Uma igreja saudável, uma igreja missional

Neste sermão vamos aprender sobre uma igreja saudável, uma igreja missional.

Texto: Atos 13.1-4

Introdução

Você alguma vez já ouviu a voz de Deus com clareza? Ouviu Ele dizer a você o próximo passo a dar e teve a certeza de estar seguindo Suas orientações fielmente?

Um grande amigo meu ouviu. Ele é médico e tem trabalhado na China por mais de 25 anos. Quando estava com uns 30 e poucos anos de idade, já médico bem sucedido em seu país, os Estados Unidos, ele e a esposa tiveram certeza de Deus que deveriam ir para o campo missionário transcultural e, então, gastaram dias jejuando e orando para saber com certeza aonde deveriam ir.

Depois de 12 dias jejuando e orando, numa madrugada, Deus deixou uma impressão clara em seus corações que eles deveriam ir para China. Em seguida foram dormir e acordaram horas depois com o telefone tocando. A pessoa do outro lado da linha tinha ligado para perguntar se ele gostaria de ir para China trabalhar como médico/missionário, pois tinham uma vaga para lhe oferecer e, disse também, que ele poderia gastar um tempo orando antes de decidir. Meu amigo disse que já tinham orado e que podiam imediatamente aceitar o convite e o desafio. Ele ouviu primeiro a Deus e depois este foi confirmado também por pessoas. Vemos um processo similar acontecendo aqui neste texto de Atos.

De fato, o livro de Atos dos Apóstolos deveria se chamar Atos do Espírito Santo via Seus Servos, pois em todo lugar vemos Ele levantando homens e mulheres e, via eles, estabelecendo Igrejas como ponto de referencia de Seu Reino. E o Espírito vai sempre a frente realizando prodígios e milagres para confirmar a mensagem pregada pelos Seus arautos, pela Sua igreja.

Estas igreja locais que surgem da ação do Espírito são embaixadas do Reino de Deus aqui na terra, conforme alguns têm dito (Filipenses 3:20). Elas são locais onde vemos a cidadania do Reino, este novo jeito de ser humano, sendo enfatizada. Essas igrejas são poderosas e saudáveis, embora, por vezes, pequenas e enfrentando todo tipo de hostilidades num mundo pagão.

O que é uma igreja saudável, biblicamente falando? Esta igreja em Antioquia nos dá um pista. Ela é uma igreja liderada pelo Espírito, que tem seu caráter formado por Ele, e que junta forças com Ele na realização de Sua tarefa, sendo assim um instrumento dEle, tanto perto, quanto longe. Pois bem, esta também é a descrição de uma Igreja Missional.

Uma Igreja Missional é mais do que simplesmente uma Igreja que investe alguns de seus recursos e tempo na tarefa evangelística local e missionária transcultural. Ela é uma Igreja que o que a caracteriza é fazer parte da missão que o Espírito esta realizando. Ela é Missional porque esta palavra a qualifica, nos mostrando sua qualidade essencial – ser povo de Deus e instrumento da Missão de Deus.

Neste texto, vemos o envio de Saulo e Barnabé pelo Espírito e pela Igreja – dois agentes misturados e conectados intensamente na ação. A Igreja de Antioquia é energizada pelo Espírito que age não simplesmente dizendo externamente para eles fazerem algo, mas internamente mexe no processo de volição, intenção e ação da igreja, tendo a liderança local a frente desta ação dEle. Ou seja, não vira bagunça intimista, onde cada um diz o que pensa e faz o que quer, afirmando ser esta a direção do Espírito. Ao contrário, o que fazem é orquestrado pelo Espírito, que via os pastores conduz a Igreja há um só pensar e uma só direção.

Portanto, uma Igreja saudável é liderada pelo Espírito, que se utiliza de seus pastores para guiar todos os membros a se envolverem com o projeto do Reino. Ela possui certas CARACTERÍSTICAS:

1. É Uma Igreja multiétnica, multi-geracional e formada com pessoas de origem social diversa

Em 2007 visitei uma igreja no sudoeste da China que estava completando 90 anos. Naquele culto tinham milhares de pessoas vindas de mais de 10 minorias étnicas, povos, diferentes. Eles se juntaram para louvar a Deus à partir das 8h da manhã e foram até às 11h da noite. Dentre outras coisas, eles comemoravam a vinda dos missionários que haviam saído da Tailândia montados em Elefantes, cruzando rios e florestas, e chegando ali plantaram igrejas que juntavam pessoas de diferentes povos. Fiquei profundamente tocado, com a impressão que tinha tido um pequeno vislumbre de nosso futuro com Cristo.

Em Marcos 11:17, Jesus, citando Isaías 56, havia dito que o Templo seria uma “casa de oração para todos os povos”, mas que estava sendo subvertido pela liderança da época, fazendo ele ser somente para um povo e um tipo de gente. Depois vemos em Apocalipse 7:9 o cumprimento desta profecia, onde temos os mais de 16 mil povos todos em frente ao cordeiro louvando a Deus e dizendo que a “Salvação pertence ao nosso Deus”.

Como isso é possível? Pessoas tão diferentes, muitas vezes inimigas, sentadas juntas como irmãs e louvando a Deus! Vemos aqui, nesta igreja de Antioquia, um vislumbre do que irá acontecer no Novo Céu e na Nova Terra. Mas será isso possível hoje?

Certamente foi milagre o que aconteceu na igreja de Antioquia e nesta outra igreja na China, pois não é possível juntarmos pessoas tão diferentes e transforma-los em família. Em Antioquia, mesmo a composição de sua liderança era diversa. Temos um Negro, possivelmente africano, Judeus, cidadãos Romanos, pessoas comuns e gente rica e bem conectada, como Manaém. Pessoas diferentes, mas servindo sob um mesmo Senhor numa mesma Igreja local. Em Cristo isto foi feito possível, como podemos ler em Colossenses 3:11 “Nessa nova vida já não há diferença entre grego e judeu, circunciso e incircunciso, bárbaro e cita, escravo e livre, mas Cristo é tudo e está em todos.”

Precisamos do mesmo milagre hoje em nossas igrejas, pois uma igreja saudável sempre alcançara pessoas diferentes e as transformara em irmãos e irmãs em Cristo, pois a igreja já aponta agora, embora de forma incompleta, para aquilo que teremos de forma completa na volta de Cristo (1 João 3:2).

2. É uma igreja Cristocêntrica.

A palavra traduzida por “Adoravam” no texto se refere a muito mais do que o uso da música para louvarmos a Deus, ela esta se referindo ao serviço cristão à Deus através da oração, ensino, boas obras, etc, e tem uma característica de continuidade. Ou seja, enquanto eles serviam a Deus, talvez durante dias, semanas ou meses, o Espírito trouxe uma profunda convicção do que deveriam fazer. Mas em todo o tempo e em tudo que fizeram Jesus estava no centro da conversa e da motivação.

O ponto central de tudo que fazem é Cristo – “Enquanto adoravam o Senhor”. A palavra “Senhor” aqui em Atos e, geralmente em todo o Novo Testamento também, se refere a Jesus. Não poderíamos esperar outra coisa desta Igreja, pois foi ali que pela primeira vez fomos chamados Cristãos – pequenos Cristos. Cheiravam, agiam e pareciam com Cristo, tinham o jeitão dEle.

Vemos depois nos textos de Paulo que Cristo é o cabeça da Igreja (Efésios 1), que nEle fomos crucificados e para Ele agora vivemos (Gálatas), que tudo que fazemos é para glória dEle (Colossenses). Parece que Paulo viu neste primeira igreja que o recebe como líder o que depois ele escreve para todos como sendo uma igreja saudável. Cristo em vós, a esperança da Glória (Colossenses 1:27).

Historicamente podemos ver vários exemplos de igrejas e organizações para-eclesiásticas que colocaram o planejamento, as estratégias, os números, a influência, o bom nome e tantas outras coisas como o centro. Mas vemos aqui uma igreja que não perde o foco e a simplicidade – Cristo é o centro.

3. É uma igreja sensível a voz do Espírito

O processo de aprendizado de uma nova língua é algo fabuloso. Ele abre nossos ouvidos para sons que antes não conseguíamos decifrar. E uma coisa interessante é que mesmo quando já falamos a língua do outro, podemos escolher “desligar” nosso cérebro daqueles sons e não prestar atenção neles, coisa que é muito mais difícil em nossa própria língua. Por exemplo, se todos estiverem falando em chinês num café e eu quiser continuar minha leitura em português é fácil desligar e não prestar atenção neles.

Quando começamos nossa nova vida em Cristo também iremos aprender uma nova maneira de se comunicar. Agora o conteúdo, o tom e a direção de nossas vidas não são mais como antes. Mas, de fato, podemos silenciar esses novos “sons” e voltarmos a ouvir as vozes que ouvíamos antes.

Há muitas vozes sendo ouvidas hoje. As vozes das tradições, da modernidade, do medo e das antigas amarras e vícios, assim como dos pecados da alma – orgulho, ressentimento, inveja, raiva – todas estas e muitas outras falam alto e infelizmente muitas vezes calam fundo ao nosso coração.

A voz de Deus, no entanto, tem uma qualidade, uma intensidade e um caráter específico que nenhuma outra voz consegue se contrapor. Quando Ele fala todos ouvem. Quando Ele fala tudo muda. Quando Ele fala deveríamos ter ouvidos para ouvir.

Para sermos sensíveis a voz de Deus é necessário esforço e dedicação, prática de disciplinas espirituais, embora tudo isto por si só não nos dará o resultado, pois Ele se faz ouvir por quem Ele quer. No entanto, quando separamos tempo, abrindo nossa agenda para Ele, quietando o coração e esperando que Ele graciosamente toque em nossas vidas, sendo Ele presenteador daqueles que dEle se aproximam com fé (Hebreus 11:6), então poderemos ouvi-Lo como estes irmãos nossos de Antioquia.

Certamente uma igreja saudável e missional será sensível a voz dEle, pois acostumará seus ouvidos e corações a perceberam quando Ele fala.

4. É uma igreja organizada e liderada em torno de uma liderança múltipla

Em muitos lugares da China ainda hoje é difícil falarmos sobre a ordenação de pastores, pois nas décadas de 50, 60 e 70 quase toda liderança ou foi para cadeia ou foi morta por causa do evangelho e os novos líderes que assumiram não tiveram tempo de serem preparados e nem tiveram quem os ordenasse. Ainda hoje eles sofrem muito com a falta de líderes e de líderes preparados. Este talvez seja o maior desafio da igreja chinesa ainda hoje.

Vemos em Mateus 16 e 18 que a Igreja é um grupo de pessoas que imponderadas pelo Senhor Jesus se unem e O representam demonstrando para o mundo quem é uma nova pessoa em Cristo e quem não é. Ligamos e desligamos. Mostramos e falamos para o mundo como é o retrato das pessoas que representam nosso Mestre e Senhor.

Depois em Tito Paulo diz para ele que deveria passar pelas igrejas de Creta e colocar presbíteros/ líderes/ pastores em cada igreja. Uma igreja pode anteceder a existência de uma liderança, mas não deve prescindir de te-la. Deus nos quer organizados, agindo como bons mordomos, e algo essencial que Ele nos deu neste processo foi time de líderes para estarem a frente de cada parte de Seu rebanho (Efésios 4:11 a 16).

O pertencimento à uma igreja local sempre foi essencial a nova vida em Cristo. Em Hebreus 10 vemos que aqueles que decidiram não fazer parte mais da reunião da Igreja estavam afirmando com suas vidas que nunca haviam feito parte de fato do Reino de Deus. Em nenhum lugar no Novo Testamento temos qualquer indício de que é possível sermos crentes “lobo solitário”, muito pelo contrário, quando somos da Família do Céu nada mais nos impede de querermos estar na Comunidade do Regenerados pela Graça. E mesmo missionários que serão enviados precisam desta comunidade local que os acolha, cuida e envia.

Esta igreja de Antioquia que é organizada como Família, como uma embaixada dos Céus, também se organiza para se tornar a base enviadora do primeiro time missionários organizado – Barnabé e Saulo. Depois vemos os dois voltando para prestar contas e compartilhar o próximo passo. E provavelmente estimular outros a se tornarem missionários de tempo integral também, sendo que somente Paulo chegou a ter mais de 50 pessoas em sua equipe nos anos seguintes. E todos muito bem conectados à igrejas locais.

5. É uma igreja que se torna referência na sua localidade, e a partir dai em outras localidades (perto e longe).

Um amigo meu, missionário na China, precisou lidar com as dúvidas de sua filha adolescente sobre a fé cristã. Quando ela estava fazendo o segundo grau em seu país, uma professora espiritualista resolveu levar todos os alunos para uma viagem “espiritual” na Índia. Meu amigo permitiu que sua filha fosse com uma condição: ela deveria anotar em todas os locais que fosse quem era que cuidava dos pobre, doentes e necessitados da sociedade. Quando ela voltou entregou o relatório para o pai dizendo: “quase 100% das boas ações que ela viu eram feitas por cristãos, agora eu entendo melhor o que nós somos e o que eu quero ser. Eu quero ser parte deste Reino, desta igreja, deste povo cristão”.

Ficamos muitas vezes sem graça em falarmos da igreja como referencia para sociedade, mas podemos estarmos seguros de que o Espírito sempre esta trabalhando para produzir este sal e luz a partir de nossas experiências.

Esta igreja de Antioquia já tinha chamado a atenção da Igreja de Jerusalém anos atrás. Se torna a primeira igreja multiétnica citada nas Escrituras, se considerarmos a de Jerusalém formada tipicamente de Judeus de várias partes do mundo da época. Desta forma, ela aponta para o cumprimento das profecias do AT, e agora se torna também referência em outras partes do mundo conhecido.

É natural entendermos o impacto da vida de Barnabé e Saulo. Se somos de fato uma benção onde estamos seremos também em outras localidades. Somos chamados para sermos luz às Nações. A questão é entendermos desde onde estamos o que é que o Pai esta fazendo, aqui primeiro e depois lá distante. Como Salmo 127 diz, se Ele não é o construtor não adianta construir. O que Ele esta construindo então?

Vidas! Ele quer que cada casa, cada família, cada bairro, cada cidade, cada canto escuro de nossas sociedades sejam iluminadas pela luz do evangelho da graça de Deus. E Ele quer que isso aconteça através de nossas vidas. Nós é que somos Sal e Luz do mundo e não simplesmente um grupo profissional que chamamos de missionários. Eles são enviados à outros lugares para fazerem aquilo que já estávamos fazendo em nossa própria localidade.

Quando entendemos esta missão fica mais fácil entender porque precisamos enviar missionários a todos os cantos, porque começamos a entender que a presença é necessária e não somente informação. Não é a informação sobre o sal que salga, mas a presença do sal. Assim como não é a informação sobre a luz que ilumina, mas a luz estar acessa naquele lugar. Precisamos nos tornar referencia em cada novo lugar, a começar pelo nosso.

6. É uma Igreja que entrega o melhor que tem para missões

Certa vez encontrei um pastor Lisu no alto da região Tibetana. Ele representava 40 igrejas que queriam enviar cada uma um missionário por cima das montanhas para alcançarem povos isolados na China, Miamar e Laos. Eles eram muito pobres e quando perguntamos como eles fariam com a questão financeira eles disseram que dariam todo o dízimo entregue nas igrejas para pagarem o custo destes missionários e criam que Deus supriria a necessidade deles em suas igrejas. Não creio que aprendemos a dar se só o que damos é o que nos sobra. Como disse um pastor amigo “não deu de verdade quem só deu do seu, mas não deu de si”.

Paulo e Barnabé são dois dos líderes mais capacitados e respeitados da história da Igreja e eles eram os pastores desta igreja local em Antioquia. Em algum momento, esta igreja abre mão de te-los somente para si e os compartilham com o mundo.

Aqui vemos um grupo de pessoas que entende pelo Espírito onde precisam colocar o seu tesouro – no mundo perdido, no crescimento da Glória de Deus entre os povos.

Eles são a embaixada dos Céus, cooperando com os Rei do Reis, o Criador  de tudo e de todos, para a expansão de Seu Reino. Eles representam não um projeto ensimesmado, mas o novo e vivo caminho, aberto para todos os povos de todos os lugares e eles não abrem mão de fazerem parte ativa de tudo o que o Espírito os esta capacitando e mostrando que devem fazer.

Não foram as para-eclesiásticas que foram chamadas a fazerem missões. Não foram as agências missionárias que fizeram parte do Plano eterno de Deus. Não foram outras organizações quaisquer, nem mesmo as denominações, por melhores que possam ser seu serviço à Igreja, não foram elas que emponderadas pelo Espírito proclamariam a salvação do Cordeiro. Foi a Igreja, fomos nós, a família do Filho Amado de Nosso Pai.

E no NT quase todas as vezes que se menciona a palavra igreja se fala da igreja Local, desse ajuntamento de pessoas que se organizam naquela localidade e a partir daquela localidade para falar à todos que Jesus é o Senhor e Ele nos oferece agora a Salvação, como um Cordeiro que foi morto pelos nossos pecados, mas que virá como Leão para julgar aqueles que não o quiseram reconhecer e aceitar Seu plano eterno.

Conclusão

Seguimos então um Plano Eterno. Não seguimos um plano qualquer. E a igreja local é o principal instrumento deste Plano. Ele quer nos usar e ainda hoje esta a falar com todos nós através de Sua Palavra e do testemunho desta igreja em Antioquia e de todas as que permaneceram fiéis a Deus e a Sua missão durante os séculos. Não abram mão de investirem tudo que tem e são, de colocarem o tesouro, o foco, o coração de vocês onde Jesus esta colocando o dEle.

E é claro que para isso precisamos agora da ação do Seu Espírito nos guiando e convencendo de nossas escolhas erradas e nos mostrando o novo e vivo caminho. Precisamos dEle abrindo nossos olhos e corações para a salvação dos povos. Nós falhamos, mas Ele nunca falha e hoje Ele está aqui nos chamando uma vez mais para nos tornarmos, pela fé nEle, povo Seu, propriedade exclusiva do Ancião de Dias descrito em Daniel, do Servo Sofredor de Isaías, do Leão da tribo de Judá de Apocalipse, que vira para nos buscar e agora quer nos usar como uma igreja saudável e missional.

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Sobre Antonio C. Barro

É professor da Faculdade Teológica Sul-Americana, em Londrina. Formado em teologia, com mestrado e doutorado pelo Fuller Theological Seminary, nos Estados Unidos. É o criador e editor do blog cristão: www.coisado.com.br

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