Mundos

Ganhei o mundo embrulhado, estava marcado “Frágil”.
No embrulho, havia um adesivo com a figura de um pequeno globo partido.
Eu o abri cuidadosamente, temendo ouvir o tilintar de cristal quebrado ou descobrir cacos de vidro.
Mas estava intacto.
Com as duas mãos, tirei-o da caixa e ergui à luz do Sol.
Era um paralelepípedo transparente, com água mais ou menos pela metade.
O número 4210 estava indicado numa etiqueta não muito visível. Mundo 4210: devia haver muitos desses mundos, pensei.
Cautelosamente, eu o botei em minha escrivaninha e fiquei observando.
Podia ver a vida lá dentro – uma rede de ramos, alguns incrustados com algas verdes filamentosas e dois peixes.
Além de centenas de espécies de outras espécies de seres, tão abundantes nessas águas quanto peixes nos oceanos da Terra, mas eram todos micróbios, muito pequenos para que eu pudesse vê-los a olho nu.
Os peixes logo atraíram a atenção, porque estavam muito ocupados.
Um deles estava dedicando toda a atenção ao ato de comer um filamento de plantas.
Sob alguns aspectos, é claro, eram muito diferentes de nós.
Tinham nadadeiras e respiravam água.
Mas, sob outros aspectos, eles eram como nós.
Era difícil não perceber.
Tinham cérebro, coração, sangue, olhos.
De certos ângulos, o topo da água é um espelho, e o peixe vê o seu próprio reflexo.
Será que consegue se reconhecer?
Mais provavelmente, apenas vê o reflexo como mais um peixe.
De outro ângulo, os vejo, imagino que ele deve ser capaz de me ver.
Às vezes, quando estou observando um que mexe nas algas, ele parece se enrijecer e olhar para mim.
Temos feito contato visual.
Eu me pergunto o que ele acha que vê.
Depois de alguns dias de esquecimento, acordo, dou uma olhada na mundo de cristal…
Então me censuro.
Não preciso dar-lhes vitaminas, mudar a água nem levá-los ao veterinário?
Tudo o que tenho que fazer é dar comida e cuidar para a temperatura ficar em 28°C.
São apenas peixes, porém depois de algum tempo começamos a nos preocupar com eles, a torcer por eles.
Se ficamos a cargo de um pequeno mundo como esse, e nos preocupamos com a comida e a temperatura – fosse qual fosse a intenção inicial- acabamos por nos importar com aqueles que estão lá dentro.
No entanto, se estiverem doentes ou morrendo, não podemos fazer muita coisa para salvá-los.
De certo modo somos mais poderosos que eles, mas somos limitados, poderosamente limitados.
Até nos perguntarmos se não é cruel colocá-los nessa prisão de cristal.
Mas nos tranqüilizamos com o pensamento de que ali eles estão a salvo dos predadores e vazamentos de óleo.
As fezes dos peixes não permanecem por muito tempo.
São comidas pelos microorganismos invisíveis que proliferam nos oceanos desse mundo.
E assim me lembro de que essas criaturas não trabalham sozinhas.
Elas precisam umas das outras.
Elas cuidam umas das outras de um modo que não sou capaz de fazer.
Os peixes tiram o oxigênio da água e exalam dióxido de carbono.
As algas tiram o dióxido de carbono e exalam oxigênio.
Eles respiram mutuamente os gases que são refugos dos outros.
No pequeno Éden, os moradores têm um relacionamento extremamente íntimo.
A existência dos peixes é muito mais tênue e precária que a de outros seres.
As algas podem viver muito mais tempo sem os peixes do que estes sem aquelas.
Por fim -até hoje não sei a razão- os peixes morreram.
Um pouco para minha surpresa, eu me peguei desanimado com a morte deles.
Acho que foi em parte porque eu chegava a conhecê-los um pouco.
Mas em parte, eu sabia, foi porque temia um paralelismo entre o seu mundo e o nosso.
Ao contrário de um aquário, nosso pequeno mundo é um sistema ecológico fechado.
A luz entra no mundo, mas ele não recebe nada mais (nem alimento, nem água, nem substâncias nutritivas).
Tudo deve ser reciclado.
Nós vivemos uns dos outros, respiramos e comemos os refugos dos outros, dependemos uns dos outros.
A vida é energizada pela luz do Sol, que passa pelo ar, é colhido pelas plantas e lhes dá a força para combinar dióxido de carbono e água e formar carboidratos e outros materiais comestíveis que constituem a dieta principal dos animais.
Nosso mundo é semelhante ao aquário e somos parecidos com os peixes.
Mas há pelo menos uma diferença importante: somos capazes de mudar nosso meio ambiente.
Podemos fazer conosco o que um dono descuidado do aquário pode fazer com os peixes.
Se não cuidarmos, podemos aquecer nosso planeta pelo efeito estufa atmosférico ou esfriá-lo e escurecê-lo com as conseqüências de uma guerra nuclear ou de um grande incêndio num campo petrolífero ou ignorar o impacto causado por um cometa.
Com a chuva ácida, a destruição da camada de ozônio, a poluição química, a radioatividade, a destruição das florestas tropicais e uma dúzia de outros ataques ao meio ambiente estamos puxando e esticando nosso mundo em direções que não sabemos as conseqüências.
Nossa civilização supostamente avançada pode estar alterando o delicado equilíbrio ecológico que evoluiu ao longo de 4 bilhões de anos da vida sobre a Terra.
Os peixes são muito mais antigos que as pessoas, ou primatas ou até os mamíferos.
As algas remontam 3 bilhões de anos atrás, muito antes dos animais, quase na origem da vida sobre a Terra.
Todas têm trabalhado juntas por muito tempo.
O arranjo de organismos no meu aquário é muito mais antiga que as instituições culturais que conhecemos.
A tendência a cooperar tem sido dolorosamente extraída por meio do processo evolucionário.
Os organismos que não cooperaram, que não trabalharam uns com os outros, morreram.
Isso é a seleção natural, faz parte da natureza cooperar.
É a chave para a sobrevivência.
Mas nós, humanos, somos recém-chegados, pois só surgimos há uns milhões de anos.
Nossa civilização técnica tem 6 mil anos e a nossa ciência apenas 300 anos.
Não tivemos muitas experiências recentes de cooperação voluntária entre espécies.
Somos muito inclinados ao curto prazo e quase nunca pensamos a longo prazo.
Tenho um colega que não consegue compreender que a água que gasta lavando os carros vai fazer falta daqui alguns anos. Não há garantia de que seremos inteligentes o bastante para compreender o nosso sistema ecológico fechado em todo o planeta, ou para modificar nosso comportamento quando houver esse entendimento.
O planeta é indivisível.
O ar respirado na América do Norte é gerado na floresta amazônica e tropical brasileira.
A radioatividade na Ucrânia compromete a Lapônia.
A chuva ácida dos EUA, destroi florestas canadenses.
A queima de carvão na China aquece a Argentina.
Os CFC´s na América do Sul ajudam a causar câncer na Nova Zelândia.
A guerra nuclear e o impacto de um asteróide representam um perigo para todos os países.
Gostando ou não, nós humanos, estamos ligados com nossos colegas humanos e com plantas e com animais.
Nossas vidas estão entrelaçadas.
Se não fomos agraciados com um conhecimento instintivo que nos mostre o que fazer para que nosso mundo regido pela tecnologia seja um ecossistema seguro e equilibrado, devemos descobrir como fazê-lo.
Precisamos de mais pesquisas científicas e mais controle tecnológico.
É muito cômodo esperar que um grande Zelador do Ecossistema venha à Terra e corrija nossos abusos ambientais.
Cabe à nós a tarefa.
Não deve ser tão difícil assim.
Os pássaros (cuja inteligência tendemos a denegrir) sabem o que fazer para não sujar o ninho.
Os peixes com cérebro de tamanho de fiapos sabem o que fazer.
As algas sabem.
Os microorganismos sabem.
Já é hora de sabermos também.

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