Por que Jesus chora

Texto: Lucas 20.41-48 (Leitura: Salmo 24)

INTRODUÇÃO

O Novo Testamento nos relata dois casos em que Jesus chorou. Uma vez, quando Lázaro, seu amigo, morreu. Vendo Maria, a irmã do falecido, chorar, Jesus comoveu-se no espírito e chorou também. Estas lágrimas de emoção humana, lágrimas de terna compaixão, aproximam Jesus de nós todos. Ele sabia o que era tristeza humana. Chorava com os tristes — não para se fingir semelhante a eles, mas porque realmente participava de sua tristeza. — A segunda vez foi numa ocasião onde menos se espera que alguém chore.

Foi um dia de triunfo e de júbilo. Jesus tinha entrado triunfalmente em Jerusalém. Montado num jumentinho, seguido por uma multidão que jubilava, aproximava-se da cidade santa. O povo tinha estendido suas vestes no caminho, clamando: «Bendito é ,a rei, que vem em nome do Senhor! Paz no céu e glória nas maiores alturas!» — E em meio a esta alegria do povo, em meio a este entusiasmo da multidão e dos discípulos, à vista da cidade santa, Jesus chora. Chora por causa de uma cidade que aparentemente tem de tudo para ser feliz. Não se vêem pessoas tristes que parecem ter necessidade de sua compaixão. Os habitantes vivem, em paz. Eles se arranjaram com as tropas estrangeiras que ocupam Jerusalém; o comércio está florescendo, os habitantes têm seu ganha-pão; o templo se enche de gente que vem rezar, a casa de Deus está repleta de peregrinos, judeus e estrangeiros, que vêm de terras longínquas para terem o privilégio de adorarem no templo de Jerusalém.

 

PARTE I – Lágrimas pelo que não se vê.

 

Jesus entra nesta cidade — e chora. Não chora pelo que se vê. Chora pelo que não se vê. Os olhos de Jesus vêem para 3 centro das coisas, vêem através de véus e de máscaras, Jesus sabe que o entusiasmo da multidão, que vê nele o rei de Israel, não vai durar. Sabe que esta cidade está doente, doente de morte. A sua doença é que ela não conhece o caminho da paz. Sim a «cidade da paz», como muitos traduzem o nome de Jerusalém, não tem paz. Tem a paz romana, imposta pela espada, tem a paz dos comerciantes, que precisam de paz para fazer negócios. Tem paz religiosa — o templo funciona o governo romano normalmente não interfere com as práticas religiosas dos judeus, e quem manda no templo, são os sacerdotes. O que se poderia desejar mais? O que se poderia esperar de melhor, nas atuais circunstâncias «na atual conjuntura política»?

E, contudo, Jesus chora. Ele não se deixa embalar nem pelos entusiastas que o querem fazer rei, nem pelos conformados, que querem apaziguar, só apaziguar. Jesus vê a cidade com olhar profético. Vê que ela não tem a paz que realmente importa: A paz de Deus. Vê a cidade cega e surda: Ela vê, mas não enxerga, ela ouve, mas não escuta. Ela foi visitada por Deus — e não conheceu o tempo de sua visitação. A cidade procura tapar a sua miséria, a sua injustiça oculta com cerimônias no templo e com gritos de «hosana», com «vivas» dados ao homem da Galileia que gostariam de ver como rei, como libertador político.

Mas a cidade, em realidade não sabe o que está acontecendo. Não conhece a hora em que Deus chegou tão perto deles que podiam tocá-lo com as mãos. Para conhecê-lo, ela deveria mostrar sua miséria, deveria, igual a Nínive, confessar os seus pecados. Para conhecer, deveria aceitar o evangelho. E Jesus vê a miséria escondida, vê a injustiça oculta. Vê o futuro um futuro que vai revelar sem misericórdia a doença da cidade, vai revelar sua falta de paz quando já não haverá remédio, quando já será tarde.

 

«Ah, se conheceras por ti mesma, hoje, o que é devido à paz! Mas isto está agora oculto aos teus olhos.» — Jesus vê a visão horrível de uma cidade cercada por trincheiras, rodeada de todos os lados por inimigos sedentos de sangue, vê os muros e as casas arrasadas, vê o templo destruído, os habitantes assassinados: «Não deixarão em ti pedra sobre pedra, porque não reconheceste a oportunidade de tua visitação.»

 

PARTE II – Lágrimas de decepção

 

Talvez estranhemos tanto as lágrimas de Jesus, como as suas palavras. Será que faz sentido, alguém chorar por uma cidade? Estamos acostumados a vermos em Jesus o amigo das pessoas, dos indivíduos. Não estranhamos ele ter chorado por Lázaro. Mas chorar por Jerusalém? Poderá uma cidade inteira se converter? As massas não serão sempre iguais: oportunistas, esperando por sensações? Por que se entristecer por causa da multidão?

Jesus pensa de outra maneira. Ele se compadece da multidão, assim como se compadecera do amigo, do indivíduo Lázaro. Ele sabe que numa cidade, de certa forma, todos viajam no mesmo barco. E que neste barco é importante o que fazem os líderes, os capitães, os timoneiros. É importante, qual a orientação espiritual que os sacerdotes e pregadores vão dando ao povo. Jesus sabe que numa cidade — e num país tudo está interligado; governo e povo, empregadores e empregados, sacerdotes e leigos, pobres e ricos. O que um faz, interfere na vida do outro. Assim, Jesus não se entristece apenas pelo destino de alguns indivíduos da cidade. Ele se entristece pela cidade toda. Lembra o patriarca Abraão, que se entristecera perante as cidades de Sodoma e Gomorra, sabendo do juízo que haveria de vir sobre seus habitantes.

Talvez aquelas lágrimas de Jesus nos deixem pensativos. Temos nós, alguma vez, chorado por nossa cidade? Temos, ao menos, sido tristes, perante Deus, por sua falta de paz? Temos nós mesmos sido sinais de paz, erguidos por Deus em meio à Sodoma e à Nínive e à Jerusalém que nós habitamos? Temo-nos preocupado pelo mundo, que hoje é uma única grande cidade — pelo futuro do mundo? Pela grande tribulação que virá sobre este mundo em que vivemos? — Talvez interrompamos a leitura destas linhas aqui, por alguns minutos, e pensemos em nossa cidade, em nosso lugar, em nosso país, procurando ver as coisas com os olhos de Jesus. Deus nos tire o véu diante dos olhos para vermos mesmo o que ele vê!

O evangelho nos diz que Jesus não se limitou a chorar sobre Jerusalém. Ele não voltou as costas à cidade perdida, conformando-se com o inevitável. Ele entra na cidade doente, e vai direto ao ponto onde a doença se origina: ao foco do mal que tomou conta da cidade de Deus. Jesus vai ao templo. Não vai como peregrino, nem como participante de um ato litúrgico. Vai como profeta; antes, vai como Filho, que entra na casa do Pai e vê que esta casa está sendo violada e abusada: «Depois, entrando no templo, expulsou os que ali vendiam dizendo-lhes: Está escrito: A minha casa será casa de oração; mas vós a transformastes em covil de salteadores.»

Nos outros evangelhos ficamos sabendo que tipo de vendedores eram estes que estavam explorando aquele mercado santo: Eram vendedores de animais, destinados aos sacrifícios — de pombos, ovelhas, cabritos — e eram trocadores de dinheiro — tudo dentro da ordem do templo, tudo a serviço da religião. Mas Jesus não reconhece esta religião acomodada, religião que nem é sal da terra nem luz do mundo. Expulsa os vendedores do templo. Clama-lhes aos ouvidos uma palavra do profeta Isaías: «Minha casa é casa de oração», logo seguida de outra, de Jeremias: «Vós a transformastes em covil de salteadores».

 

PARTE III – Depois das lágrimas, atitude.

 

Não pensemos que Jesus só se tivesse irado contra os comerciantes do templo. Os comerciantes eram apenas o sinal externo da doença. A doença estava em tudo — nos sacerdotes, no povo, na pregação, nas casas, nas ruas. A expressão: «Covil de salteadores» indica o mal que Jesus vê. Em Jeremias, esta expressão vem acompanhada das seguintes palavras: «Que é isso? Furtais e matais, cometeis adultério e jurais falsamente, queimais incenso e Baal, e depois vindes e vos pondes diante de mim nesta casa, que se chama pelo meu nome, e dizeis: Estamos salvos — sim, só para continuardes a praticar estas abominações. . . »

Então é disso que se trata! O templo era um refúgio — isto era bom. Ele estava aí para isso. Também que fosse um refúgio de pecadores — estava em ordem, Pensemos no publicano e em sua confissão, do qual Jesus diz que voltou justificado para sua casa. O que não estava em ordem era que ladrões e adúlteros vinham pôr-se diante de Deus, no templo, declarando-se salvos, para depois continuarem a viver como antes; que tinham feito do templo um lugar onde iam buscar uma consciência tranquila, sim, onde iam buscar maior coragem para viver — como sempre: como adúlteros, ladrões, homicidas e idólatras. O templo não mudava nada na vida deles. Eles saíam dos cultos bem assim como tinham entrado. Saíam apenas mais tranquilos tranquilizados por hinos, orações e sacrifícios que em nada mexiam com sua vida fora do templo. Saíam embalados pelos salmos e extasiados pelo cheiro do incenso!

Então — será que haverá uma coisa destas? Um templo, uma igreja, uma casa de Deus: Pode um tal lugar ser transformado em covil de salteadores, em refúgio de bandidos? Com orações, sacrifícios e tudo?

Jesus diz que pode. A igreja é o lugar predileto para o diabo fazer suas tentativas de destruir a obra de Deus. E não é sem razão pois é lá que o inferno está sendo contestado e denunciado. Não admira que o poder infernal procure instalar-se em qualquer lugar onde a palavra de Deus é anunciada. Se o demônio conseguir tirar do homem a possibilidade de dialogar com Deus, se conseguir transformar uma casa de oração em um lugar de conversa fiada, que nada muda na vida dos homens — então ele ganhou o seu jogo. O covil de ladrões está pronto.

Mas Jesus não se limita a chorar sobre a cidade e a expulsar os mercadores do templo, denunciando uma prática religiosa pervertida. Apesar da inimizade que sua ação profética e soberana tinha criado entre os líderes do templo, ele ensina diariamente na casa de Deus. Transforma o covil de salteadores em casa de diálogo com seu pai. Em meio à falsa paz, em meio àquela rotina e àquela religiosidade vazia, em meio às intrigas de um ambiente hostil, ele ensina, orienta e prega o evangelho da verdadeira paz.

 

CONCLUSÃO – Coragem

 

Onde Jesus está presente, onde ele está ensinando aí é lugar de oração. Aí é o templo de Deus. Aí é lugar de paz. Onde ele não está presente, aí se instalam outros poderes — os poderes da mentira, do fariseísmo, da exploração. Aí a paz se retira. Deus nos guarde de uma religiosidade vazia e pervertida. Deus nos faça ser testemunhas e atalaias daquele que é a Palavra — a última e definitiva Palavra de Deus, dada a um mundo sem paz, que vai de encontro ao juízo!

Oremos: Senhor, nós te rogamos por nossa cidade — por nossa localidade. Rogamos-te por nossa igreja. Sabemos que a perversão, a confusão espiritual, o fingimento e a mentira também estão presentes entre nós. Abre-nos os olhos para que vejamos! Abre-nos os corações para que possamos chorar! Dá-nos coragem para darmos testemunho do evangelho. Ensina-nos tu, para que possamos falar e agir na autoridade de teu evangelho. Amém.

Autor: Lindolfo Weingärtner

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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