Aprendendo a orar

“E aconteceu que, estando ele a orar num certo lugar, quando acabou lhe disse um dos seus discípulos: Senhor, ensina-nos a orar, como também João ensinou aos seus discípulos”, Lucas 11:1.

Depois de ouvir seu Senhor e Mestre orar em certa ocasião, um dos discípulos Lhe disse: “Senhor, ensina-nos a orar”. Este pedido sugere várias coisas. Devia haver uma diferença óbvia entre a oração dos discípulos e a de Jesus. A oração dos discípulos, como a maioria das que ouvimos hoje, deve ter sido superficial, estereotipada, indiferente e fria. Os discípulos viram a diferença e ficaram impressionados. Eles queriam melhorar sua vida de oração. E quem não quer?

Há ainda outra coisa: é preciso aprender a orar. Orar é uma arte. Alguém já disse que pela própria constituição de nosso ser, somos criaturas que oram, e fazemos isto por instinto. Onde quer que encontremos pessoas, vamos encontrar um tipo de religião qualquer, e onde quer que haja religião, haverá homens orando – procurando contato com o deus que adoram e temem. Este instinto de orar está implantado na alma humana. As tão chamadas pessoas religiosas clamarão por qualquer deus numa crise.

O instinto de orar é a própria norma da vida cristã. Cada crente ora ao Deus verdadeiro como seu Pai. Ele ora por instinto, pois a oração faz parte das dores de parto do recém nascido.

Porém este instinto de orar é imaturo, inexperiente e indisciplinado. A oração é a mais rudimentar das graças cristãs e necessita ser melhorada. A menos que aprendamos a orar vamos continuar orando só por instinto, como filhos de Deus. Vamos buscar nosso Pai Celestial instintivamente quando numa necessidade, ou em periga, ou numa crise. Quando aparecer um problema, vamos correr para Deus como uma criança ferida ou amedrontada que procura refúgio, por instinto, nos braços da mãe.

Quando oramos por instinto e não por hábito, nossas orações tendem a ser auto-centralizado se nos esquecemos dos outros. E talvez nunca passemos da estágio inicial. Jules Romains, poeta e novelista francês, observou as pessoas na igreja quando baixavam a cabeça em oração silenciosa e deduziu que estavam pedindo coisas assim: “Ó Deus do céu, por favor, cura minha perna machucada; enche minha loja de fregueses. Ó Senhor, ajuda-me a descobrir se meu empregado está me roubando ou não. Ó Deus, cura meus olhos. Ó Deus , livra-me de ficar bêbado tantas vezes. Ó Senhor, faz com que meu filho passe na prova. Ó Senhor, ajuda-me a fazer com que ela se apaixone por mim. Ó Deus, se pelo menos pudesse conseguir um emprego. Ó Senhor, meu marido me maltrata tanto! Deixa-me morrer!” Não estou dizendo que orações deste tipo são erradas; elas expressam vários desejos do coração humano e reconhecem a necessidade da ajuda divina. É certo orar pedindo ajuda quando alguma coisa nos preocupa ou atormenta.

Outro perigo, quando oramos por mero instinto, é que se torna fácil orar irregular e esporadicamente. Este tipo de oração é feita durante a tempestade; quando ela passa e o sol brilha, a oração também para. Assim que o perigo passa, a pressão alivia ou a doença acaba, cessamos também de orar. Quando oramos por mero instinto, sempre somos levados a nos ajoelhar por uma situação que nos vence. Mas nunca pode haver alegria em tal oração. É sempre e unicamente um tempo de agonia. Não estou dizendo que nunca devemos orar em tempo de crise, mas não é só nesta hora que devemos orar. É nosso dever orar tanto na alegria quanto na necessidade. Quando aprendemos a orar, vamos fazê-lo todo o tempo e haverá alegria na oração.

Isto nos leva a dizer que há outros tipos de oração além de só pedir. Somos pedintes e nosso Pai Celestial quer que Lhe peçamos bênçãos. Mas pedir não é tudo. As outras formas de oração são: adoração, agradecimento, intercessão e confissão.

Uma definição geral de oração é ter um relacionamento ou comunhão com Deus. Na oração conversamos com um Deus que não podemos ver, mas que é real. Às vezes, precisamos chegar diante dEIe confessando nossos pecados. Isto é necessário para uma comunhão contínua com Deus e para uma vida cristã feliz. Deus nos promete em Sua Palavra: “Se confessarmos os nossos pecados, ele é fiel e justo, para nos perdoar os pecados e nos purificar de toda a injustiça”, 1 João 1:9. A oração sempre deve ter a forma de adoração. Na oração modelo Cristo ensinou a Seus discípulos a santificar Seu nome em primeiro lugar; isto é, a separar Seu nome de todos os outros. E já que o nome de Deus representa o que Ele é, devemos pensar e falar nEle como separado, à parte, acima e a1ém de todos os outros. Devemos pensar em Deus como um Ser único, o único Deus vivo e verdadeiro, o Incomparável. Isto nos afastará da idolatria, de tentar fazer algo semelhante a Ele. Também deve haver gratidão em nossos orações. “Em tudo dai graças; porque esta é a vontade de Deus em Cristo Jesus para convosco”, 1 Tess. 5:18.

Por último devemos fazer orações de intercessão. É preciso que oremos pelas outras pessoas, devemos querer que as bênçãos de nosso Pai sejam derramadas sobre os outros, até mesmo sobre nossos inimigos.

Por que oramos tão pouco? É porque ainda não aprendemos a arte de orar. O instinto de orar ainda não foi desenvolvido nem disciplinado.

Para aprender a orar, é necessário que estejamos cônscios da presença de Deus. Não podemos adorá-Lo, a menos que O conheçamos, e não podemos conhecê-Lo, a não ser pela revelação na Bíblia que Ele deu de Si mesmo. As Escrituras revelam a Deus em Seus atributos pessoais e obras maravilhosas. Ver Quem Deus é e o que tem feito e pode fazer, é extravasar o coração em louvor e adoração. Thomas Goodwin, um dos puritanos, disse conhecer homens que vinham a Deus só para estar com Ele, para estar em Sua presença. Quem gosta de boa companhia deve e vai gostar de estar na presença de Deus; isto é, conscientemente em Sua presença. Oh! quanto precisamos praticar a ficar na presença de Deus!

A oração é comunhão com Deus. Na oração estamos de acordo com Ele. Pensamos o mesmo que Ele. Nessa opinião sobre o pecado é igual a dEle. Ninguém pode orar e estar apaixonado pelo pecado ao mesmo tempo. “Se eu atender à iniquidade no meu coração, o Senhor não me ouvirá”, Salmo 66:18. É completamente impossível para o homem egoísta, superficial e apaixonado pelo pecado em pé, ser um santo, de joelhos.

É preciso tempo e prática para aprender a orar. O hábito vem somente com a prática longa e paciente. Ela exige tanta paciência, diligência e devoção quanto a que os homens dão a qualquer outro trabalho, tal como pintar, esculpir ou compor. O irmão Lawrence, o homem que se tornou conhecido por praticar a presença de Deus, passou dez anos ensinando a si mesmo a orar, dez anos de esforço quieto, resoluto e incessante.

O único modo de ir além da oração impulsiva, fervorosa e irregular, causada por qualquer tipo de crise, é cultivar deliberadamente a prática da oração diária. Quando estivermos orando devemos imitar o músico, e não permitir que nada interfira com a prática da oração.

A ciência médica nos diz que o corpo cria uma imunidade natural a certas doenças, depois que se tem a doença. Quando se tem catapora, sarampo ou outra doença qualquer, há a tendência de não pegá-la de novo. Por isso a ciência descobriu um modo de tornar as pessoas imunes artificialmente através de injeções de antitoxinas ou antibióticos. Simplificando: dê a alguém pequena dose da doença e ela vai desenvolver uma imunidade à doença real. Isto nos leva à terrível sugestão de que a mesma coisa pode acontecer espiritualmente.

Uma pessoa pode ficar imune à coisa real se for parcialmente infectada com uma quantidade menor. Alguém vacinado com uma dose pequena de religião pode se tornar imune à religião real. Ou se pode ser inoculado com falsa religião com a mesma efeito. É por isso que, do nosso ponto de vista, um membro da igreja, que é perdido, é mais difícil se alcançar do que alguém fora da igreja. Troveje-lhe aos ouvidos os avisos de Deus, e não dará mínima atenção, porque já tem “religião” e “é membro de igreja”. Peça-lhe para sustentar financeiramente o trabalho da igreja e não levará o apelo a sério, pois já foi vacinado contra isto. Ele torce o sentido dizendo que a salvação é de graça, sem dinheiro e sem preço.

Talvez uma pessoa saiba uma parte das Escrituras e isto a torna imune ao resto da Bíblia. A pessoa pode se agarrar à doutrina da justificação pela fé, sem as obras da lei de tal maneira, que fica imune às Escrituras que dizem que a fé salvadora é aquela que faz as obras por amor.

Desafio a todos nós com as palavras de Pedro a fazer cada vez mais firme a nossa vocação e eleição, isto é: não vamos assumir que estamos salvos, sem antes termos as evidências de nossa salvação. Usarei as palavras de Paulo aos Coríntios: “Examinai-vos a vós mesmos, se permaneceis na fé; provai-vos a vós mesmos. Ou não sabeis quanto a vós mesmos, que Jesus Cristo está em vós? Se não é que já estais reprovados”. 2 Coríntios 13:5.

Vamos nos lembrar que, como crentes nascidos de novo, fomos criados em Cristo Jesus, a fim de fazermos boas obras. Que Deus nos ajude a ter alegria na oração e a poder dizer como o poeta:

1. “Bendita a hora de oração, 2.”Bendita a hora de oração 3. “Bendita a hora de oração,

Pois traz-nos paz ao coração, Produto só da devoção, Pois liga-nos em comunhão,

E sobrepuja toda a dor, que eleva ao céu o seu odor E traz-nos fé e mais amor,

Trazendo auxílio do Senhor. Em doce cheiro a meu Senhor. Enchendo mundo de dulçor.

Em tempos de perturbação, E finda a hora da aflição, Deseja a vida aqui findar

Na dor maior, na tentação, Os dias maus, a tentação, Com fé, amor, sim, do pavor,

Procurarei com mais fervor Então darei melhor louvor depois da morte, do pavor,

A comunhão com o Senhor”. A meu Jesus, a meu Senhor”. Então será, sim, só louvor”.

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