Para que os pais se lembrem

1. Os pais devem receber seu(s) filho(s) como uma bênção de Deus — verso 20.
Nem sempre nos lembramos que nossos filhos são dádivas de Deus, embora quem não os tenham possa achar que não são abençoados pelo Senhor. Quero começar pelos que, desejando ter filhos, não os tem.

1.1. Quem não o(s) tem …. deve orar até receber um filho ou uma resposta de Deus de que não terá um filho.
Ana chorou ano após ano por não ter um filho. A história está sintetizada nos versos 6 e 7: “E porque o Senhor a tinha deixado estéril, sua rival a provocava continuamente, a fim de irritá-la. Isso acontecia ano após ano. Sempre que Ana subia à casa do Senhor, sua rival a provocava e ela chorava e não comia”. Ele fez de tudo. Um dia resolveu entregar seu problema ao Senhor. “Certa vez quando terminou de comer e beber em Siló, estando o sacerdote Eli sentado numa cadeira junto à entrada do santuário do Senhor, Ana se levantou
10 e, com a alma amargurada, chorou muito e orou ao Senhor” (versos 9-10). Depois desta experiência de oração, “ela seguiu seu caminho, comeu, e seu rosto já não estava mais abatido. Na manhã seguinte, eles se levantaram e adoraram o Senhor; então voltaram para casa, em Ramá. Elcana teve relações com sua mulher Ana, e o Senhor se lembrou dela. Assim Ana engravidou e, no devido tempo, deu à luz um filho. E deu-lhe o nome de Samuel, dizendo: “Eu o pedi ao Senhor” (versos 18b-20). Quando resolveu descansar em oração, ela ficou grávida.
Quando oramos, devemos esperar, como fez Isaque (Gênesis 25.19-21, 26): “(19) Esta é a história da família de Isaque, filho de Abraão: Abraão gerou Isaque, (20) o qual AOS 40 ANOS SE CASOU com Rebeca, filha de Betuel, o arameu de Padã-Arãb, e irmã de Labão, também arameu. (21) Isaque orou ao Senhor em favor de sua mulher, porque era estéril. O Senhor respondeu à sua oração, e Rebeca, sua mulher, engravidou. (…) 24 Ao chegar a época de dar à luz, confirmou-se que havia gêmeos em seu ventre. (25) O primeiro a sair era ruivo, e todo o seu corpo era como um manto de pêlos; por isso lhe deram o nome de Esaú. (26) Depois saiu seu irmão, com a mão agarrada no calcanhar de Esaú; pelo que lhe deram o nome de Jacó. Tinha Isaque 60 ANOS DE IDADE quando Rebeca os deu à luz.

1.2. Quem tem
Quem tem filho(s) deve agradecer ao Deus por o(s) ter recebido. Foi assim que Ana recebeu Samuel em sua vida.
Quem tem filho(s) não deve achar que, por ser(em) bênção de Deus, não terão problemas com eles. Isaque e Rebeca tiveram filhos e problemas, como muitos pais da Bíblia e da vida. O fato de você ter, por exemplo, um filho com alguma doença não quer dizer que ele não seja igualmente uma bênção de Deus.
Em 1953, Dale Evans Rogers, que fazia dupla com seu marido Roy Rogers em filmes, escreveu um livro sobre sua experiência de terem uma filha, Robin, com síndrome de down, numa época em que portadores desta doença viviam muito pouco. O título do livro revela como eles receberam o menino, em português “meu anjinho desconhecido”. A referência é a Hebreus 13.2: “Não se esqueçam da hospitalidade; foi praticando-a que, sem o saber, alguns acolheram anjos”. A irmã de Robin, escrevendo 50 anos depois, conta que os médicos não queriam que levassem a menina para casa porque teria apenas dias de vida. Ela observa que sua mãe, ao dar seu testemunho, escrevendo-o como se fosse a filha, não imaginaria que ele abençoaria tantas pessoas ao redor do mundo.
Filhos são empréstimos que Deus nos faz, para nos abençoar.

2. Os pais devem se saber que há etapas na(s) vida(s) dos seu(s) filho(s) — verso v. 22.
Em nosso crescimento biopsíquico, temos etapas, naturalmente necessárias. A Bíblia fala da amamentação e do desmame como sendo duas destas etapas.
Houve um tempo em que Ana ficou em casa para cuidar exclusivamente do seu filho. Um filho é para ser cuidado. Deve haver um tempo exclusivo para ele, mesmo que a mãe trabalhe fora. Só a mãe pode fazer isto. A menos que tenha um impediento biológico, ela não deve abrir mão disso. Esse tempo com seu filho, apoiado pelo pai, valerá para todo o sempre.
Quanto ao desmame, em certo sentido, é a partir desse momento que a vida começa. Abraão e Sara desmamaram Isaque (Gênesis 21.8). Deve ter sido doloroso, mas era necessário. Elcana e Ana desmamaram Samuel, numa decisão dolorosa, porque, naquele caso, desmame seria separação, já que o garoto iria para o seminário de Siloé, para aprender com o sacerdote Eli. A dependência dos filhos em relação aos pais só é saudável dentro de limites bem claros, senão produz doença.
Convivemos com um paradoxo em nossa sociedade. As crianças são precocemente iniciadas ao mundo do consumo e dos direitos pessoais, por exemplo, ao mesmo tempo em que os jovens retardam sua saída, por trabalho ou casamento, de casa. Muitas vezes, eles e seus pais têm medo da partida.
Penso que não devemos cometer o exagero da cultura norte-americana em que é considerado bom que o jovem saia de sua casa e de sua cidade para cursar a universidade. Penso também que não devemos cometer o exagero da cultura brasileira em considerar rebelde o jovem que busca sair de casa, em busca de melhores condições de estudo ou apenas de independência. Na cultura norte-americana, o saldo positivo é o alto grau de iniciativa empreendedora dos jovens; o saldo negativo, segundo Harold Bloom, é a libertinagem, provida pela liberdade. Na cultura brasileira, o saldo positivo é o prolongamento dos laços familiares, em suas dimensões de proteção e formação; o saldo negativo é a dependência que retarda o pleno desenvolvimento dos indivíduos.

A percepção de que a vida é feita por etapas ajuda os pais a relativizarem certos problemas… tomados como definitivos. Isto se aplica aos adultos em geral em sua convivência com os jovens. Há alguns anos tive um contato mais próximo com um menino, aí no começo de sua adolescência. Um dia dei-lhe carona até sua casa. Ele sequer me disse obrigado. Ele passava pela gente e nem sequer cumprimentava. Era uma fase. Os anos se passaram e hoje ele é um colaborador muito dedicado e … educado.
Não falo isto para estimular a falta de educação ou de simpatia, mas para mostrar pessoas em formação podem mudar. Os adultos devem ajudar neste processo, em lugar de “deletar” a pessoa. Os adultos devem se lembrar que estão vendo gerúndios e não particípios, estão vendo pessoas em formação, não pessoas formadas. Um dia alguém teve paciência com a gente.

Ademais, surgem situações que tornam difícil o convívio. Às vezes, as etapas demoram muito. Por vezes, os atritos são muito intensos.
Aos pais, devo lembrar que invistam na formação integral (espiritual, educacional e psicológica) dos seus filhos. Não basta cruzar os braços e esperar o tempo passar porque poderão surgir deformações insuperáveis. Invista tempo e comunhão. Você pode não poder dar celular ou mesmo escola particular para o seu filho, mas isto não lhe fará falta, se lhe der formação.
Neste investimento, pode ser que seu(s) precise(m) de ajuda no seu processo de se tornar independente. Pode ser que você precise de ajuda para ajuda-lo(s). Procure ajuda.
Ore por seu(s) filho(s), mesmo que ele não creia no poder desta oração.

3. Os pais devem… embora não possam determinar — desejar uma vida consagrada para seu(s) filhos — verso 22b.
Ana e Elcana levaram sua escolha ao ponto máximo, por que sua consagração significaria a partida do seu filho para sempre.
A trajetória de Samuel forma um contraste marcante com as dos filhos do seu mestre Eli. Certamente Eli queria seus filhos no caminho da integridade. Fez deles sacerdotes, mas eram tão perversos, que acabaram morrendo em conseqüência de suas maldades.
Apesar do desejo de Eli, seus filhos seguiram outros desejos.
No entanto, num exercício de imaginação e partindo do fato que Eli era íntegro, ouso sugerir algumas possibilidades para o comportamento dos seus filhos já adultos.
A primeira é o que as ações deles não guardaram relação com o que aprenderam com o pai, uma vez que isto é possível por causa da liberdade humana. Não creio, pelo que o texto bíblico nos diz, que Eli vivia uma vida na “igreja” e outra em casa, o que poderia os filhos a serem mais sinceros em seus pecados.
A segunda possibilidade é que Eli falhou na formação deles, quem sabe fazendo o que algumas famílias ainda fazem, seja não gastando tempo suficiente com eles, apresentando-lhes Deus de uma forma agradável e reverente, talvez porque dedicado ao seu trabalho, seja discutindo na presença dos filhos os problemas da “igreja”, o que contribuiu para terem uma visão distorcida da realidade, num tempo em que não podiam discernir as coisas.
Os exemplos de Samuel e de Eli são possibilidades diante das coisas precisamos nos cuidar.

4. Os pais devem se entender sobre seu(s) filho(s) — v. 23.
Há algo bastante prático que as atitudes de Ana e Alcana sugerem. Eles decidiram juntos o envio de seu filho para o seminário: “Ana não foi e disse a seu marido: `Depois que o menino for desmamado, eu o levarei e o apresentarei ao Senhor, e ele morará ali para sempre’. Disse Elcana, seu marido: `Faça o que lhe parecer melhor. Fique aqui até desmamá-lo; que o Senhor apenas confirme a palavra dele!’ Então, ela ficou em casa e criou seu filho até que o desmamou”.
Um filho não pode ser um objeto de disputa. Há pais que transferem para os filhos os conflitos que vivem enquanto cônjuges. Há pais que acusam seus filhos de amarem mais a um do que a outro e requerem atenção deles para compensar a falta que sentem do seu cônjuge.
Os assuntos envolvendo os filhos devem ser tratados de tal modo que eles se sintam seguros. Imagine se Elcana tivesse dito assim: “Eu não concordo que nosso filho para o seminário, mas, já que você quer, a responsabilidade é sua”. Se Samuel ouvisse isto, talvez desistisse na primeira dificuldade que enfrentasse no estudo ou no internato e voltasse, não para o seu pai, mas para sua mãe. Na verdade, este tipo de acordo deve começar a ser feito antes do parto, embora os conflitos se revelem até nos nomes que dão aos filhos.

Quanto ao pai ou mãe que cuida sozinho do seu filho, é importante que seja coerente. O que não pode num dia não pode poder no outro, e vice-versa. Suas palavras de pai ou mãe devem também ser coerentes com o que o seu filho vê em casa.

Pais casais e pais sozinhos devem aprender com Ana e Elcana que um filho é para Deus, dedicado a ele, para que seja uma bênção para o mundo. Samuel o foi. Os nossos filhos também podem ser. Se fizermos como Ana e Alcana, em muito ajudaremos em sua caminhada. Inspiremos no que fizeram: “Eles sacrificaram o novilho e levaram o menino a Eli, e ela lhe disse: `Meu Senhor, juro por tua vida que eu sou a mulher que esteve aqui a teu lado, orando ao Senhor. Era este menino que eu pedia, e o Senhor concedeu-me o pedido. Por isso, agora, eu o dedico ao Senhor. Por toda a sua vida será dedicado ao Senhor’. E ali adorou o Senhor” (versos 25-28).
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