Considerações preliminares:
1. O texto faz parte da promessa de Deus de levantar homens que pudessem reverter o quadro caótico de Judá, reino do sul.
2. “O pano de fundo para a profecia é a longa batalha ocorrida em Judá entre a adoração idólatra de deuses estrangeiros, profundamente enraizada desde o reinado de Manassés (696-642 a.C), e a adoração ao Senhor, que Josias tentou restaurar com a sua reforma (2 Rs 22,23). A reforma teve início em 628 a.C (ver 2 Cr 34.3) e recebeu novo impulso com a descoberta do Livro da Lei em 621 a.C (2 Rs 22.8).
3. O chamado de Jeremias se deu em 626 a.C (Jr 1.2-5). A fase inicial do seu ministério coincide com a reforma de Josias. Contudo, Jeremias testemunha o fracasso da reforma de Josias na tentativa de proporcionar um grande impacto na vida do povo, pois os abusos religiosos de Manassés foram retomados pelos assessores de Josias”. (Genebra).
4. Comentando este verso, o Dr. R. K. Harrison, declara: “Quando for formada outra liderança nacional, em lugar da corrupta anterior, Judá será governado por verdadeiros servos de Deus, como foi Davi (1 Sm 13.14), não por usurpadores militares como os do reino do norte (Os 8.4). A liderança do rebanho divino é algo crucial; tanto no AT (Ez 34.8-10; Zc 10.13; 11.17) como no NT (Mc 13.22; 2 Pe 2.1; 1 Jo 4.1).
5. O Dr. Antonio Neves de Mesquita, comentando este verso, diz: “Jeremias está contemplando o retorno do cativeiro babilônico, já no programa. Então chamarão a Jerusalém o trono do Senhor. Agora só mesmo um castigo longo, quando as saudades e a lembrança da mãe pátria poderão produzir o milagre da volta a Javé. O profeta está vendo esse dia, mesmo que não o tenha contemplado. Só mesmo o cativeiro poderia dar a essa gente um outro espírito e uma outra maneira de pensar. Se era isso o de que precisava, isso teria”.
6. Após fazer estas considerações, gostaria de expor três lições do texto lido: primeiro, os pastores…são aqueles que têm uma profunda percepção de Deus, de Sua majestade; segundo, os pastores …são aqueles que têm uma consciência amadurecida da sua condição diante do Senhor e da obra que têm que realizar; terceiro, os pastores segundo o coração de Deus são aqueles que desejam gastar-se na proclamação do evangelho bíblico, dispostos a pagarem o preço. Vejamos, então.


1. PASTORES SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS SÃO AQUELES QUE TÊM UMA PROFUNDA PERCEPÇÃO DE DEUS, DE SUA MAJESTADE.
1.1. Aqui nós temos o texto clássico de Isaías 6.1-8
1.2. O ministro precisa saber quem é o Senhor. O Senhor que o fez…O Senhor que o redimiu…O Senhor que o chamou…O Senhor que o usa para a Sua glória…
1.3. Pois para ministrarmos aos homens é necessário que ministremos diante de Deus. Como Paulo, devemos ser pastores comprometidos com a profundidade de Deus ao ponto de podermos dizer:
“Ó profundidade da riqueza, tanto da sabedoria como do conhecimento de Deus! Quão insondáveis são os seus juízos, e quão inescrutáveis, os seus caminhos!” (Rm 11.33).
1.4. Que sabem o quanto vale a comunhão diária com o Senhor através da Palavra e da oração! “Em janeiro de 1855, o ministro da capela da rua New Park começou seu sermão matinal do seguinte modo:
Já foi dito por alguém que o estudo adequado da humanidade é o próprio homem. Não me oponho à idéia, mas creio ser igualmente verdadeiro que o estudo correto do eleito de Deus é Deus; o estudo apropriado do cristão é a Divindade. A mais alta ciência, a mais elevada especulação, a mais poderosa filosofia que possa prender a atenção de um filho de Deus, é o nome, a natureza, a pessoa, a obra, as ações e a existência do Grande Deus, a quem chama Pai.
Nada é melhor para o desenvolvimento da mente do que a contemplação da Divindade. Trata-se de um assunto tão vasto, que todos os nossos pensamentos se perdem na sua imensidão; tão profundo
que nosso orgulho desaparece em sua infinitude…
O melhor estudo para expandir a alma é a ciência de Cristo, e Este crucificado, e o conhecimento da Divindade na gloriosa Trindade. Nada alargará mais o intelecto, nada expandirá mais a alma do homem do que a investigação dedicada, ansiosa e contínua do grande tema da divindade…”
(Charles Haddon Spurgeon falou estas palavras há mais de um século quando tinha apenas 20 anos).
1.5. Dr. Tozer, trabalhando no tema “Seguindo a Deus de Perto”, coloca magistralmente algumas coisas:
“Se examinarmos a vida de grandes homens e mulheres de Deus , do passado, logo sentiremos o calor com que buscavam ao Senhor. Choravam por Ele, oravam, lutavam e buscavam-nO dia e noite, a tempo e fora de tempo, e, ao encontrá-lO, a comunhão parecia mais doce, após longa busca. Moisés usou o fato de que conhecia a Deus como argumento para conhecê-lO ainda melhor. Agora, pois, se achei graça aos teus olhos, rogo-te que me faças saber neste momento o Teu caminho, para que eu te conheça, e ache graça aos Teus olhos” (Ex 33.13). E, partindo daí, fez um pedido ainda mais ousado: “Rogo-Te que me mostres a Tua glória” (Ex 33.18). Deus ficou verdadeiramente alegre com essa demonstração de ardor e, no dia seguinte, chamou Moisés ao monte, e ali, em solene cortejo, fez toda a Sua glória passar diante dele”.
“O HOMEM, CUJO TESOURO É O SENHOR, TEM TODAS AS COISAS CONCENTRADAS NELE”. (Tozer).


2. PASTORES SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS SÃO AQUELES QUE TÊM UMA CONSCIÊNCIA AMADURECIDA DA SUA CONDIÇÃO DIANTE DO SENHOR E DA OBRA QUE TÊM QUE REALIZAR.
2.1. Voltando a experiência de Isaias, quando ele disse: “Então, disse eu: ai de mim! Estou perdido! Porque sou um homem de lábios impuros, habito no meio de um povo de impuros lábios, e os meus olhos viram o Rei, o Senhor dos Exércitos!”
2.2. O profeta Jeremias, quando da sua chamada, diz: “Então, lhe disse eu: Ah! Senhor Deus! Eis que eu não sei falar, porque não passo de uma criança. Mas o Senhor me disse: Não digas: Não passo de uma criança; porque a todos a quem eu te enviar irás; e tudo quanto eu te mandar falarás” (Jr 1.6,7).
2.3. O grande líder Moisés tem a mesma percepção: “Então disse Moisés a Deus: Quem sou eu para ir a Faraó e tirar do Egito os filhos de Israel? Deus lhe respondeu: Eu serei contigo; e este será o sinal de que eu te enviei: depois de haveres tirado o povo do Egito, servireis a Deus neste Monte…EU SOU me enviou a vós outros” (Êx 3.11,12; 14b)
2.4. Foi o que Paulo expressou em 2 Coríntios 3.4-6: “E é por intermédio de Cristo que temos tal confiança em Deus; não que, por nós mesmos, sejamos capazes de pensar alguma coisa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habilitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica”.
2.5. Richard Baxter, no seu excelente livro: “O Pastor Aprovado”, no capítulo > “Cuidando de Nós Mesmos”, declara:
a) Somos exortados a olhar por nós mesmos, para não suceder estarmos vazios da divina graça salvadora que estamos oferecendo a outros, porquanto, é possível oferecermos esta graça a outros e, todavia, estarmos alheios às operações eficazes do evangelho que pregamos.
b) Somos exortados a olhar por nós mesmos, para não suceder que convivamos com os mesmos pecados contra os quais pregamos. (A história de um líder evangélico brasileiro…)
c) Precisamos olhar por nós mesmos para que não estejamos despreparados para as grandes tarefas que nos incumbimos de levar a cabo. Temos que trabalhar com gente desorientada.
d) Olhem por si mesmos para não virem a ser exemplos de doutrina contraditória. Cuidado, para não desfazerem com suas vidas o que dizem com suas línguas. Assim é que uma palavra arrogante, grosseira, insolente, ou uma discussão desnecessária, ou um ato de cobiça, pode cortar a garganta de muitos sermões. Há muitos olhos fitos em nós” (Baxter).


3. PASTORES SEGUNDO O CORAÇÃO DE DEUS SÃO AQUELES QUE DESEJAM GASTAR-SE NA PROCLAMAÇÃO DO EVANGELHO BÍBLICO, DIPOSTOS A PAGAREM O PREÇO.
3.1. Olhemos para a vida de Paulo:
a) Primeiro, o que ele diz aos romanos: “Porque não me envergonho do evangelho de Cristo… (1.16)
b) Segundo, o seu testemunho aos coríntios: “Eu, irmãos, quando fui ter convosco, anunciando-vos o testemunho de Deus, não o fiz com ostentação de linguagem ou de sabedoria. Porque decidi nada saber entre vós, senão a Jesus Cristo e este crucificado. E foi em fraqueza, temor e grande tremor que eu estive entre vós”(1 Co 2.1-3)
c) Terceiro, aos pastores de Éfeso: At 20.17-24 (LER)
d) Quarto, ele testemunha a Timóteo, jovem pastor, dizendo: 2 Tm 4.7,8 (LER)
3.2. Como João Batista que apontou para Jesus e disse: “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do mundo” (Jo 1.29). Vejamos o que o mesmo João diz em Mateus 3.1-11…> natureza perversa > produzi frutos dignos de arrependimento…(vv.7,8). Ele também denunciou o pecado de Herodes: “Assim, pois, com muitas outras exortações anunciava o evangelho ao povo; mas Herodes, o tetrarca, sendo repreendido por ele, por causa de Herodias, mulher de seu irmão, e por todas as maldades que o mesmo Herodes havia feito, acrescentou ainda sobre todas a de lançar João no cárcere” (Lc 3.19,20). J. C. Ryle, comentando o texto sobre o ministério de João Batista, quando ele havia denunciado Herodes por pecado de adultério, declara:
“Quão amargamente as pessoas odeiam um pregador que repreende, quando elas estão
resolvidas a não abandonar os seus pecados…O profeta Elias foi chamado de perturbador
de Israel” (1 Rs 18.17). O profeta Micaías foi odiado por Acabe porque, conforme o monarca alegou, ‘nunca profetiza de mim o que é bom, mas somente o que é mau” (1 Rs 22.8). Jamais deveríamos sentir-nos surpresos ao ouvir fiéis ministros do evangelho sendo caluniados, ultrajados e odiados. Ao invés disso, cumpre-nos lembrar que eles foram consagrados ao ministério para testemunhar contra o pecado, o mundo e o diabo, e que, se forem fiéis, não poderão evitar gerar ofensa. Não é uma desgraça, para o caráter de um ministro de Deus, quando as pessoas ímpias não gostam dele. Não é uma honra verdadeira. para um ministro do evangelho, quando todos pensam bem dele. Aquelas palavras de nosso Senhor nem sempre são suficientemente levadas em conta: ‘Ai de vós, quando todos vos louvarem!’ (Lc 6.26)”.
Ainda sobre João Batista, “Herodes o ‘temia’ e sentiu-se perturbado depois da morte desse profeta. Um pregador destituído de amigos, solitário, sem qualquer outra arma além da verdade de Deus, perturbava e aterrorizava um rei”. (Ryle).
A Igreja da Inglaterra tem no seu Livro de Oração Comum o seguinte:
“Deus Todo-Poderoso, por cuja providencia teu servo João Batista nasceu milagrosamente
e foi enviado a preparar o caminho de teu Filho, nosso Salvador, pregando o arrependimento:
concede-nos que sigamos de tal maneira sua santa vida e doutrina, que nos arrependamos
verdadeiramente segundo ele pregou; e que a exemplo seu falemos a verdade constantemente,
repreendamos livremente os vícios, e soframos com toda paciência por amor da verdade me-
diante Jesus Cristo nosso Senhor” Amém. (William Barclay).
É muito deleitoso enfatizar o que Marcos coloca: “Porque Herodes temia a João, sabendo que era homem justo e santo, e o tinha em segurança. E, quando o ouvia,ficava perplexo, escutando-o de boa mente” (6.20).
3.3. Voltando ao maravilhoso profeta de Deus Jeremias, a |Dra. Henrietta Mears declara: “A mensagem de Jeremias nunca foi popular. Uma ocasião, ele mal escapou com vida (Jr 27.7-16). Em outra, seus inimigos bateram nele e o puseram na prisão. Os homens sempre trataram as testemunhas ou profetas de Deus dessa forma”.


Considerações Finais:
1. Que sejamos pastores segundo o coração de Deus, vivendo a excelência do ministério neste tempo em que ser pastor é sinônimo de esperteza, mercantilismo, soberba, auto-suficiência, política baixa, disputa de poder, mentira, hipocrisia, auto-apascentamento; levar vantagem, avareza, egoísmo. Há elementos que envergonham o ministério pastoral. Seriam eles pastores?
2. Que sejamos pastores segundo o coração de Deus como foi Jeremias e outros maravilhosos homens de Deus. Pastores que possuem uma profunda percepção de Deus, da Sua majestade porque vivem diariamente em comunhão com Ele; pastores que têm consciência da sua própria condição de inadequação, inabilidade e limitações a partir de si mesmos e diante da extraordinária obra a realizar; pastores que estão prontos a gastarem a si mesmos no combate das almas, na pregação do evangelho bíblico que glorifica a Deus.
3. Que sejamos homens a morrermos retamente como João Batista em lugar de vivermos no erro. Como precisamos imitar o nosso Senhor e morrer de coerência. Sermos homens a somar 2+2= 4 e não 2+2=5.
4. Expondo o por que de Lausanne (1974), Billy Granham, o evangelista do século, falou a evangelistas do mundo inteiro reunidos em Lausanne, Suiça:

“Na tarde anterior ao dia em que foi assassinado, o Dr. Martin Luther King falou em Menphis sobre como galgara a montanha. Disse ele que, ao atingir o cimo, pôde descortinar a Terra Prometida, bradando então: ‘Meus olhos avistaram a glória da vinda do Senhor’. Eu e os senhores galgamos a montanha que nos separava do Deus Vivo. Atingimos o cimo. Descortinamos a Terra Prometida. E os nossos olhos viram o esplendor de Deus. Ele nos deu visão para perceber, fé para crer, coragem para agir. Mas ainda não entramos na Terra Prometida. Lá embaixo, nas planuras do mundo, há milhões de pessoas que não sabem que existe uma Terra Prometida a ocupar. Não viram, não acreditaram, nem agiram. Nós, que avistamos a Terra Prometida, devemos descer ao Vale, quando esta Jornada estiver concluída, e dizer às multidões que existe uma montanha para galgare uma Terra Prometida a ocupar.
Deus abriu um atalho para o cimo daquela montanha com o sangue de Seu Filho. Deus preparou uma Terra Prometida onde não existe noite, nem pecado, nem sofrimento, nem fome, nem pesar, nem lágrimas, nem morte.
A nós foi-nos dada a tarefa, bem como o privilégio, de dizer a todos os homens, em toda parte que, se seguirem a trilha manchada de sangue do Filho de Deus, hão de galgar a montanha, avistar a Terra Prometida e conhecer a Glória da vinda do Senhor”. (A Missão da Igreja no Mundo de Hoje).
Sejamos pastores segundo o coração de Deus, buscando a semelhança com Ele para a glória dEle. À Ele a Glória, a Honra, o Louvor, o Domínio, a Majestade e a Sublimidade pelos séculos dos séculos, amém, amém.

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