A verdadeira espiritualidade

Ler ainda João 4.21-24

INTRODUÇÃO

Existe, atualmente, uma grande confusão sobre vida espiritual. Igrejas com estilo de culto solene e tradicional, são vistas como Igrejas frias; Igrejas com estilo de culto mais liberal e barulhento, são chamadas igrejas quentes e espirituais. Cultos recheados de gritos de “aleluias”, são Igrejas espirituais; Igrejas sem “aleluias”, são igrejas frias e carnais. Crente que chora fácil, é crente espiritual; crente que não chora, é crente frio e carnal. Parece que o nosso povo está confundindo “espiritualidade” com “emocionalidade” (palavra que não está nos dicionários, mas que usamos aqui para fins de mera comparação).

Dentro deste equívoco, muitos crentes estão vagando de igreja para igreja, buscando experiências novas e vão entrando, inconscientemente, por caminhos perigosos na vida cristã.

Creio que é tempo de pararmos para estudar o assunto de maneira mais acurada e com mais dependência da Palavra de Deus. Na verdade, pouco se tem falado entre nós sobre espírito. O que é o espírito do homem? Qual a sua natureza? Como funciona sua atividade? Que tem ele a ver com o processo da salvação cristã? Por outro lado, qual a relação entre o nosso espírito e a espiritualidade. Afinal, o que é a verdadeira espiritualidade? De onde vem a nossa espiritualidade? Qual a sua origem? Como se desenvolve? Como se manifesta? Como podemos exercer a nossa espiritualidade?

É o que vamos tentar fundamentar.

A ESTRUTURA DO SER HUMANO

Para entrarmos no assunto, precisamos entender um pouco mais da nossa estrutura humana do ponto de vista da Bíblia. E vamos começar pelo Velho Testamento.
No Velho Testamento

Segundo o Velho Testamento, o ser humano é formado de “bassar” (carne), animado pelo “ruah” (espírito), que se torna “Nephesh” (alma vivente). Deus forma o ruah dentro do homem – Zac. 12.1, e o preserva Jó 10.12 ( A. R. Crabtree, Teología Bíblica do Velho Testamento, Casa Publicadora Batista, p. 127). Quando o homem morre, o “ruah” volta a Deus e o “Bassar” volta ao pó – Ec. 12.7. O “ruah” do ser humano é sua parte imortal e que tem afinidade com o “ruah” de Deus.

Crabtree complementa: “O ruah (espírito) é geralmente considerado o elemento mais importante do homem. É de Deus que o homem recebe o espírito. A mesma palavra refere-se ao Espírito de Deus e ao espírito do homem. É o Espírito do Senhor que inspira e controla os profetas. É o Espírito do Senhor que habilitou o profeta pa falar ao povo de Israel no cativeiro” (Is. 61.1) (Ob. Cit., p. 128).

No Novo Testamento

No Novo Testamento, temos três palavras que se relacionam: “psiquê”, alma (Atos 20.10), “nous”, mente, intelecto, e “pneuma”, espírito, tanto do homem como de Deus.

Resumindo, podemos dizer que o espírito do homem provém do “sopro divino” (Gen. 2.7; Jó 32.8; 34.14. Esse espírito, pelo processo normal da geração e da reprodução da espécie humana, é criado por Deus dentro do homem (Zac. 12.1). O espírito do homem, uma vez criado por Deus, não se extingue com a morte e não morre nunca mais (Ec. 12.7; 1 Reis 17.22; Atos 20.9-10).

Falando do relacionamento do Espírito Santo com o nosso espírito, Paulo emprega a expressão: “tò pneûma”, referindo-se ao nosso espírito (Rom. 8.16). Portanto, o que nos interessa aqui, sem considerar o problema da “dicotomia” (espírito e corpo) ou da “tricotomia” (espírito, alma e corpo), fica claro que o relacionamento fundamental do ser humano com Deus dá-se entre o Espírito Santo e o nosso espírito (o ruah).

FUNDAMENTO DA ESPIRITUALIDADE

Assim sendo, onde começa a nossa espiritualidade?

Como está fundamentado este processo?
Ora, sabemos, pela Palavra de Deus que, com o pecado, a vida espiritual do ser humano morreu. Não que o espírito do homem tenha morrido ou se extinguido, pois ele faz parte da vida. É por ele que o homem foi feito “alma vivente”. Mas tendo sido cortado o seu relacionamento com Deus, o homem perdeu a sua vida espiritual ou a sua espiritualidade, pois ficou separado de Deus. Esta é a morte espiritual.

Daí, o ser humano perdeu o contato com Deus, pois o seu “canal” de comunicação foi cortado com o pecado. Deus, no entanto, preparou um plano para recuperar essa espiritualidade. O recurso de Deus foi o envio de Seu Filho, que se encarnou e tornou-se Jesus, o Cristo.

O apóstolo Paulo fala muito de reconciliação referindo-se ao trabalho salvador de Cristo. Mas essa reconciliação não foi um mero ato formal ou externo, mas ela é o resultado de uma elaboração interior no ser humano.

O primeiro passo dessa elaboração é o arrependimento. Arrependimento quer dizer: “mudança de mente”. Isto quer dizer que nós não nascemos com a nossa mente, mas com faculdades mentais. Nesse espaço vai sendo formada a nossa mente no nosso meio cultural à proporção que vamos crescendo fisicamente. Essa mente é formada de acordo com o mundo que está sujeito às leis do pecado. É como um edifício que vai sendo construído com diversos materiais, uns bons, outros ruins. Essa mente é a central de comando de nossa vida e é por isso que somos infelizes e desajustados, porque estamos sempre errando o alvo da verdadeira vida por causa do pecado que habita em nós.

Este arrependimento começa com o trabalho do Espírito Santo na nossa mente. Ele nos convence do pecado, da justiça e do juízo. Isto quer dizer que ele nos faz tomar consciência de que somos pecadores e como tais temos uma dívida a pagar, pois assim exige a justiça de Deus, e se não pagarmos, haverá um juízo. Mas ao mesmo tempo, Ele nos mostra que o próprio Deus se ofereceu para “pagar o preço”, dando Seu filho Jesus Cristo para morrer por nós, para que fiquemos livres do juízo de Deus.

Quando assumimos que somos pecadores e aceitamos a oferta de Deus em Cristo, nós aceitamos passar pelo arrependimento. Mas ao mesmo tempo, nós cremos nesse plano de Deus em Cristo. Nós cremos que Ele é o único que nos pode livrar da condenação, perdoando os nossos pecados, pois Ele já morreu por nós. Neste ato, nós assumimos que Cristo morreu por nós. Nós individualizamos o amor de Deus por nós. Quando nós tomamos conscientemente esta decisão, nós nascemos de novo, como ensinou o Senhor Jesus.

Neste ato, segundo Pedro (1 Ped. 1.23), nós somos gerados de novo. Segundo Paulo, nós nos tornamos nova criatura (2 Cor. 5.17), e passamos a desenvolver dentro de nós uma nova mente – a mente de Cristo (1 Cor. 2.16). É isto que o Evangelho de João chama de “nascer da água e do Espírito”. Este é o ato da reconciliação tão enfatizado pelo apóstolo Paulo.

O ato de nascer de novo vai mais longe. Segundo o que ensinou Pedro no dia de Pentecostes, nós recebemos, no ato de arrepender, o Dom do Espírito Santo, que é o próprio Espírito Santo (Atos 2.37,38). O apóstolo Paulo explica melhor isto em Ef. 1.13,14, dizendo que somos selados no Espírito Santo, que nos é dado como penhor, como garantia da nossa salvação. E mais: Paulo complementa que passamos a ser habitação do Espírito Santo (1 Cor. 6.19,20). Assim, fica restabelecida a nossa comunicação e comunhão com Deus. Agora o canal está aberto novamente para Deus.

Em Romanos 8.16, o apóstolo Paulo nos dá a chave para o entendimento do assunto, quando diz que o Espírito de Deus testifica com o nosso espírito que somos de Deus. Isto quer dizer que há um estreito relacionamento entre o Espírito de Deus com o nosso espírito dentro de nós. E é desse relacionamento que nasce a nossa verdadeira vida espiritual.

Deste entendimento, concluímos que o nosso relacionamento com Deus não é provocado por atos formais de nossa parte para que nos comuniquemos com Deus, mas que esse relacionamento começa dentro de nós, o que provoca atos e atitudes de acordo com a verdadeira espiritualidade.

É aqui e assim que nasce a verdadeira espiritualidade. Foi por isso que o Senhor Jesus Cristo disse à mulher samaritana que os verdadeiros adoradores adorarão ao Pai em espírito e em verdade. Daqui para a frente não necessitamos mais de altar, de intermediários, de sacerdotes, de movimentos litúrgicos. Tudo provém do interior, onde há o constante encontro do Espírito de Deus com o nosso espírito. É desse encontro que vem o verdadeiro louvor, a verdadeira adoração. É esse estado interior que geral nossa expressão corporal diante de Deus.

PROBLEMA DA FALSA ESPIRITUALIDADE

Mas nem sempre é esta a espiritualidade que vemos em nossos dias. Nestas duas últimas décadas, temos presenciado um crescimento bastante acentuado do povo evangélico e, ao mesmo tempo, uma diversificação muito grande de grupos, seitas, estilos de culto. O estudo sério das Escrituras Sagradas tem sido deixado de lado e tudo é feito na base da experiência humana. As pessoas começam a fazer o que outras estão fazendo sem questionar ou sem avaliar.
A base para todas essas práticas tem sido a emoção. Parece que temos voltado aos dias dos filósofos gregos que viviam pelo prazer sentimental e aos templos pagãos que adoravam os seus deuses agitados pelo prazer sexual. Tudo era emoção.

O que ocorre hoje, numa grande parte das igrejas evangélicas, é um culto que apela para a emoção. Os cânticos, os movimentos, os instrumentos fortemente retinentes, as palmas ritmadas no louvor cantado, tudo apela ao sentimentalismo. E isso geral os mais variados resultados e provoca vários tipos de experiências. Por ser motivações sensoriais, muitos problemas neurológicos, psiquiátricos e psicológicos afloram e simulam certas reações e experiências momentaneamente agradáveis, que muitos interpretam como “experiências espirituais”, mas que vemos que são “pseudo experiências espirituais”, não são autênticas. Em muitos casos – na sua maioria talvez – os que assim fazem desconhecem esta realidade.

A chamada igreja do riso, que surgiu há alguns anos no Canadá e está se espalhando pelo mundo, é um exemplo. Reunida a multidão, os trabalhos são feitos a base de muita música. Música bem selecionada para causar o efeito desejado pelo dirigente. Um lado do auditório tem cadeiras ou poltronas, o outro lado está livre, sem poltronas, com um lindo carpete bem limpo. O povo vai cantando, cantando, cantando. O dirigente, como verdadeiro animador de um show, vai conduzindo as emoções do auditório. Até que alguns começam a rir. De repente, o riso contamina o grupo todo. E isso vai se alastrando. No auge da experiência, as pessoas caem num transe de histeria coletiva, saem de seus lugares e vão deitar e rolar naquele carpete. É como se as músicas e o ambiente tivessem um poder hipinótico. E chamam a isso espiritualidade!

Na verdade, esta é mais uma das armadilhas do Diabo. Ele é especialista em semear joio no meio do trigo, o erro nomeio da verdade. Parece, mas não é espiritualidade. Traz emoção, prazer, mas é prazer apenas carnal e não espiritual.

Faz-me lembrar uma história curiosa de um chefe de uma remota tribo africana que um dia teve oportunidade de visitar a grande cidade de Nova York. Um amigo americano que trabalhou naquela região da África levou o chefe para Ter aquela experiência de cidade grande. Dentre tantas coisas do progresso que encantou aquele chefe tribal, a torneira do hotel, de onde saia água limpa e com força, foi a mais fascinante. E ele falou com seu amigo que queria levar uma torneira quando voltasse. Seu amigo, sem indagar mais sobre seu desejo, comprou-lhe uma linda torneira de metal dourado. Aquele chefe voltou para sua terra e lá, numa humilde parede da sua casa procurou instalar a torneira da melhor maneira que pôde. Mas ficou decepcionado. Ele abria a torneira e não saía água. Foi então chamar seu amigo para reclamar que a torneira não lhe dava água. Foi aí que o amigo entendeu a história e lhe explicou que a torneira deveria estar ligada por um cano a uma fonte de água para que pudesse lhe dar água.

O que muitos estão fazendo hoje é exatamente isto. Estão vivendo uma experiência que não está ligada à fonte da espiritualidade. Assim, toda a movimentação está seca e é enganosa. Nos tempos do profeta Jeremias isto se chamava: “cisterna seca”, que não retém as águas (Jer. 2.13).

E aqui podem existir duas situações. A primeira, marcada por pessoas que realmente não se converteram. A maneira como o Evangelho está sendo pregado e vivido hoje dá margem a isto. Há muitas igrejas trabalhando na base de milagres e milagres somente. Fazem reuniões de curas e expulsão de demônios, mas não evidenciam a pregação do Evangelho, poder de Deus para a salvação. Assim, as pessoas ligam-se às igrejas ou simplesmente juntam-se às multidões e entram nos cultos, mas nunca tiveram uma experiência real de conversão. São pessoas que aprendem a fazer tudo conforme o modelo, mas não são uma nova criatura. Paulo apóstolo dizia: “Porque em Cristo Jesus nem a circuncisão nem a incircuncisão tem virtude alguma, mas sim o ser uma nova criatura”
(Gal. 6.15).

Certo missionário Inglês preparou-se a vida toda para ser missionário entre os Chineses. Ao longo do seu preparo, aprendeu a falar bem o chinês, a vestir-se como chinês, a comer a comida chinesa com os pausinhos e estudou muito da cultura chinesa. Quando ele chegou à China, ele vestia-se como chinês, andava como chinês, comia como chinês e falava como chinês. Ele parecia um autêntico chinês. Mas eu pergunto: Era ele um chinês? Não! Ele era Inglês, pois havia nascido Inglês. Assim é a questão da espiritualidade. Se alguém não é nascido espiritual, não nasceu de novo, não pode desenvolver uma verdadeira espiritualidade. Tudo será postiço, falso, enganoso.

Uma Segunda situação nesta área da espiritualidade é explicada por Paulo em sua epístola aos Gálatas. Ele fala das duas naturezas. O entendimento é o seguinte: antes de converter-se, o ser humano é dominado por sua natureza pecaminosa, e sua natureza espiritual está amortecida – ele está desligado da fonte, que é Deus. Convertido o ser humano, sua natureza espiritual ressurge. Ele agora tem vida espiritual, pois é uma nova criatura. Só que a naatureza carnal não é eliminada. Assim é que Paulo conclama aos crentes a viverem alimentando a vida espiritual para que esta os domine e não a natureza carnal. Eis porque Paulo fala do homem natural – o homem não convertido; do homem espiritual – o homem convertido, e do homem carnal – o convertido, mas que está se deixando dominar pela velha natureza pecaminosa, apesar de possuir a natureza espiritual.

O que ocorre é que o Diabo, sabedor destas coisas, incentiva o crente a viver uma vida espiritual de derrotas, dando mais força para a natureza carnal. E isto se manifesta até mesmo em atividades chamadas “espirituais”, mas que na verdade não levam a nada. São como remédios que não são remédios, são meros paleativos.

A natureza espiritual está no verdadeiro crente. Ele se converteu e é nova criatura. Mas ele precisa exercitar esta natureza e fazê-la crescer para que sua espiritualidade se manifeste em sua vida toda.

CONCLUSÃO

Até mesmo no Velho Testamento vamos encontrar modelo do que estamos defendendo. O exemplo é o de Elias e os profetas de Baal (1 Reis 18.22-46). Os profetas de Baal tinham uma liturgia, uma prática de culto baseada na emoção. Pulavam, gritavam, feriam-se com facas (1 Reis 18.27,28), mas nada acontecia. Quando chegou a vez de Elias, ele “reparou o altar do Senhor que estava quebrado” (18.30). E falou com Deus, e Deus o ouviu. Não precisou liturgia, nem gritos, nem emocionalismos. Deus o atendeu poderosamente. A verdadeira espiritualidade não precisa ser forçada. Ela existirá dentro de cada crente.

Fonte do sermão: http://memorial.locaweb.com.br/home.htm

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