Ovelhas Vencedoras

Neste sermão vamos aprender sobre ovelhas vencedoras.

Texto: Salmo 44

Crise nacional

O que temos neste salmo é um lamento coletivo, onde os pronomes pessoais estão todos no plural (nós); e quando estão no singular (eu, vv. 4 e 6), eles apontam para o rei que lidera o seu povo através de uma grande crise nacional.

De autoria “dos descendentes de Corá”, o salmo é endereçado “ao regente do Coral”. Trata-se de um maskilou salmo didático, isto é, um salmo concebido para dar instrução sobre como a nação deveria se voltar para Deus na hora da dificuldade.

A ocasião específica é desconhecida, mas tudo indica que o salmo foi composto em algum momento de enorme derrotada em Israel e, para deixar a situação ainda mais agravada, a nação prosseguia sofrendo perseguições injustas e severas dos povos pagãos ao seu redor. Todos estavam perplexos.

O salmo se estrutura da seguinte maneira: o salmista nos revela um passado de vitórias (vv. 1-8) que desaguou em um presente de calamidade pública (vv. 9-16); a nação, então, volta-se para Deus em busca de resposta (vv. 17-22) e clama ao Senhor por socorro e resgate (vv. 23-26).

Esse ciclo tem muito a ver com diversos momentos de nossas vidas: vitórias — dificuldades — questionamentos — pedido de socorro. O que temos aqui, portanto, é um esboço real do ritmo que segue a nossa história, além de lições preciosas de como nós podemos ser ovelhas vencedoras, que confiam na ajuda de Deus no meio da perseguição e da perplexidade espiritual.

Paulo, que tinha mais informações que o salmista, já que estava mais adiantado na sequência histórica da revelação progressiva de Deus, olhou para este salmo e viu nele a realidade da igreja, o povo de Deus perseguido por causa de seu amor a Cristo. A conclusão do apóstolo foi que as ovelhas de Cristo são mais que vencedoras na medida em que se identificam com o sofrimento de seu Senhor. Observe:

Romanos 8.35-37 (NVT) |35O que nos separará do amor de Cristo? Serão aflições ou calamidades, perseguições ou fome, miséria, perigo ou ameaças de morte? 36Como dizem as Escrituras [Salmo 44.22]: “Por causa de ti, enfrentamos a morte todos os dias; somos como ovelhas levadas para o matadouro”. 37Mas, apesar de tudo isso, somos mais que vencedores por meio daquele que nos amou.

Pois bem, olhemos para o salmo, respeitando as suas divisões naturais, e vejamos que lições nós podemos tirar para a nossa vida.

1. O passado de libertação (Sl 44.1-8)

Quem lê o Salmo 44 e para no versículo 8 não imaginará que o mesmo se transformará num salmo de lamento. Há nestas primeiras palavras todos os ingredientes de um salmo de ação de graças. Observe que o salmista reconhece a ação de Deus no passado; declara que a conquista de Canaã não foi por eles, mas por Deus (v. 3); e sabe que as vitórias vieram do Senhor (v. 4). Por causa disto, o rei não confia em si mesmo, mas em Deus (vv. 6-7) e conclama o povo a render glória a Deus por suas vitórias (v. 8).

1Ó Deus, ouvimos com os próprios ouvidos; nossos antepassados nos contaram tudo que fizeste em seus dias, muito tempo atrás. 2Com teu poder, expulsaste as nações e estabeleceste teu povo na terra. Esmagaste os povos inimigos e libertaste nossos antepassados. 3Não foi por suas espadas que eles conquistaram a terra, não foi pela força de seus braços que alcançaram vitória. Foi pela tua mão direita e pelo teu braço forte, pela luz intensa do teu rosto; foi por causa do teu amor por eles. 4Tu és meu Rei e meu Deus; decretas vitórias para Israel. 5Com teu poder, afastamos nossos inimigos; em teu nome, pisoteamos nossos adversários. 6Não confio em meu arco, não conto com minha espada para me salvar.7Tu nos concedes vitória sobre nossos inimigos e envergonhas os que nos odeiam. 8Ó Deus, o dia todo te damos glória e louvamos teu nome para sempre. Interlúdio

Há pelo menos três lições até aqui: (1) sempre é bom relembrar as vitórias do passado; (2) é bom nunca esquecer que vieram por causa da bondade de Deus; (3) a história dos grandes atos de Deus precisa ser contada de geração a geração. Outro salmo:

Salmos 78.1-4 (NVT) | 1Ó meu povo, ouça minhas instruções! Abra os ouvidos para o que direi, 2pois lhe falarei por meio de parábola. Ensinarei enigmas de nosso passado, 3histórias que ouvimos e conhecemos, que nossos antepassados nos transmitiram. 4Não esconderemos essas verdades de nossos filhos; contaremos à geração seguinte os feitos gloriosos do SENHOR, seu poder e suas maravilhas.

Por que contar a história dos grandes atos de Deus de geração a geração?

O povo de Deus precisa ser esvaziado de si mesmo e enchido de fé na graça futura de Deus; precisa de Deus como fonte de sua inspiração para prosseguir no caminho da fé; precisa edificar uns aos outros com as histórias dos grandes atos de Deus.

O Salmo 44, em seu primeiro parágrafo (vv. 1-8), destaca o passado de libertação do povo de Deus. É a história de um Deus que escolhe e liberta para si um povo, arrancando-o da escravidão no Egito e plantando-o em Canaã, a terra prometida. Esse povo passou a viver para louvar a Deus pela tão grande libertação.

Tudo parecia estar muito bem, mas há uma pausano verso 8 (interlúdioselá). As coisas mudam. A vida tantas vezes desagua em poças de dores.

2. O presente de sofrimento (Sl 44.9-16)

A segunda estrofe deste salmo é destacada por uma conjunção adversativa: “porém” — “Agora, porém…”(v. 9). Tudo estava bem. Todos, o dia todo, louvavam e davam glória a Deus (v. 8). Até que uma derrota estrondosa se abateu sobre eles: bateram em retirada, foram saqueados, devorados como ovelhas, dispersados nos versículos 9-11 (talvez seja o exílio de Israel em 722 ou de Judá em 605, 597 e 587). Observe:

8Ó Deus, o dia todo te damos glória e louvamos teu nome para sempre. Interlúdio 9Agora, porém, tu nos rejeitaste e nos envergonhaste; já não conduzes nossos exércitos para as batalhas. 10Tu nos fazes bater em retirada diante de nossos inimigos e permites que sejamos saqueados por aqueles que nos odeiam. 11Entregaste-nos como ovelhas para o matadouro e espalhaste-nos entre as nações.

A seguir, lemos que o povo foi vendido por uma ninharia e Deus parece nem ter ligado para o preço (v. 12). São objeto de zombaria (vv. 13-14), estão humilhados, envergonhados e vivem sendo envergonhados (v. 15).

12Vendeste teu povo precioso por uma ninharia e não tiveste lucro com a venda. 13Permitiste que as nações vizinhas zombassem de nós; somos objeto de desprezo e ridículo para os que nos rodeiam. 14Fizeste de nós motivo de riso entre as nações; com desdém, balançam a cabeça para nós. 15Não há como escapar da humilhação constante; temos o rosto coberto de vergonha. 16Não ouvimos outra coisa, senão os insultos dos que zombam de nós. Não vemos outra coisa, senão os inimigos que desejam vingança.

Não se vive só de vitórias. Assim como reconheceram a ação de Deus no passado, libertando-os, vêem-na agora no presente, permitindo-os sofrer. Algo houve de errado. Nem sempre as coisas dão certo. É preciso refletir.

3. O momento para pensar (Sl 44.17-22)

A memória, o pensamento é o lugar onde se processa as verdades que nos trazem esperança ou nos destroem por completo. Toda batalha, portanto, é vencida ou perdida na mente (2Co 10.4-5). Daí que vemos o salmista, face ao caos, após refletir sobre o passado de vitórias e remoer seu presente de sofrimentos, separar um momento para pensar.

Alegam inocência. Nada fizeram de errado: vv. 17-18. Mesmo assim Deus os puniu: v. 19. Se tivessem errado, ele não saberia? (vv.20-21).

17Tudo isso aconteceu sem que nos esquecêssemos de ti, sem que fôssemos infiéis à tua aliança. 18Nosso coração não te abandonou, não desviamos os pés de teu caminho. 19Tu, porém, nos esmagaste no deserto, onde vivem os chacais, e nos cobriste de escuridão e morte. 20Se tivéssemos nos esquecido do nome de nosso Deus, ou estendido as mãos em oração a deuses estrangeiros, 21Deus com certeza saberia, pois ele conhece os segredos de cada coração. 22Mas, por causa de ti, enfrentamos a morte todos os dias; somos como ovelhas levadas para o matadouro.

O v. 22 mostra o estado atual do salmista e foi aplicado por Paulo, em Rm 8.36, à nossa situação no mundo (à situação dos crentes que são perseguidos por causa de sua fé). Sim, aprendemos que o justo também sobre; precisamente por causa da justiça é que ele sofre; é bom que se sofra por causa da justiça, pois assim nos identificamos com os sofrimentos de Cristo. Pedro, o apóstolo, sabia disto e nos exortou:

1Pedro 2.19-25 (NVT) |19Porque Deus se agrada de vocês quando, conscientes da vontade dele, suportam com paciência o tratamento injusto. 20Claro que não há mérito algum em ser paciente quando são açoitados por terem feito o mal. Mas, se sofrem por terem feito o bem e suportam com paciência, Deus se agrada de vocês. 21Porque Deus os chamou para fazerem o bem, mesmo que isso resulte em sofrimento, pois Cristo sofreu por vocês. Ele é seu exemplo; sigam seus passos. 22Ele nunca pecou, nem enganou ninguém. 23Não revidou quando foi insultado, nem ameaçou se vingar quando sofreu, mas deixou seu caso nas mãos de Deus, que sempre julga com justiça. 24Ele mesmo carregou nossos pecados em seu corpo na cruz, a fim de que morrêssemos para o pecado e vivêssemos para a justiça; por suas feridas somos curados. 25Vocês eram como ovelhas desgarradas, mas agora voltaram para o Pastor, o Guardião de sua alma.

Não somos de tudo ovelhas desgarradas e entregues à morte. O Senhor mesmo nos considera, preocupa-se conosco e cuida de sua igreja. Assim é que na hora da crise, expô-la a Deus é a melhor atitude. Pedro prosseguiu, advertindo-nos da seguinte forma:

1Pedro 4.19 (NVT) |Portanto, se vocês sofrem porque cumprem a vontade de Deus, continuem a fazer o que é certo e confiem sua vida àquele que os criou, pois ele é fiel.

É o que o salmista fará a seguir.

4. O pedido de socorro (Sl 44.23-26)

23Desperta, Senhor! Por que dormes? Levanta-te! Não nos rejeites para sempre! 24Por que escondes o rosto de nós? Por que te esqueces de nosso sofrimento e opressão? 25Desfalecemos no pó, caídos com o corpo no chão. 26Levanta-te e ajuda-nos! Resgata-nos por causa do teu amor!

Deus parecia estar dormindo (v. 23); parecia ter escondido o rosto deles (v. 24). Sentiam-se como se Deus os negasse o favor. Que houve? Nada fizeram de errado! Eis o mistério que tem intrigado os homens: as flutuações da vida; momentos de elevações e quedas, alegrias e tristezas, vitórias e derrotas.

O v. 23 lembra Marcos 4.36-38:

36Com ele [Jesus Cristo] a bordo, partiram e deixaram a multidão para trás, embora outros barcos os seguissem. 37Logo uma forte tempestade se levantou. As ondas arrebentavam sobre o barco, que começou a encher-se de água. 38Jesus dormia na parte de trás do barco, com a cabeça numa almofada. Os discípulos o acordaram, clamando: “Mestre, vamos morrer! O senhor não se importa?”. 39Jesus despertou, repreendeu o vento e disse ao mar: “Silêncio! Aquiete-se!”. De repente, o vento parou, e houve grande calmaria. 40Então Jesus lhes perguntou: “Por que estão com medo? Ainda não têm fé?”.

Tempestades acontecem, mesmo quando Jesus está no barco. O vento não deixa de soprar porque cremos. Nestas horas é bom pedir socorro.

A última palavra do salmo é “fidelidade” ou “benignidade” ou “misericórdia” ou “amor”. É o hebraico hesed, o amorinalterável de Deus, o amor da aliança entre Iahweh e Israel. Esse amor motiva a oração. Deus ama! Por isso oramos pedindo socorro.

Ovelhas vencedoras

O Salmo 44 é um quadro da história da salvação:

  • Deus salva um povo (sua igreja), não por obras, e sim por graça, por meio da fé (que também é fruto de graça); salvação não depende de nossos esforços, braços, arcos, carros ou flechas (vv. 1-8); salvação é obra da graça de Deus;
  • viver piedosamente resultará em sofrimento para esse povo, afinal, se odiaram a Cristo, odiarão e perseguirão também seus discípulos; o sofrimento do justo nem sempre é maldição ou castigo, mas consequência de se ser filho de Deus num mundo que odeia as obras da luz (Sl 44.22): “Mas, por causa de ti, enfrentamos a morte todos os dias; somos como ovelhas levadas para o matadouro.”;
  • não obstante os sofrimentos, as ovelhas de Cristo são mais que vencedoras por meio dele que as amor (Rm 8.35-37); somos conduzidos triunfantemente, e assim espalhamos o bom perfume do evangelho da glória e da graça de Deus (2Co 2.14-16); no final, seremos resgatados por causa do amor de Deus (Sl 44.26); nada nos separará do amor de Deus em Cristo.

James Montgomery Boice, comentando sobre o lamento do salmista (Sl 44.17-22), escreveu que “quanto ao crente, ele pode não entender todos os caminhos de Deus, mas ele sabe que a única maneira de proceder é reconhecer que Deus é tão ativo nas derrotas quanto nas vitórias”; cabe ao crente, portanto, esperar pelo resgate final do Senhor: a nossa glorificação em Cristo Jesus. Em Cristo, somos ovelhas vencedoras. Chegaremos ao céu.

Dica: alimente a sua fé na graça futura de Deus, olhando para os grandes feitos de Deus na história de seu povo.

AutorPR. LEANDRO B. PEIXOTO

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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