluímos, pois, que o homem é justificado pela fé, independente das obras da lei”.
Aqui está a antítese que Paulo defende, em oposição a tese da justificação pelas obras da lei, as obras da lei jamais poderão substituir a fé na obra redentora de Deus.
As obras da lei, a justificação pelos méritos pessoais, pela suposta obediência à lei é uma afronta ao sacrifício do Filho de Deus.
Fazendo uma alusão a essa justificação pela fé, alguém assim ilustrou:
Ao chegar ao céu um homem, Deus ao recebe-lo à porta lhe pergunta: Porque eu deveria deixa-lo entrar no meu céu? E este respondeu: porque eu cri em seu filho como meu salvador e senhor e nas suas promessas de vida eterna.

CONCLUSÃO:
Nossa real condição de pecador, a grandeza da graça de Deus manifestada em contraste a essa sórdida realidade humana e o dom da fé em Jesus Cristo deve ser ensinada, pregada, proclamada e testemunhada como revelação de Deus, genuinamente bíblica, capaz de despertar a fé naqueles que ouvem o evangelho.
É um desafio permanente avivar em nossas mentes e corações a chama viva da fé genuína e fundamentada na plena revelação de Deus.
Os ventos de doutrina sempre assolaram a igreja, e em nossos dias não é diferente, onde os mais diversos cardápios de consumo se multiplicam em mentiras vestidas de verdade, roubando e enganando os incautos, sofismas que brilham, mas que matam.
O caminho mais largo, sem compromisso, sem balizamento, e principalmente o da auto-justificação, tem um “que” de “mais humanamente correto”, afinal “temos que lutar para conseguir nossas conquistas”, porém no reino de Deus essa regra não se aplica e com ela não se alcança a graça e a justificação diante de Deus.
Esse preço só Jesus Cristo pode pagar.

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