A graça no banco dos réus

CUIDADO! BURACO ABERTO

Texto: Atos 15.1-35

O momento histórico do cristianismo neste ponto da narrativa de Atos dos Apóstolos pode ser comparado a uma viagem em rodovia. O condutor são os apóstolos. E no acostamento da pista, à direita do volante, há uma placa amarela na qual se lê: CUIDADO! BURACO ABERTO. De fato, o buraco – aliás, a cratera! – logo adiante é tão grande que engoliria facilmente o cristianismo com motorista, passageiros e tudo.

O que estava em jogo era a doutrina da salvação. Caso fracassassem em definir a questão, o cristianismo teria caído no abismo do erro e se desfigurado completamente – teria se tornado uma outra religião (totalmente diferente da que Pai, Filho e Espírito Santo planejaram, consumaram e estavam aplicando). Mas para entender a situação, a gente precisa retroceder nessa viagem. Temos que retornar ao início de Atos dos Apóstolos e enxergar esse trajeto da perspectiva de um judeu comum convertido ao cristianismo. Afinal, lembre-se de que o cristianismo nasceu no berço do judaísmo. Logo, a maioria dos primeiros convertidos ao cristianismo era composta de judeus. Dentre esses, havia “alguns dos irmãos que pertenciam à seita dos fariseus” (At 15.5). Esses tais pregavam o seguinte (At 15.5): “É necessário que os convertidos gentios [convertidos que não são judeus, os de outros países, povos ou culturas; os convertidos brasileiros, por exemplo] sejam circuncidados e guardem a lei de Moisés”.

Percebeu?

O que estava em jogo era a doutrina da salvação: a salvação dos judeus e também a salvação dos gentios; ou seja: o que é necessário para a salvação? somente Cristo ou Cristo mais a circuncisão e a guarda da lei de Moisés? Cristo e mais alguma coisa?

Se os “irmãos que pertenciam à seita dos fariseus” requeriam dos gentios convertidos a circuncisão e a guarda da lei de Moisés, assim procediam porque essa era uma prática essencial para eles mesmos – isto é, salvação = Cristo + circuncisão + a lei de Moisés. Ora, nessa formulação, a suficiência de Cristo cairia no buraco da estrada juntamente com aquele cristianismo sectário. Logo, o problema em questão era a salvação dos gentios, e dos próprios judeus.

Mas não sejamos tão duros com esses judaizantes sem, antes, nos colocarmos nas sandálias deles. Assim, para entendermos a situação, devemos voltar ao início de Atos e enxergar os eventos ao longo do livro até este ponto (Atos 15); temos que enxergar o quadro todo da perspectiva de um judeu comum convertido ao cristianismo.

Imagine a reação de um judeu recém convertido; ele está ouvindo a última palavra do Senhor Jesus antes de sua ascensão ao céu; o diálogo teria sido mais ou menos assim – Atos 1.8:

Jesus — “Vocês receberão poder quando o Espírito Santo descer sobre vocês, e serão minhas testemunhas em toda parte: em Jerusalém, …”

Judeu — “Ótimo! Bora pra cima!”

Jesus — “em toda a Judeia, …”

Judeu — “Boa ideia! Temos família na Judeia.”

Jesus — “em Samaria …”

Judeu — “Sa-Saa-Samaria? Não nos damos bem com aqueles mestiços!”

Jesus — “e nos lugares mais distantes da terra”.

Judeu — “Espera um pouco! Ir aos gentios também?! Não dá!

Desde a infância, os judeus foram ensinados a evitar os “moralmente impuros” gentios – da comida à cultura; da moda à música; dos costumes ao convívio; tudo era proibido. Portanto, todo judeu que se tornava cristão trazia consigo nas costas essa bagagem cultural, trazia no coração essa atitude separatista e condenatória para a nova fé.

O PRIMEIRO CHOQUE CULTURAL dentro da igreja foi por preterição e está registrado em Atos 6.1 — “À medida que o número de discípulos crescia, surgiam murmúrios de descontentamento. Os judeus de fala grega se queixavam dos de fala hebraica, dizendo que suas viúvas estavam sendo negligenciadas na distribuição diária de alimento.” — Os “judeus de fala grega” (ou helenistas) eram judeus que vieram de outros países para morar na Palestina. Embora fossem judeus de nascimento, descendentes dos imigrantes gregos, eram culturalmente gregos – coisa que os judeus (os “de fala hebraica”) de Jerusalém tomavam como contaminação, mestiçagem impura.

Ora, esses helenistas ou judeus de fala grega sentiram na pele que estavam sendo discriminados, e que as viúvas hebréias estavam sendo favorecidas. Graças a Deus, porém, esse problema foi resolvido com sabedoria e a devida compaixão, quando os líderes levaram o assunto à igreja, que por sua vez elegeu diáconos imparciais (de fala grega!) para distribuirem os alimentos com justiça (At 6.2-6). Resultado: Atos 6.7 — “Assim, a mensagem de Deus continuou a se espalhar. O número de discípulos se multiplicava em Jerusalém, e muitos sacerdotes também se converteram.”

Esse incidente foi apenas um gostinho do que estava por vir. Adiante… Atos 10.

EM UMA VISÃO, PEDRO “viu o céu aberto e algo semelhante a um grande lençol ser baixado por suas quatro pontas” (At 10.11). O que Pedro viu? No lençol ele viu que havia “toda espécie de animais, répteis e aves” (At 10.12). Então, Pedro ouviu do Senhor: “Levante-se, Pedro; mate e coma” (At 10.13). Mas Pedro não estava preparado para ouvir aquilo de Jesus:

Atos 10.14-16 14“De modo nenhum, Senhor!”, respondeu Pedro. “Jamais comi coisa alguma que fosse considerada impura e imprópria.” 15Mas a voz falou novamente: “Não chame de impuro o que Deus purificou”. 16A mesma visão se repetiu três vezes. Então, subitamente, o lençol foi recolhido ao céu.

Pedro continuou perplexo, mas depois tudo fez sentido quando, após ele mesmo pregar o evangelho, testemunhou com seus próprio olhos um gentio “impuro” chamado Cornélio confiar em Cristo para a salvação e receber o Espírito Santo (At 10.17-48).

PEDRO APRENDEU UMA LIÇÃO SOBRE A GRAÇA: qualquer um pode crer em Cristo e ser salvo, independentemente de raça ou cultura. MAS OS CRISTÃOS JUDEUS EM JERUSALÉM, que não tinham tido a mesma visão nem testemunhado o mesmo acontecimento na casa de Cornélio, lutaram bastante contra essa possibilidade. Foi tanto que, quando Pedro subiu a Jerusalém, os que eram circuncidados debateram com ele:

Atos 11.1-3 1Logo chegou aos apóstolos e a outros irmãos da Judeia a notícia de que os gentios haviam recebido a palavra de Deus. 2Mas, quando Pedro voltou a Jerusalém, os discípulos judeus o criticaram, 3dizendo: “Você entrou na casa de gentios e até comeu com eles!”.

IMAGINE VOCÊ: nós brasileiros, nós goianos, se fossemos nós em vez de Cornélio e sua casa, esta teria sido a crítica que Pedro teria recebido por nossa causa, por não sermos judeus de sangue: “[Pedro!] Você entrou na casa de gentios [brasileiros, goianos] e até comeu com eles!” (At 11.3). — MAS PEDRO FOI PACIENTE E EXPLICOU que a mão de Deus estava sim na conversão de Cornélio e demais irmãos não judeus (At 11.4-17). RESULTADO: Atos 11.18 — “Ao ouvirem isso, pararam de levantar objeções e começaram a louvar a Deus, dizendo: “Vemos que Deus deu aos gentios o mesmo privilégio de se arrepender e receber a vida ­eterna!”.

ESSA QUESTÃO TODA FICOU POR ALGUM TEMPO ADORMECIDA, mas continuou fervendo em fogo baixo na panela de pressão. Até que, de repente, a tampa estourou por conta dos frutos colhidos por Paulo e Barnabé na primeira viagem missionária da igreja cristã. Recorde comigo:

Atos 14.26-28 26Por fim, voltaram de navio para Antioquia, onde sua viagem tinha começado e onde haviam sido entregues à graça de Deus para realizar o trabalho que agora completavam. 27Quando chegaram a Antioquia, reuniram a igreja e relataram tudo que Deus tinha feito por meio deles e como tinha aberto a porta da fé também para os gentios. 28E permaneceram ali com os discípulos por muito tempo.

Esse tempo de Paulo e Barnabé em Antioquia da Síria não foi pacífico!

Atos 15.1-2a 1Chegaram a Antioquia alguns homens da Judeia e começaram a ensinar aos irmãos: “A menos que sejam circuncidados, conforme exige a lei de Moisés, vocês não poderão ser salvos”. 2Paulo e Barnabé discordaram deles e discutiram energicamente [ARA: contenda e discussão que não foi pequena!]. […]

Sabemos, pela carta de Paulo aos gálatas, que essa visita da parte de “alguns dos irmãos que pertenciam à seita dos fariseus” (At 15.5) foi tão intimidadora que fez titubear até Pedro e Barnabé, a ponto de Paulo explodir com os dois:

Gálatas 2.11-13 11Mas, quando Pedro veio a Antioquia, tive de opor-me a ele abertamente, pois o que ele fez foi muito errado. 12No começo, quando chegou, ele comia com os gentios. Mais tarde, porém, quando vieram alguns amigos de Tiago, começou a se afastar, com medo daqueles que insistiam na necessidade de circuncisão. 13Como resultado, outros judeus imitaram a hipocrisia de Pedro, e até mesmo Barnabé se deixou levar por ela.

Paulo agiu assim porque sabia que a graça de Deus para a salvação estava no banco dos réus; e se algo não fosse feito, a salvação somente pela graça e somente pela fé em Cristo cairia no buraco da estrada. Ouça:

Gálatas 2.14-16 14Quando vi que não estavam seguindo a verdade das boas-novas, disse a Pedro diante de todos: “Se você, que é judeu de nascimento, vive como gentio, e não como judeu, por que agora obriga esses gentios a viverem como judeus? 15Você e eu somos judeus de nascimento, e não pecadores, como os judeus consideram os gentios. 16E, no entanto, sabemos que uma pessoa é declarada justa diante de Deus pela fé em ­Jesus Cristo, e não pela obediência à lei. E cremos em Cristo Jesus, para que fôssemos declarados justos pela fé em Cristo, e não porque obedecemos à lei. Pois ninguém é declarado justo diante de Deus pela obediência à lei”.

Este era o buraco que estava aberto bem à frente dos primeiros cristãos: abrir mão da pura e bela graça de Deus, somente a graça de Deus, na salvação somente pela fé.

Portanto, com o objetivo de garantir unidade na verdade (para manter a perseverança na doutrina dos apóstolos), Paulo se viu tendo que lutar. E o que Paulo, Barnabé e a igreja de Antioquia da Síria fizeram a seguir foi absolutamente crucial para a sobrevivência do cristianismo. Tivessem eles não tomado a decisão de agir, a história inteira do cristianismo (e do mundo ocidental) teria caído no buraco do legalismo farisaico.

ATENÇÃO! OBRAS ADIANTE.

A placa – CUIDADO! BURACO ABERTO. – foi trocada por ATENÇÃO! OBRAS ADIANTE. — Em vez de bater o pé como aquele que trabalhou “com mais dedicação que qualquer outro apóstolo” (1Co 15.10), Paulo, ombreado por Barnabé, não impôs opinião ou ignorou o problema. Antes, consultaram a igreja e juntos agiram para solucionar, puseram-se a tapar aquele buraco na pista adiante da igreja cristã:

Atos 15.2b-3 2bPor fim, a igreja decidiu enviar Paulo e Barnabé a Jerusalém, acompanhados de alguns irmãos de Antioquia, para tratar dessa questão com os apóstolos e presbíteros. 3A igreja, portanto, enviou seus representantes a Jerusalém. No caminho, eles pararam na Fenícia e em Samaria para visitar os irmãos e contaram que os gentios também estavam sendo convertidos, o que muito alegrou a todos.

Como os novos crentes dessas cidades receberam as notícias da salvação dos gentios? Com muita alegria! — Veja, no entanto, o contraste da resposta de alguns em Jerusalém, quando Paulo e Barnabé chegaram à sede dos crentes “puro-sangue judeu”.

Atos 15.4-5 4Quando chegaram a Jerusalém, foram bem recebidos pela igreja, pelos apóstolos e presbíteros, e relataram tudo que Deus havia feito por meio deles. 5Contudo, alguns dos irmãos que pertenciam à seita dos fariseus se levantaram e disseram: “É necessário que os convertidos gentios sejam circuncidados e guardem a lei de Moisés”.

Nenhuma recepção calorosa, à priori. Nenhuma alegria. Em vez disso, a rigidez da seita dos fariseus fechou o tempo e esfriou a acolhida com palavras devastadoras – não tanto para Paulo e Barnabé, quanto para o cristianismo, versículo 5: “É necessário que os convertidos gentios sejam circuncidados e guardem a lei de Moisés”.

Curiosamente, embora o tradicionalismo farisaico tenha forçado essa questão (sem ao menos ouvir o contraditório da parte de Paulo e Barnabé), a igreja primitiva como um todo demonstrou abertura notável, quando deu às pessoas a LIBERDADE PARA DISCORDAR (de um lado e do outro). Aqueles líderes cristãos não queriam polarizar a igreja de Cristo em questões que são sim secundárias, mas agiram para chegar a um acordo e ter unidade no que é essencial para o evangelho de Cristo. Foi assim que (leia!): Atos 15.6 — “Os apóstolos e presbíteros se reuniram para decidir a questão.”

Essa reunião ficou conhecida como O CONCÍLIO DE JERUSALÉM, e podemos delinear alguns passos positivos que os líderes deram para a resolução do conflito teológico e, assim, a unidade do corpo de Cristo.

CHAMA A MINHA ATENÇÃO O SEGUINTE: a primeira pessoa a falar não foi Paulo, mas Pedro – o mesmo Pedro que lá em Antioquia da Síria agiu com tanta hipocrisia, deixando de comer com os crentes gentios na presença de crentes judeus de Jerusalém (Gl 2.11-13). E ouça o que Pedro falou (soando idêntico a Paulo em Gálatas!):

Atos 15.7-11 7Depois de uma longa discussão, Pedro se levantou e se dirigiu a eles, dizendo: “Irmãos, vocês sabem que, há muito tempo, Deus me escolheu dentre vocês para falar aos gentios a fim de que eles pudessem ouvir as boas-novas e crer [i.e., Cornélio em Atos 10]. 8Deus conhece o coração humano e confirmou que aceita os gentios ao lhes dar o Espírito Santo, como o deu a nós. 9Não fez distinção alguma entre nós e eles, pois purificou o coração deles por meio da fé. 10Então por que agora vocês provocam a Deus, sobrecarregando os discípulos gentios com um jugo que nem nós nem nossos antepassados conseguimos suportar? 11Cremos que todos, nós e eles, somos salvos da mesma forma, pela graça do Senhor Jesus”.

Quanta diferença entre este Pedro e o Pedro lá de Antioquia! O confronto de Paulo, em amor e pela verdade, valeu muito a pena no final. Pedro recobrou sua postura e teve, na opinião de alguns interpretes da Bíblia, a atitude mais corajosa e decisiva de sua vida – e para a história do cristianismo. E deste ponto em diante de Atos dos Apóstolos,  Pedro desaparecerá de cena. Mas o evangelho prosseguirá. E a igreja permanecerá unida na doutrina dos apóstolos.

Que atitude nobre foi a de Pedro!

Pedro colocou a sua reputação entre os judeus em risco pela verdade que importa eternamente: a salvação é somente pela graça e pela fé somente em Cristo, independentemente da cor, cultura, posição social ou do sexo. Paulo confirmara isso na carta aos gálatas, ocasião em que disse ainda mais:

Gálatas 3.26-29 26Pois todos vocês são filhos de Deus por meio da fé em Cristo Jesus. 27Todos que foram unidos com Cristo no batismo se revestiram de Cristo. 28Não há mais judeu nem gentio, escravo nem livre, homem nem mulher, pois todos vocês são um em Cristo Jesus. 29E agora que pertencem a Cristo, são verdadeiros filhos de Abraão, herdeiros dele segundo a promessa de Deus.

DE VOLTA AO CONCÍLIO DE JERUSALÉM.

Quando Pedro terminou de apresentar sua defesa pelo evangelho da graça, PAULO E BARNABÉ SE PUSERAM A DISCURSAR. Paulo, entretanto, notem bem, [1.] não lavou roupa suja (falando da situação de Pedro em Antioquia), [2.] não apresentou pontos teológicos (posto que “sua” teologia estava no banco dos réus; o que o judeu Pedro dissera já bastava) e Paulo também [3.] não confrontou os fariseus. O que ele fez?

Atos 15.12 Todos ouviram em silêncio enquanto Barnabé e Paulo lhes relatavam os sinais e maravilhas que Deus havia realizado por meio deles entre os gentios.

Paulo e Barnabé se limitaram a dar testemunho de como Deus confirmara a ministração do evangelho aos gentios através deles por meio de sinais e maravilhas.

A palavra corajosa e bíblica de Pedro, somada aos testemunhos verdadeiros e humildes de Paulo e Barnabé foram seguidos da palavra de moderação de quem presidia AQUELA ASSEMBLEIA EM JERUSALÉM: NINGUÉM MENOS DO QUE TIAGO, meio-irmão de Jesus (Gl 1.19; 2.9). — Ora, parece que o próprio Tiago, apesar de ter reconhecido o ministério apostólico de Paulo (Gl 1.19; 29), pelo que se lê em Gálatas 2.12, enviou alguns de Jerusalém para ver o que estava se passando em Antioquia. Entretanto, mais tarde, após tudo o que acabara de ouvir e testemunhar, resolveu falar como o moderador para sacramentar a questão. E que palavra foi a dele em favor do evangelho da graça!

PRIMEIRO, Tiago reconheceu que Deus estava unindo um só povo na igreja:

Atos 15.13-14 13Quando terminaram de falar, Tiago se levantou e disse: “Irmãos, ouçam-me! 14Pedro [Simeão] lhes falou sobre como Deus visitou primeiramente os gentios para separar dentre eles um povo para si [a igreja, o Israel de Deus: Gl 6.15-16].

SEGUNDO, Tiago falou de Amós para afirmar que a profecia estava se cumprindo:

Atos 15.15-18 15E isso está em pleno acordo com o que disseram os profetas. Como está escrito [Amos 9.11-12]: 16‘Depois disso voltarei e restaurarei a tenda caída de Davi [o reino do descendente de Davi: Jesus Cristo, cf. At 2.29-36]. Reconstruirei suas ruínas e a restaurarei, 17para que o restante da humanidade busque o Senhor, incluindo os gentios, todos os que chamei para serem meus. O Senhor falou, 18aquele que tornou essas coisas conhecidas desde a eternidade’.

TERCEIRO, Tiago atestou que a base para a salvação é a graça, não a lei:

Atos 15.19 Portanto, considero que não devemos criar dificuldades [impor-lhes a circuncisão e a lei de Moisés] para os gentios que se convertem a Deus.

QUARTO, Tiago disse que a graça não é desculpa para pecar e falta de amor:

Atos 15.20-21 20Ao contrário, devemos escrever a eles dizendo-lhes que se abstenham de alimentos oferecidos a ídolos, da imoralidade sexual, da carne de animais estrangulados e do sangue. 21Pois essas leis de Moisés são pregadas todos os sábados nas sinagogas judaicas em todas as cidades há muitas gerações”.

Tiago não estava impondo a lei sobre os gentios (tampouco sobre os judeus). Tiago estava, de fato, AGINDO EM AMOR: os crentes gentios não poderiam usar a liberdade que tinham em Cristo para escandalizar os judeus que ainda eram muitos e que pregavam contra essas coisas nas sinagogas. Os gentios teriam sim liberdade para comer carne sacrificada a ídolos (carne é carne, afinal), carne de animais estrangulados (animais utilizados em cerimônias pagãs) e carne com sangue (cf. 1Co 8.1–11.1), mas eles não poderiam fazer isso de um modo que escandalizasse os judeus (cf. Rm 14.20-23).

Tiago também estava dizendo aos gentios crentes, tão acostumados com práticas pagãs, que eles não deveriam ter qualquer participação em ou semelhança com cultos pagão. E, obviamente, imoralidade sexual de qualquer natureza (inclusive a prática sexual em cultos pagãos) estava fora de cogitação para os cristãos.

RESUMINDO: Tiago estava dizendo que eles não poderiam usar a liberdade em Cristo para pecar contra Deus nem para escandalizar o próximo. Legalismo não! Libertinagem também não! Santidade e amor, sim!

Gálatas 5.13 Porque vocês, irmãos, foram chamados para viver em liberdade. Não a usem, porém, para satisfazer sua natureza humana. Ao contrário, usem-na para servir uns aos outros em amor.

A GRAÇA DE DEUS nos livrou sim do legalismo, mas ela não deu passe livre para fazer o que desejarmos. Antes, a graça nos liberta do pecado e nos capacita a amar o outro, mesmo que às vezes nossas liberdades sejam limitadas para o bem do próximo – isso é sinal de maturidade.

Não usamos a nossa liberdade para escandalizar.

Não nos apropriamos da graça para pecar.

Apegamo-nos à graça de Deus para a salvação e a santificação.

PASSAGEM LIVRE ADIANTE.

Buraco tampado. Obras terminadas. A igreja de Jesus segue adiante.

NOTE, em primeiro lugar, o seguinte: a decisão dos apóstolos e presbíteros foi correspondida ou homologada (votada) pela igreja toda. Em outras palavras: não se trata aqui de um modelo presbiteriano de governo. Veja:

Atos 15.22 Então os apóstolos e presbíteros E TODA A IGREJA em Jerusalém escolheram representantes e os enviaram a Antioquia da Síria, com Paulo e Barnabé, para informar sobre essa decisão. Os homens escolhidos eram dois líderes entre os irmãos: Judas, também chamado Barsabás, e ­Silas.

Não há modelo de presbiterianismo (governo de presbíteros sobre igreja e igrejas) nesta passagem aqui – pelos seguintes (pelo menos):

  • O que se buscava era uma direção apostólica, não de presbíteros como hoje se vê no presbiterianismo; foram a Jerusalém porque os apóstolos ainda estavam lá em Jerusalém (cf. Gl 1.17-19; 2.1-2);
  • Esse concílio nunca mais se repetiu;
  • A os princípios da decisão do Concílio valeu para todos os cristão em todo o mundo; hoje, o Supremo Concílio da Igreja Presbiteriana do Brasil, por exemplo, se resume às igreja presbiterianas do Brasil;
  • Houve participação da igreja na decisão (cf. At 15.22); Wayne Grudem: “Se esta narrativa dá suporte ao governo regional por presbíteros, portanto, também dá suporte ao governo regional por congregações!”
  • A decisão não foi enviada a todas as igrejas ou presbitérios regionais, mas à igreja de Antioquia da Síria somente (e os princípios são universais, posto que estão na palavra de Deus);
  • Wayne Grudem: “Embora os apóstolos em Jerusalém certamente tivessem autoridade sobre todas as igrejas, não há indicação de que presbíteros por si mesmos, mesmo os da igreja de Jerusalém, tivessem tal autoridade. E certamente não existe qualquer padrão no Novo Testamento para presbíteros que exerçam autoridade sobre qualquer outra que não suas próprias igrejas locais.” – e essa autoridade exercida pelos presbíteros na igreja local é apenas para liderar e pastorear, não para governar;
  • Cada igreja local é autônoma em seu governo congregacional (cf. Mt 16; 18 e 1Co 15, por exemplo).

Eis o que se decidiu em Jerusalém – A CARTA:

Atos 15.23-29 23Esta foi a carta que levaram: “Nós, os apóstolos e presbíteros, e seus irmãos em Jerusalém, escrevemos esta carta aos irmãos gentios em Antioquia, Síria e Cilícia. Saudações. 24“Soubemos que alguns homens, que daqui saíram sem nossa autorização, têm perturbado e inquietado vocês com seu ensino. 25Portanto, depois de chegarmos a um consenso, resolvemos enviar-lhes alguns representantes com nossos amados irmãos Barnabé e Paulo, 26que têm arriscado a vida pelo nome de nosso Senhor Jesus Cristo. 27Estamos enviando Judas e Silas para confirmarem pessoalmente o que aqui escrevemos. 28“Pois pareceu bem ao Espírito Santo e a nós não impor a vocês nenhum peso maior que estes poucos requisitos: 29abstenham-se de comer alimentos oferecidos a ídolos, de consumir o sangue ou a carne de animais estrangulados, e de praticar a imoralidade sexual. Farão muito bem se evitarem essas coisas. “Que tudo lhes vá bem”.

Paulo, Barnabé, Judas e Silas viajam para Antioquia da Síria, e entregam a carta:

Atos 15.30-35 30Os mensageiros partiram de imediato para Antioquia, onde reuniram os irmãos e entregaram a carta. 31Houve grande alegria em toda a igreja no dia em que leram essa mensagem animadora. 32Então Judas e Silas, ambos profetas, encorajaram e fortaleceram os irmãos com muitas palavras. 33Permaneceram ali algum tempo, e depois os irmãos os enviaram em paz de volta à igreja de Jerusalém. 34Silas, porém, resolveu permanecer ali. 35Paulo e Barnabé ficaram em Antioquia. Eles e muitos outros ensinavam e pregavam a palavra do Senhor naquela cidade.

A resposta da igreja à decisão do concílio foi tremenda! O povo se regozijou, foi encorajado e fortalecido; eles sentiram a paz e a harmonia reinar mais uma vez, talvez pela primeira vez; e continuaram pregando a palavra de Deus em coro com os apóstolos.

A GRAÇA NO BANCO DOS RÉUS

A graça, vira e mexe, é colocada no banco dos réus – ora se acrescenta condicionais à fé em Cristo somente, ora se acha que a graça e a fé em Cristo são desculpa para se viver pecando. De um jeito ou de outro a obra de Cristo é tratada de modo indigno – posto que ou se toma a obra de Cristo como insuficiente (no legalismo) ou se trata a obra de Cristo com indiferença (na libertinagem).

A decisão do Concílio de Jerusalém, por sua vez, resolveu de uma vez para sempre o significado da graça de Deus na prática: a graça nos liberta da lei e do pecado; somos livres pela graça, mas não livres para pecar e fazer o que quisermos; somos livres para amar e nos importar com o próximo; somos livres para viver em santidade, em novidade de vida. Paulo colocou muito bem o que isto significa na prática:

Gálatas 5.13 Porque vocês, irmãos, foram chamados para viver em liberdade. Não a usem, porém, para satisfazer sua natureza humana. Ao contrário, usem-na para servir uns aos outros em amor.

Na prática,

[1.] algumas restrições serão sim necessárias e não anularão a graça, pelo contrário: exaltarão a graça ao revelar o amor;

[2.] somente a Bíbliasomente Cristosomente a fé e somente a Deus glória: foi assim que os apóstolos salvaram o somente a graça; foi assim que os apóstolos tiraram a graça do banco dos réus e nortearam suas decisões para sanar o conflito teológico: a Bíblia somente, Cristo somente, a fé somente e somente a glória de Deus.

Autor: Pr. Leandro B. Peixoto

Estude teologia na FTSA

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