Aprendendo com galinhas: o Princípio do Grão em Grão





Pequenas ações, grandes diferenças

Carl Sagan, o cientista e astrofísico que escreveu o livro que baseou o filme Contato, relata que presenciou uma cena insólita, envolvendo dois macacos e uma galinha. Um macaco atraía a galinha com comida e o outro, com um pedaço de pau, batia nela quando ela vinha pegar a comida. A galinha fugia e os macacos repetiam a estratégia várias vezes, e a galinha sempre voltava. Sagan tirou algumas conclusões a partir desse episódio, a respeito da incapacidade da galinha de aprender com a própria experiência e a interessante capacidade dos macacos de planejamento e cooperação.

Se galinhas não aprendem, talvez nós, mais evoluídos, possamos aprender com elas.Dizem que de grão em grão a galinha enche o papo. Bem, talvez você não tenha ainda prestado atenção nesse ditado e possa estar perdendo algumas oportunidades. Vamos mostrar aqui que ele pode ser usado como um princípio, uma espécie de filtro perceptivo que nos inspira alternativas de ação, ou seja, algo prático e, melhor ainda, muito fácil de ser aplicado.

O princípio

O Princípio do Grão em Grão afirma essencialmente que muito pode resultar da acumulação de pequenas coisas.  Vamos ver algumas situações da vida em que isso ocorre:

– Um casal de namorados se encontra 3 vezes por semana, e em cada encontro se beijam em média 3 vezes, em um total de 2 minutos (talvez você ache pouco, mas se eu errar, que seja para menos). Em cada semana, portanto, eles se beijam 18 minutos. Se namorarem 2 anos,  eles vão se beijar mais de 30 horas. Imagine como é com aqueles apaixonados que não passam um dia sem se ver…

– Se você tem carro há alguns anos, talvez tenha visto seu velocímetro avançar 50 mil quilômetros, o que já é suficiente para dar duas voltas em torno da Terra pelo Equador. Em 10 anos, rodar 100 mil não chega a ser muito.

– Um fumante de um maço por dia, 365 maços por ano, em 10 anos fuma 73 mil cigarros. Se ele gasta 5 minutos por cigarro, durante esse período ele passou 365 mil minutos, ou 6.083 horas, com um cigarro acesso. E se cada maço custar 2 reais, ele terá gasto 14.600 reais.

Você vai encontrar muitos outros exemplos bem próximos de você: 20 anos de mensalidade de TV a cabo dão para comprar um carro. Em um ano de trabalho, bebendo água em copos descartáveis, posso jogar no lixo 1.000 copos. Em 10 anos de prazerosos banhos quentes, e se você tem uma certa consciência no uso de recursos, você pode consumir 35 mil litros de água, sem considerar a água que gera a energia elétrica para o seu chuveiro.

Esses são casos concretos do Princípio do Grão em Grão considerado na dimensão individual. Na dimensão social, sua força fica mais evidente. Se minha empresa tem 2.000 funcionários que descartam copos (tem muitos mais), em 1 ano descartamos 2 milhões de copos. Milhões de pessoas tomando banho consomem bilhões de litros de água e milhões de quilowatts-hora. Nossas pequenas ações, multiplicadas por todos nós, assumem uma dimensão bastante significativa.

Aplicações

O Princípio do Grão em Grão por si é apenas um filtro perceptivo, um conjunto de palavras que nos faz prestar atenção em algo de uma certa maneira, sob um certo enfoque. Bom mesmo é quando o usamos para algum propósito. Vamos ver alguns casos no nível individual, isto é, em que o maior beneficiado é você, e alguns outros nas dimensões sociais e ambientais, em que as vantagens podem ser pequenas no nível pessoal mas significativas no nível coletivo.

Aplicações individuais

Uma aplicação do Princípio do Grão em Grão até algo óbvia é quanto a dinheiro: se você economizar 1 real que seja durante algum tempo, em algum momento o montante se tornará significativo. Outras pessoas podem não entender o que você está fazendo e lhe aplicar um rótulo como “muquirana”. Nesse caso, sugiro a melhor resposta que já ouvi, a “filosofia monetária” da dona Nice, minha mãe, na minha opinião uma excepcional síntese: “Economizo onde eu posso para gastar onde eu quero”. Se você preferir, e conforme o tom da comunicação da outra pessoa, ponha um ponto de exclamação no final.

Diariamente eu aplico o Princípio ao dirigir. Eu ando cerca de 2 quilômetros em descida todos os dias, ao voltar do trabalho. Descobri que, se deixar o carro em marcha lenta nas descidas, em um ano deixo de gastar um tanque inteiro de combustível. Se for fazer o mesmo, apenas tenha o cuidado de garantir que o motor não vai morrer, há freios que só funcionam bem com o motor ligado.

Se você tem filhos e condiciona o valor da mesada ao rendimento escolar ou ao bom comportamento, pode usar o Princípio do Grão em Grão para auxiliar na motivação: “Filhote, você sabia que, deixando de receber 5 reais da mesada toda semana, em um ano você perde 260 reais?

Fumantes que decidem não fumar 2 cigarros por dia, a cada ano vão deixar de fumar 36 maços e meio.

Se você tirar 5 minutos por dia para relaxar o corpo, ao final de um ano terá relaxado 30 horas. Se, dirigindo, habituar-se a soltar braços, rosto, pernas ou todo o corpo a cada semáforo onde parar, talvez você relaxe entre 1 mil (3 relaxadas por dia) a 10 mil vezes ao ano, conforme a cidade onde mora. Essa possibilidade vale também para a internet: que tal aproveitar o tempo que a próxima página leva para ser carregada? Pista: solte-se a cada vez que o cursor do mouse se torna uma ampulheta (ou o que quer que você tenha posto no lugar desta!).

Aplicações sociais e ambientais

– Uma impressora de computador doméstica consome 1 watt por hora ligada na tomada, e 4 watts por hora ligada, sem fazer nada. Nas 720 horas de um mês, ela vai consumir entre 720 e 2.880 watts mesmo que não produza nada de útil. Se a casa tem 5 aparelhos com características semelhantes,  como videocassete, televisor e aparelho de som, a conta de luz vai aumentar de 3,5 a 14 quilowatts-hora, ou seja, de 1 a 4% da conta mensal. Multiplicados por todas as nossas casas, milhões de quilowatts-hora são consumidos para absolutamente nada. Se boa parte de nós tivesse o hábito de desligar aparelhos de tomadas (alguém ainda vai inventar uma tomada com interruptor), o horário de verão, que objetiva economizar alguns poucos pontos percentuais, não seria necessário.

– O simples gesto de levar água à boca para enxaguá-la ao escovar os dentes, deixando a torneira aberta, multiplicado por milhões de pessoas, consome milhões de litros de água – também por nada. Se nós abrirmos a torneira somente quando estivermos com a outra mão para receber a água, a companhia de água iria faturar menos em um primeiro momento, mas mais pessoas poderiam ser beneficiadas.

– Copos e outros objetos descartáveis nem sempre são imediatamente descartáveis, podem ser reutilizados sem problemas e sem custo. Milhões desses objetos não seriam jogados na natureza se nós tomássemos água 2 vezes – apenas – no mesmo copo.

Conclusões

Você deve ter notado que as ações mencionadas para aplicação do Princípio do Grão em Grão praticamente não têm custos, apenas benefícios, significativos no nível individual e por vezes críticos nos níveis social e ambiental, podendo os hábitos de uma população determinar parte da sua qualidade de vida e até sua sobrevivência. Parece-nos que essa é uma questão não de educação, mas de percepção. Muitos de nós não temos uma noção precisa da diferença que fazemos, cujo impacto só aparece quando visto sob o holofote do Princípio do Grão em Grão.

Acreditamos que você já pode perceber melhor essas diferenças: nossa vida, nossa sociedade, nosso belo planeta, estão sendo construídos – ou não – pelas nossas pequenas ações no dia-a-dia. Bem, perceber isso de certa forma nos torna mais responsáveis pelo que acontece nos vários níveis de existência.


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