Era uma vez uma escola





In: Histórias de gente que ensina e aprende. São Paulo: EDUSC, 1999, pp. 27-28. (homenagem a Paulo Freire)

Era uma vez uma escola

onde trabalhava um mestre

que ensinava diferente

de tudo o que conheceste.

Em sua aula, não dizia

"nada sabes, só eu sei",

nem falava assim: "copiem

tudo isso que expliquei".

Disse que não era ele

só quem tinha que ensinar

e falou que todo mundo

tinha algo para dar.

"Ninguém educa ninguém"

Ninguém "dá" educação:

"os homens é que se educam,

um ao outro, em comunhão".

Ensinando o alfabeto

não pediu, como já vi

prá escrever "uva", "vovó",

"asa", "ema" ou "siri"

pediu prá escrever "tijolo",

"enxada", "trabalhador",

ensinou a escrever "salário",

"justiça", "direito", "amor".

Depois ele então pedia

prá falar nossa opinião

pois essas belas palavras

estavam nas nossas mãos.

Nós sentados sempre em roda

íamos tendo consciência

de que toda a teoria

de que toda a ciência

só têm valor para o mundo

se ajudam a transformar

se ajudam o homem pobre

aos problemas superar.

Naquela sala de aula

se formava todo dia

em nossa humilde cabeça

uma linda utopia

Podemos mudar o mundo!

Prá isso serve aprender!

Prá construir a sociedade

nossa enxada é o saber!

Era assim como se dava

cada aula deste mestre

e no fim não tinha nota

nem tinha prova, nem teste:

Cada um ia falando

se se sentia aprovado

porque percebia em si

como ele tinha mudado.

Tu também vais hoje à escola?

Tu também tens o teu mestre?

E tu, como te avalias

No fim de cada bimestre?

Quanto é que tu mudaste

em razão e sentimento?

O que deste tu ao mundo

com o teu conhecimento?

Não te esqueças de uma coisa:

se acaso o teu professor

não te vê como pessoa,

não procura teu valor

Se contigo nada aprende

se não pode te escutar

e apenas nas suas provas

é que podes te expressar

Se não fala de justiça

se não quer transformação

se não vê na aprendizagem

um instrumento da ação

Se ele nunca põe afeto

na sua aula exemplar

e é só ele quem escolhe

a matéria que vai dar

Fala a ele desse mestre

que acabei de te falar;

conta a ele dessa escola

onde se pode sonhar.

Quem sabe ele te escute

e juntos possam viver

a fascinante aventura

que se chama aprender. 


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