O Que Temos a Temer?

Introdução

O texto acima é um estudo maravilhoso do crente destemido. Ao meditarmos sobre esta porção da Palavra de Deus, e examinarmos o comportamento destes três homens piedosos, Sadraque, Mesaque, e Abednego, aprenderemos muito sobre o que pode livrar o filho de Deus do temor, mesmo em momentos de extremo perigo.

Como é o perfil do filho de Deus que vive uma vida isenta de temor? É importante lembrar que todas as coisas, quaisquer que sejam, que o filho de Deus buscar nesta vida, devem ser para a glória do seu Deus. Deve haver uma prioridade santa na vida do cristão. A vida cristã normal – não a vida cristã comum – é aquela que busca intensamente, não o conforto, nem a tranqüilidade, e nem a segurança, mas o próprio Deus. É uma vida, que mesmo durante tempos de grande aflição e dificuldades, busca auxílio e livramento, não por amor a si mesma, mas por amor a Deus.

O salmista disse: “Assiste-nos, ó Deus e Salvador nosso, pela glória do teu nome; livra-nos e perdoa-nos os pecados, por amor do teu nome” (Sl 79.9). Nossa própria salvação nos foi dada, não por nossa causa, mas causa dele. Estamos neste planeta por uma só razão, que é viver para a glória do seu nome.

Não existe dúvida alguma de que estes três homens da história de Daniel trouxeram glória para Deus pela forma como se conduziram diante do rei Nabucodonosor. Uma das maneiras em que o verdadeiro filho de Deus glorifica o seu Deus, o verdadeiro Deus, é quando se recusa a adorar falsos deuses. Vemos isto claramente em Daniel 3.18, onde disseram: “… não serviremos a teus deuses, nem adoraremos a imagem de ouro…”

Precisamos sempre ser examinados pela verdade da santa Palavra de Deus. Será que posso estar servindo a outros deuses na minha vida tanto quanto sirvo ao Senhor Deus Jeová, ou até mais? Examine-se a si mesmo, junto comigo. Como você está em relação ao deus do dinheiro, ou das possessões, ou do sucesso, ou do reconhecimento, mesmo que este venha por causa do nosso serviço em favor do Deus verdadeiro? E os deuses da família ou dos amigos? Será que estamos colocando criaturas antes do Criador?

Isaías 26.13 diz assim: “Ó Senhor, Deus nosso, outros senhores têm tido domínio sobre nós…” Algo sempre tem o poder ou o direito de nos governar e controlar. Algo sempre terá autoridade soberana na minha vida. “Ó Senhor Deus nosso”, ou seja, “Ó Senhor, o único verdadeiro Deus, o soberano Deus, o Deus que deveria ter completo e soberano controle sobre minha vida – outros senhores além de ti tiveram autoridade soberana sobre mim! E não quero que seja mais assim!”

Uma das evidências de que você pertence a Deus é o fato de ter, nas profundezas mais íntimas do seu coração, um anseio por Deus, uma enorme sede para que ele ocupe este lugar na sua vida!


Reação à Ameaça de Morte

Na passagem de Daniel que estamos examinando, Sadraque, Mesaque e Abednego receberam a ameaça do rei Nabucodonosor de serem mortos na fornalha – e notamos que esta ameaça praticamente não os intimidou. Logo após a pergunta do rei no versículo 15: “E quem é o deus que vos poderá livrar das minhas mãos?”, sem hesitar por um instante, veio a resposta: “Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder”. Existe uma admirável indiferença na sua reação à pergunta ameaçadora do rei Nabucodonosor. Foi uma indiferença que nasceu de sua profunda confiança em Deus Jeová.

“Porque o Senhor será a tua segurança e guardará os teus pés de serem presos” (Pv 3.26). Esta indiferença tranqüila revela como o crente destemido, o santo corajoso, pensa. “Ó Nabucodonosor, quanto a isto não necessitamos de te responder.” Em linguagem mais moderna, poderíamos dizer assim: “Sr. Nabucodonosor, realmente isto não é uma grande decisão para nós. Tudo o que sabemos é que servimos ao verdadeiro Deus vivo, que é capaz de nos livrar, se assim ele quiser… ou de não nos livrar. Somos dele, prontos para viver ou morrer, conforme ele determinar.”

“Porque, se vivemos, para o Senhor vivemos; se morremos, para o Senhor morremos. Quer, pois, vivamos ou morramos, somos do Senhor” (Rm 14.8).

O cristão destemido não se preocupa com conseqüências ou resultados. Sua única preocupação é obedecer e glorificar seu Deus. Estes três moços hebreus tinham tanto temor de Deus que não temiam a nenhum homem, nem que fosse um homem tão poderoso como o rei. “Afastai-vos, pois, do homem cujo fôlego está no seu nariz. Pois em que é ele estimado?” (Is 2.22). Quanto maior for nosso temor de Deus, menor será nosso temor dos homens. Quanto mais nos espantarmos com a presença de Deus, menos nos espantaremos com a presença do homem. Não se pode espantar com Deus e com o homem ao mesmo tempo!

“…porque ele tem dito: De maneira alguma te deixarei, nunca jamais te abandonarei. Assim, afirmemos confiantemente: O Senhor é o meu auxílio, não temerei; que me poderá fazer o homem? (Hb 13.5,6).

O santo destemido não teme ao homem. E também não procura ser uma ameaça aos outros. Observe que mesmo sob ameaça de morte, Sadraque, Mesaque e Abednego não demonstraram a menor insinuação de chamar o juízo de Deus sobre o rei. Não os ouvimos dizer: “Escute, Sr. Rei, por acaso o senhor sabe quem é nosso Deus? É melhor não nos colocar naquela fornalha, senão um dia será jogado em uma que é muito pior! Clamaremos a Deus, e ele o julgará!”

Não falaram isto, certo? “Pois ele, quando ultrajado, não revidava com ultraje; quando maltratado, não fazia ameaças, mas entregava-se àquele que julga retamente” (1 Pe 2.23). Este versículo refere-se, evidentemente, ao nosso bendito Salvador, o Senhor Jesus. Sua reação ao tratamento injusto recebido das mãos dos homens foi a mesma que vimos nos três jovens hebreus, no momento do seu grande perigo e necessidade. Não reagiram agressivamente à agressão do rei. Simplesmente se entregaram àquele que “julga retamente”, ao Senhor Jeová, seu Deus.

Há uma outra coisa no comportamento destes três hebreus diante do perigo que queremos notar. Será que estes homens foram valentes e corajosos porque os três coincidentemente tinham este tipo de disposição e temperamento? Estamos vendo aqui uma mera coincidência de três pessoas que possuíam uma tendência natural de coragem e destemor?

Quando se trata das coisas do Espírito, traços de personalidade nada têm a ver com a ausência ou presença de temor na vida do filho de Deus! O crente destemido, entregue a Deus, não está acima do temor por causa de si mesmo, nem por causa do seu temperamento. Seu destemor não vem dele, nem da composição da sua personalidade. O homem espiritual não encontra coragem olhando para dentro de si, mas olhando para cima! A pessoa que é entregue a Deus, centrada em Cristo, não é forte – é fraca! O santo que anda com Deus sabe que a força que tem em todas as provações da vida não vem de si mesmo.

Pelo contrário, sabe muito bem que não possui força ou coragem alguma no seu interior. E sabendo disto, lança-se inteiramente na dependência do seu todo-poderoso e onipotente Deus. “Cobrir-te-á com as suas penas, e, sob suas asas, estarás seguro” (Sl 91.4).

Quando Moisés estava comissionando Josué para tomar seu lugar como líder dos israelitas, e levá-los para o outro lado do rio Jordão, à Canaã, a Terra Prometida, ele disse: “Sê forte e corajoso”. E quando pensamos na tarefa que estava diante de Josué, dá uma vontade imensa de bradar: “Moisés, por que motivo Josué deveria ser forte e corajoso?”

Porque “…o Senhor é quem vai adiante de ti; ele será contigo, não te deixará, nem te desamparará; não temas, nem te atemorizes” (Dt 31.8). A força e a coragem de Josué estavam no seu Senhor, não em si mesmo! A base para um cristão ser destemido tem nada a ver com o próprio cristão, e tudo a ver com o seu Deus, e o fato de simplesmente se apoiar nele. O santo que é totalmente fraco em si mesmo, que morreu para si, que não procura fazer coisa alguma em defesa própria, como vimos no exemplo de Sadraque, Mesaque e Abednego, e que simplesmente se lança sobre seu Deus fiel, este é o crente destemido!

Não há dúvida de que Sadraque, Mesaque e Abednego estavam humanamente em grandes apuros. Quanto mais aquecia o furor do rei, mais era aquecida a fornalha! Neste ponto, humanamente falando outra vez, estes três moços hebreus não sabiam qual seria o resultado final. Não sabiam se tudo daria certo. Certamente tinha toda aparência de ser o contrário. Mas não precisavam saber se tudo daria certo. Sabe por quê?

“Ainda que a figueira não floresça, nem haja fruto na vide; o produto da oliveira minta, e os campos não produzam mantimento; as ovelhas sejam arrebatadas do aprisco, e nos currais não haja gado, todavia, eu me alegro no Senhor, exulto no Deus da minha salvação. O Senhor Deus é a minha fortaleza…” (Hc 3.17-19).

A mesma verdade é transmitida em Salmo 50.15: “Invoca-me no dia da angústia; eu te livrarei, e tu me glorificarás”. Nós o glorificamos primeiro… antes mesmo do pedido ou do livramento realmente acontecer.

Sadraque, Mesaque e Abednego eram filhos de Deus e o amavam. Claramente, o que lhes dava coragem inabalável, diante da perspectiva de entrar numa sepultura em chamas ardentes, era o fato de estar com os olhos fixos em Deus… não em si mesmos, nem em suas vidas “perfeitas” (pois ninguém pode ter esta confiança em si, já que ninguém foi, é, ou será perfeito além do nosso bendito Salvador). Também não estavam confiando no fato de que Daniel, nesta época, já tinha uma posição elevada no reino de Nabucodonosor, e possivelmente poderia convencer o rei a mudar de intenção. Nenhuma dessas coisas serviria de base para sua coragem! Antes, era que seus olhos estavam fixos no Deus a quem serviam: “… eis que o nosso Deus, a quem nós servimos, pode nos livrar da fornalha…” (Dn 3.17). Nenhum temor! Nenhum vacilo! Somente confiança!

Estou convencido de que Deus estava sempre no foco dos seus pensamentos. Não resolveram fazer uma reunião de oração, e pedir para Deus manifestar sua presença no meio da sua crise. “Ó Senhor, ouve nossa oração, suplicamos que venhas para o nosso meio, e te manifestes a nós neste momento de crise…”

Não havia tempo para isto. Não havia necessidade para isto! Deus lhes era real, não só no tempo de perigo, ou de ameaças – mas sempre. Temos o registro de alguns entre os mártires cristãos de séculos passados, que, ao serem encobertos pelas chamas que começavam a consumir seus corpos, clamavam: “Não sinto dor! Só vejo a face do meu amado Salvador em cuja presença estou entrando!”

Ó santo e fiel companheiro, como pode um filho de Deus, você ou eu, sentir algum temor enquanto nosso olhar estiver cravado em Jesus? Não podemos fixar nosso olhar nele, e sentir temor ao mesmo tempo. São atividades mutuamente excludentes – ou se olha para Jesus, ou se experimenta temor carnal.


A Paz Que Deus Dá

A paz que permanece só porque existem circunstâncias agradáveis não é a paz que Deus dá. Esta é a paz que o mundo dá, uma paz que existe somente enquanto perdurarem as condições favoráveis, enquanto todas as necessidades físicas forem supridas, enquanto houver saúde, enquanto não houver ameaça de perigo, enquanto não houver uma guerra no horizonte, enquanto todas as contas forem pagas, e assim por diante. Mas se Deus na sua soberania retirar estas circunstâncias favoráveis, a pessoa que tem sua vida baseada no mundo imediatamente cai num abismo de temor, consternação, apreensão, e ansiedade.

Mas este não deve ser o caso do cristão! Jesus o disse claramente: “Deixo-vos a paz, a minha paz vos dou; não vo-la dou como a dá o mundo” (Jo 14.27). A paz que o mundo dá é uma coisa. A paz que Deus dá é algo totalmente diferente!

Nem por um instante, tenho intenção de tirar do verdadeiro crente a paz e alegria que possui, em muitas ocasiões, por Deus o ter abençoado tanto com circunstâncias favoráveis como com bens materiais. Tudo isto vem dele! As bênçãos de Deus podem trazer circunstâncias de paz, e posses materiais.

Mas a mensagem é que, em primeiro lugar, nenhuma destas bênçãos se torne senhor falso ou deus falso da nossa vida. E segundo, que estejamos tão arrebatados com nosso Salvador, tão sedentos por ele em todo tempo, tão focados nele, que quando a crise chegar, a presença de Cristo será real e a crise será recebida das mãos de um Deus fiel, sem temor.

Davi disse: “Louvarei o teu nome, ó Senhor… pois me livrou de todas as tribulações… Dar-te-ei graças para sempre, porque assim o fizeste” (Salmo 54.6,7; 52.9).

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