Diferentes Tipos de Gente

Lucas 15: 8, 4 e 11 (nesta ordem) – Edição Contemporânea

8. Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a busca com diligência até achá-la?

4. Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até achá-la?

11. Jesus continuou: Certo homem tinha dois filhos.

Aparentemente três textos que só guardam conexão entre si por fazerem parte do capítulo e por ensinarem a atitude de Deus para com o perdido. Eu gostaria de ligar estes três textos para comentar com os irmãos e amigos nesta noite os diferentes tipos de gente. Diferentes tipos de gente que encontramos no relacionamento com Deus.

Na ordem que eu li temos uma moeda perdida, uma ovelha perdida e um filho perdido. São três tipos de pessoas perdidas. O termo perdidas aqui não é usada no sentido de depravadas, de devassas, de uma conduta moral absolutamente questionável e que ninguém em sã consciência tomaria como uma conduta para si. Mas são pessoas perdidas, vamos usar esta nomenclatura, no seu relacionamento com Deus. Uma moeda, uma ovelha e um filho que nos mostram três tipos de relacionamento de pessoas com Deus. Cada uma se perdeu de uma maneira diferente, cada uma teve a vida mudada por esta sua perdição, cada uma teve a vida tratada de uma maneira, e no fim, as três, recuperadas, tem um final comum.

Gostaria de chamar a sua atenção porque pode ser que o seu caso seja encaixado em um desses três. Que o seu caso seja o da moeda, ou o da ovelha ou do filho. É bem provável que no nosso auditório haja gente assim, como estes diferentes tipos de gente. Que tipos de gente são esses? Olhemos o versículo 8. Ou qual a mulher que, tendo dez dracmas, se perder uma, não acende a candeia, varre a casa e a busca com diligência até achá-la? Aqui está o primeiro tipo: o perdido que não sabe que está perdido e não sabe como voltar. É a moeda, um objeto, que como tal é inconsciente. Eu tenho uma moeda no bolso (aliás, quase só tenho moedas). Esperar consciência por parte deste objeto é inútil. Tê-lo aqui, tê-lo no bolso, jogá-lo lá fora, não vai gritar, não vai gemer, não sente frio, não sente calor, não sente fome.

Na realidade, este tipo de pessoa mostrada pela moeda não se perde, é perdida. Uma moeda, esta que está no meu bolso, não diz assim: vou pular do bolso dele e cair na grama, vou pular da bolsa da senhora onde estou e vou cair no bueiro. A moeda é perdida. Há pessoas assim no seu relacionamento com Deus, elas não se afastaram conscientemente de Deus, elas não acordaram um dia e disseram: eu não quero mais saber do evangelho, eu não quero mais saber de Deus. não houve também um momento em sua vida em que estas pessoas começaram a se afastar gradativamente de Deus. Na realidade, este tipo de pessoa inspira uma compaixão muito grande. não é gente que se desviou mas na realidade muitas vezes não foi criada junto de Deus, nuca ouviu falar do evangelho.

Me lembro quando eu era adolescente no Rio de Janeiro e conversando com um jornalista, perguntei se ele conhecia a Bíblia e fiquei surpreso, este homem, morando em Copacabana nunca tinha visto uma Bíblia em sua vida. Algumas destas pessoas nunca tiveram a oportunidade de ouvir o evangelho. Não tiveram nenhuma formação religiosa. Então não se pode dizer que estas pessoas um dia se perderam, que se desviaram do caminho como a ovelha ou como o filho, estas pessoas como a moeda não se perdem, são perdidas. Pode até ter sido criada no evangelho mas viu mau testemunho na igreja desde cedo, então ficou muito chocada com a conduta de alguém e se desinteressou do evangelho. Por vezes não viu o evangelho na vida dos próprios pais e, não vendo, achou que havia uma distância entre aquilo que ouvia, aquilo que via e não levou nada a sério. Então essa pessoa, não porque quis, não porque decidiu, está perdida.

Algumas destas pessoas não tem nenhuma preocupação espiritual, não houve uma sensibilidade despertada no seu coração para aproximá-las de Deus ou para criar nelas um anseio para buscarem a Deus e muitas vezes essas pessoas, e pode até ser o caso de alguém aqui, dizem assim: eu não acho que eu estou pedido, não me sinto perdido, não tenho nenhuma destas preocupações espirituais, até me sinto bem, a minha vida vai bem. Mas não é o fato de a pessoa encontrar-se perdida ou não, não é o que a pessoa acha. A moeda não se sente perdida, ela não diz: estou perdida, como o filho disse, nem fica balindo como a ovelha porque está perdida. Ela está perdida e não tem consciência disso. Não é o que a moeda pensa, é o que o dono pensa, não é o que a moeda sente, é o que o dono sente.

Consideremos um pouco mais a questão da moeda. Uma vez, isso sem pedantismo, eu passei trinta dias no exterior, fui ao Canadá, estudei, participei de um congresso e de lá fui a Portugal. Na ocasião, levando dólares e escudos, eu levei 300 mil cruzados, não é muito dinheiro não. Hoje a gente fica assustado com 300 mil mas era para eu passar uns dois dias no Rio, mas era a época da inflação “sarneyziana” de 1% ao dia, fui com 300 mil cruzados e 30 dias depois eu cheguei no Galeão e tinha 300 mil cruzados. Só que eles já não tinham o mesmo poder de compra, eles compravam 240 mil cruzados. O valor da moeda não é o seu valor de estampa, o valor da moeda está no seu poder de compra. O indivíduo pode ter uma nota de um milhão de liras ou essas moedas esquisitas lá da Europa oriental e depois descobre que aquilo não vale R$ 10,00. Me desculpem os italianos, então vamos ficar só com a Europa oriental, espero que nenhum russo depois venha reclamar de mim. A questão não é a moeda em si mas é a utilidade da moeda. Qual é a utilidade de uma moeda perdida? O que ela compra? A fome de quem ela vai saciar? A nudez de quem ela vai vestir? As necessidades de quem ela vai atender? Uma moeda perdida não tem nenhum valor, ela não se sente perdida, ela não grita, não geme, não se sente perdida, mas perdeu por completo a utilidade.

A tristeza do perdido que não sabe que está perdido, que não invalida que está perdido, e nem sabe como voltar, é que ele está perdendo a sua vida. Ele pode até sentir-se tranqüilo ou estar absolutamente indiferente a realidades espirituais mas ele está perdendo a oportunidade de marcar a vida de alguém, de ser útil a alguém. Você encontra sentido na sua vida? Você sente realização na sua vida? Quando termina o dia, não pelo dinheiro, não pela roupa, não pelo espaço em que mora, mas ao olhar para dentro de si, para o estilo de vida que vive, ao olhar para as suas perspectivas, como é que você se sente? Alguém realizado? Alguém que sente que não está vivendo em vão? Alguém disse que há duas tragédias na vida: uma não conseguir aquilo que se deseja e a outra conseguir o que se deseja. É aquela pessoa que luta muito para chegar a um lugar e depois que chega diz, mas era isto, era isto que eu queria? Era isto que eu procurava? Foi em função disto que eu pus toda a minha vida? O perdido que não sabe que está perdido nem sabe voltar está gastando seu valor deixando de ser útil nas mãos de Deus, não está marcando vidas de ninguém e vai se destruindo pouco a pouco. Uma nota perdida, porque o papel se desgasta mais do que o alumínio, vai pouco a pouco se corroendo e deixando de ter valor.

O que faz o perdido que não sabe que está perdido e que não sabe voltar? Nada. O que a moeda pode fazer? Ela não pode gritar: hei, meu dono! Estou embaixo da cama. Aliás não sei porque razão tudo que cai mede o meio da cama e fica bem lá no meio. Não pode gritar, estou num bueiro. Mas, colocando isto em termos humanos, se você não tem essa consciência diante de Deus de que a sua vida não tem significado, não descobriu a razão da existência, não sente a justificação de viver, você é uma moeda perdida. Se a sua vida não lhe dá brilho, realização, satisfação pessoal, se lhe falta perspectiva de vida, motivação para viver, significado para a existência, você é uma moeda perdida. O que faz a moeda? Nada. Mas a moeda, em termos humanos, pode deixar-se encontrar. Olhe para dentro de si, veja se você não é uma moeda perdida, e sabedor que seu dono que é Deus lhe procura, deixe-o encontrar você. Deixe-se achar. Deixemos um pouco este primeiro tipo de gente, vamos ver o segundo.

Que homem dentre vós, tendo cem ovelhas, e perdendo uma delas, não deixa no deserto as noventa e nove e não vai após a perdida até achá-la? É o segundo tipo de perdido, é o perdido que sabe que está perdido mas não sabe voltar. A ovelha perdeu-se, ela tem consciência de que está perdida, ela não vê o pastor, ela não ouve a sua voz, não ouve os assobios característicos que a chamam para o rebanho. Não ouve o balido das outras ovelhas com as quais está acostumada a viver. Ela ouve o uivo de um lobo, o rosnar de um animal selvagem, ela vê a noite chegar e ela sente medo. Diferente da moeda, ela tem consciência, ela não é perdida, ela se perde, só que não sabe voltar. Há muita gente como ovelha. É desatenta espiritualmente, é negligente, não cuida de si próprio, perde o convívio com os outros, oculta-se dos olhos de Deus e quando vê, está perdida. Não foi a negligência alheia, foi a sua negligência.

Um pastor de ovelhas, pastor mesmo, pastoreou ovelhas no interior do Piauí, me disse que uma das coisas que mais leva a ovelha a se perder é a voracidade. Porque a ovelha é um ser gregário, ela vive em grupo, em comunidade, mas é muito voraz. Normalmente anda enfileirada atrás das outras, mas o apetite faz com que ela se desvie quando presume que a grama do lado de lá é mais verde. Às vezes é o apetite pela vida que é desmesurado e a pessoa não sabe dosar, muito trabalho, então ela está sempre preocupada, nunca pode participar de nenhuma atividade da Igreja durante a semana. No domingo também tem atividades seculares, quando não tem está estafada. Ansiedade de vida, muita festa, muito namoro, muito estudo e foi gradativamente se desviando como a ovelha que se afasta 1 metro, dois, três, cinco, dez, quando vê está completamente distante do rebanho e do cuidado do pastor, e aí corre risco de vida. Não houve um momento em que a ovelha disse assim: está muito chato este rebanho. Foi aos pouquinhos. É o descuido paulatino, gradativo, que leva muita gente a se afastar de Deus, não tem tempo para ler a Bíblia, tem para o Faustão, tem para o Gugu, tem para aquele horroroso Celso não sei o quê, tem para o Ratinho, para o Ratão, para Ratazana, não tem para o evangelho, e pouco a pouco vai se afastando, quando vê o coração esfriou por completo, vem a noite, vem o frio, vem o medo, a sensação de abandono. Aí, quando chega a crise, uma enfermidade, um desemprego, relacionamento doméstico tumultuado, relacionamento profissional em crise, é que a pessoa olha e descobre que está longe.

O que fez o pastor? Ele foi atrás da ovelha. Se você é um tipo assim, que se afastou de Deus por negligência, por descuido, é bom saber que Deus está procurando por você, ele vai atrás, ele não dá descanso e não descansa enquanto não encontra. Quando encontra, faz com este tipo de pessoa o que o pastor fez com a ovelha, não há uma crítica, não há nenhuma recriminação, nada é lançado em rosto, a não ser recolher e trazer de volta para casa.

O que pode fazer a ovelha? Ela não sabe o caminho, mas ela pode balir pedindo socorro. Talvez você esteja tão confuso que não saiba como fazer. Enredou-se numa situação tão complexa distante de Deus que agora quer consertar a vida com Deus e não sabe como fazer. Assumiu compromissos dos quais não pode se libertar. Envolveu-se em relacionamento difíceis de quebrar. Está enredado por atitudes das quais não se livra, mas à semelhança da ovelha pode pedir socorro, e Deus socorre, e Deus vem, e Deus encontra.

Você está distante e não sabe voltar? O bom pastor procura por você. Você sabe que as coisas estão erradas, você sabe que as coisas não estão certas, peça socorro, ele atende.

Vamos ao terceiro tipo. Está no versículo 11. Jesus continuou: Certo homem tinha dois filhos. Assim começa a história chamada
equivocadamente pelo tradutor de “A parábola do filho pródigo”. Vou falar em outra ocasião sobre isto. É a parábola do pai amoroso, o personagem central é o pai. Mas aqui nós temos o terceiro tipo que aparece nesta história. É um moço. É o perdido que sabe que está perdido e que sabe voltar. A história desse é diferente da dos outros dois. Ele não foi perdido e ele não se desviou acidentalmente. Premeditada e calculadamente virou as costas para o Pai e foi embora. Ele quis sair, não foi enxotado, ele rompeu as relações. Deus não enxota ninguém. Caim, além de ter sido um assassino foi injusto numa observação sobre Deus: eis que me lanças fora da tua presença. Deus não o lançou fora da sua presença, tanto que colocou nele um sinal para protegê-lo. Mas, a situação do perdido que está perdido voluntária, decidida e resolutamente, que sabe que está perdido, que quis tornar-se perdido, é uma situação trágica. Este está perdendo a vida e perdendo a dignidade. Jesus era um fantástico contador de história. Os contornos da parábola são extraordinários e esta é uma das peças mais sublimes de toda a literatura mundial. Para um judeu, um moço cuidar de porco era uma coisa vergonhosa. Uma vez eu perguntei a um judeu: você aceitaria se eu lhe desse a Bíblia hebráica junto com o novo testamento? Ele riu e disse assim: Você quer me dar uma Bíblia cristã, não é isso? Eu disse: é. Ele disse: eu aceito desde que não seja em percaline em couro de porco. Naquela época era difícil, eu achei uma Bíblia de capa de plástico para dar para ele. Mas o moço desce ao nível mais baixo que um judeu pode descer. Não é tocar em couro de porco, o seu anseio era disputar a comida com os porcos. Ele que fora um moço fino, rico, educado, está cuidando de porcos. Jesus mostra que ele perdeu não só o sentido da vida, que errou radicalmente na escolha que fez, mas acima de tudo, chegou ao nível mais baixo que alguém poderia chegar na sociedade judaica, foi encostar-se a um dos cidadãos daquele país, ou seja, foi encostar-se a um gentio. Os judeus dizem até hoje que Deus fez os gentios para serem combustível do fogo do inferno, e tem outro provérbio que diz: maldita seja a parteira judia que ajuda uma gentia a dar a luz, maldita seja duas vezes, porque ajudou um gentio e porque pôs um gentio no mundo. O moço vai se encostar em um gentio e vai cuidar de porcos, é a perda por completo de toda a dignidade pessoal.

Esta é a tragédia daquele que decide viver longe de Deus, do perdido que está perdido porque quer, que sabe, que optou por ser perdido. O que faz o moço? Toma consciência. Quantos empregados de meu pai tem fartura de pão e eu estou morrendo de fome. O que faz o Pai? Espera. O tratamento é diferente porque cada tipo tem uma estrutura diferente mas o texto bíblico diz: seu pai viu de longe. Estava atento. Respeita a vontade própria. Se você está distante de Deus porque quer, Deus respeita a sua vontade mas você está perdendo a sua vida e Deus no entanto está esperando uma oportunidade querendo que você volte, esperando uma oportunidade para restaurar você à sua condição de dignidade como filho dele. Não para que a sua vida seja arruinada.

O que faz o Pai? Espera, e vamos usar a imaginação, porque a inteligência é um dom de Deus. Poderia até enviar sinais. Alguém lhe disse: olha, eu vi o seu filho em tal cidade. Um dia ele sabe que alguém vai para aquela cidade e diz: se você encontrar meu filho lá, diz que a cama dele ainda está arrumada esperando por ele. Para um outro e ele diz: olha, se você souber onde meu filho anda diz a ele que estou com saudades dele. É isso o que Deus faz. Você entra numa igreja e recebe um sinal de Deus de que ele está com saudades. Você encontra um crente ou uma situação na sua vida, alguém lhe fala do evangelho, uma determinada experiência que você vive, e você descobre que Deus está emitindo sinais esperando o seu regresso. O que fazer? Consciência crítica. Olhar para dentro de si. Faça essa pergunta: o que eu estou vivendo é o melhor que eu posso tirar da vida? A vida é isto? Vale a pena viver este tipo de vida? Será que eu não estou perdendo, principalmente quando se é moço, minha mocidade, minha idade, meus bens, minha energia, meu talento em futilidades, na lama, quando poderia estar sendo útil nas mãos de Deus? Este tipo de gente tem uma tragédia, que é morrer longe de casa, quando o pai está esperando que ele volte para casa. Se você é um perdido, que sabe que está perdido e que sabe voltar, volte, seu pai está esperando por você.

Agora juntemos estes três episódios e concluamos a mensagem. A ovelha e o filho morreriam longe de casa, a moeda perderia o seu valor. Longe de Deus a vida não tem valor e longe de Deus morre-se cada dia um pouco mais. Está respirando, está falando, biologicamente está vivendo, mas espiritualmente está morto e cada dia um pouco mais morto. Além de morrer espiritualmente, o pior de tudo, morre-se eternamente.

Nestas três histórias há um elemento comum. Nas três história o final é um final alegre. A moeda é recuperada, a ovelha é encontrada e o filho regressa. Seja você uma moeda, seja você uma ovelha, seja você um filho, não deixe que a sua história termine de maneira triste. Seu pai celestial procura por você, seu pai celestial quer você junto dele, termine a sua história com alegria e com festa porque o seu lugar junto de Deus ainda está disponível.

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