Sinal fechado

Foi no Natal do ano passado. O sinal fechou e Flávio parou o carro. Logo viu que se aproximava um menino. Daqueles que costumamos ver nas esquinas e sinais e com os quais, todavia, não nos acostumamos. Sua primeira reação foi fechar o vidro do carro. Sentimentos como medo e insegurança o incomodaram. Justo no Natal, quando batem os sinos pequeninos de Natal proclamando a paz na terra, este menino se aproxima.


A surpresa, no entanto, veio quando este menino, franzino, bateu no vidro com os dedos e desejou um Feliz Natal. E foi embora! Só isso… não pediu moeda e nem quis vender nada, nem se ofereceu para lavar o vidro. Flávio engoliu em seco, o sinal abriu e o carro que estava atrás buzinou porque tinha pressa. E Flávio seguiu… e o menino ficou. Um foi e outro ficou, pela vida.


Dias depois conversávamos a respeito, e a inquietação de Flávio e seu sentimento incômodo diante do acontecido tornaram-se meus também.


Passado quase um ano, e outro Natal se aproxima. Momento que convida a olhar para a vida, em torno da pequena manjedoura que acolhe, em meio a palha simples, o sinal maior do amor de Deus. O Deus menino vem até nós e, singelo, bate no vidro que nos separa, buscando desejar a bênção da vida. E nós nos fechamos porque temos medo do que pode significar este encontro. Olhar nos olhos e perceber no outro a humanidade.
A pressa da vida, o sinal que abre e a urgência daqueles que vêm atrás de nós nos impedem de ouvir o desejo expresso em palavras simples. São desculpas porque, afinal, não temos tempo, temos medo.


Não sei se aquele menino continua naquele sinal, não sei o que dele foi feito neste ano que passou. Sei sim o que Deus fez por mim e os caminhos pelos quais me conduziu.


Também sabemos, Flávio e eu, que se neste Natal um menino de nós se aproximar não vamos fechar o vidro e virar nosso olhar. Nem permitir que a pressa do outro nos impeça de ouvir o desejo de um Feliz Natal que o menino nos diz. Vamos olhar nos olhos e agradecer, quem sabe retribuir o desejo deixando ali tudo, menos o sentimento incômodo de abandono e rejeição a quem não foi compreendido. Quiçá possa Deus nos permitir a graça do encontro singelo com o Deus menino mais uma vez e, tendo ouvido sua voz, possamos dar graças pela vida que Dele temos recebido.

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