Pelos frutos os conhecereis

Precisamos frutificar para o Reino de Deus, por isso esse estudo “Pelos frutos os conhecereis.” Com esse título não estamos pensando somente em produtividade, muito menos nos termos que ela está posta na sociedade globalizada e capitalista. Queremos, sim, garantir frutos, mas não esperamos que mangueira dê melancia, isso quer dizer que há certos “frutos”, os quais por maior que sejam, por mais impressionantes que pareçam, não são frutos dignos de arrependimento, legítimos do Reino de Deus. Frutos de lábios que confessam ser Jesus o Senhor, e para Ele vivem, e como Ele vivem. Uma frutificação e produtividade ética, cristã e responsável é o que queremos.
A linguagem da árvore e seus frutos é extremamente antiga nas imagens bíblico-simbólicas de Israel; já no Jardim do Édem ela aparece. Tal imagem comparativa pode ser vista em outros livros religiosos, e por todo o Antigo e Novo Testamentos.
Árvore e seus frutos carregam uma carga de sentido que chamamos de polissemia, que quer dizer diversos sentidos. Vejamos alguns: Ezequiel, com sua visão apocalíptica enfatiza a promessa que do Templo fluiriam águas, e delas um rio, de cujas margens brotariam árvores, e delas, frutos que alimentarão a todos, e suas folhas serviriam de remédio (cf. Ez 47. 12). Isto numa visão de restauração, trazida por Deus e revelada ao seu profeta. O salmista põe as árvores para cantar por causa da vinda do Senhor (cf. Sl 96. 13). Mas a árvore designa principalmente Israel. Em Isaías 5. 1, Israel é a videira má que, ao invés de dar “…uvas boas, deu uvas más…” (Is 5. 4). Por isso, o profeta, em nome de Deus, profere juízo contra Israel.

1) “Produzi pois fruto digno de arrependimento.” Mt 3. 8
Esta é a primeira vez que a palavra karpós (fruto) aparece no Novo Testamento. São 66 vezes, das quais, a grande maioria, em Mateus, e nunca nas cartas pastorais de Paulo (1 Tm, 2 Tm, Tt, Fm), e, nas cartas gerais, somente em Tiago. Em Mateus, se acentua o antagonismo entre karpous kalous e karpous ponerous, frutos bons e frutos maus, tema da profecia de Israel.
E, como vimos, esse uso já começa na figura profética de João Batista que, referindo-se aos fariseus e saduceus, os quais vinham para batizar-se por ele, se recusou a batizá-los e proferiu contra eles esta sentença profética: “Raça de víboras, quem vos induziu a fugir da ira vindoura?” (Mt 3. 7b). E aí acrescenta-se a frase que escrevemos no início dessa parte. Por que João Batista aparece tão irado com os fariseus e saduceus? Os fariseus eram os mestres da lei judaica. Fiéis ao sentido da expressão aramaica perushin, que quer dizer “os separados”, eram leigos e verdadeiros fiscais do cumprimento estrito da lei. Apesar de em alguns momentos gozarem de popularidade por sua oposição ao partido do sacerdócio, os saduceus foram extremamente combatidos por João Batista e Jesus, pois atavam pesos, cargas religiosas, que eles mesmos não carregavam. Já os saduceus eram o partido religioso do Templo. Tinham sérias diferenças religiosas e políticas dos fariseus.
Esses fatos nos fazem estranhar que ambos tenham se unido para batizar-se, pois sempre se consideraram mais religiosos do que o povo em geral, o qual, em quantidade, se acercara de João Batista. Pregando a vinda do Messias e do Reino, João Batista convidava ao arrependimento, e percebeu que a aproximação para o batismo desses religiosos profissionais não era acompanhava de real confissão e arrependimento.
Os frutos dignos que deles se esperava eram a coerência com a Palavra de Deus. Tais religiosos estavam acostumados a usar a religião para usufruir vantagens pessoais. Principalmente os saduceus, membros da elite do Templo, que ganhavam comissões por todas as vendas no Templo; o culto judeu era um grande negócio para eles.
Hoje, esse juízo profético cai sobre os líderes religiosos em geral: a religião tornou-se um produto do mercado; estamos precisando de profetas com a indignação de João Batista e de Jesus. Assistimos a um incessante apelo ao povo para contribuir, promessas de prosperidade e riqueza, em troca de compromissos financeiros. Isso acontece no espiritismo, catolicismo e, lamentavelmente, no meio evangélico.
Cria-se com isso uma religião de utilidade e de troca de benefícios – “Busca-se a comida que perece”. No caso dos fariseus e saduceus, eles fugiam da fúria apocalíptica do profeta, buscavam ficar bem com Deus, nada de compromisso com Deus, nada de mudar de vida, nenhum arrependimento, nenhuma confissão; somente a aparência da religiosidade que o ato externo do batismo lhes daria.
Atualmente, nos deparamos com cultos, onde as ofertas são várias e raramente se oferece a grande única oferta: Jesus e seu Reino. Em muitos casos, não se denuncia o pecado, não se promove momento de confissão e quebrantamento, não há conversão; há adesão, conveniências interessantes e utilitárias; passadas as necessidades, desaparecem essas pessoas até o próximo desemprego, doença ou desilusão. O machado está posto à raiz da árvore, o ramo que não dá fruto, ele o corta e lança no fogo inextinguível (cf Mt 3. 10). Essa sentença de juízo profético continua relevante. Cabe à Igreja dar uma resposta.

2) Pelos frutos os conhecereis (Mt 7. 16-20 e Jo 15)
A imagem comparativa de Jesus nesta outra parte do Evangelho aponta o juízo, mas também a missão. Aparentemente somos nós que decidimos qual fruto vamos dar: o bom ou mau fruto. A denúncia é contra os falsos profetas, mas a maior prova de que existem santos homens e mulheres de Deus é a existência do falso homem e falsa mulher de Deus. Precisamos urgentemente confrontá-los para identificar quem é quem, e o critério bíblico são os frutos.
Procuremos a nós mesmos, examinemos a nossa vida, esquadrinhemos os nossos caminhos e voltemos ao Senhor, olhemos para trás e verifiquemos se nosso ministério tem deixado vidas transformadas, fruto da unção e dom de Deus em nossa vida. Avaliemos como está nossa família. Nossos filhos são crentes? Nosso lar recomenda o Evangelho? Sim, os frutos, quando existem, são visíveis, não se consegue escondê-los.
Nos meses de novembro e dezembro, quando viajo ao norte do Estado do Rio, ando pela BR 116, me saltam aos olhos, na beira da estrada, as mangueiras carregadas de mangas; são frutos visíveis, não passam despercebidos; do mesmo modo, a nossa vida, nossa família, nossa igreja local. Quando temos frutos dignos do Reino, são visíveis, não é preciso procurar; eles aparecem.

3) Mas o fruto do Espírito é: amor, alegria…
Concluo essa parte da reflexão sobre o tema da Igreja Metodista no ano de 2001, estimulando a que pensemos no grande fruto que o Espírito Santo produz nas nossas vidas, que é o amor, o qual gera: alegria, paz, longanimidade, benignidade, bondade, fidelidade, mansidão, domínio próprio. A grande medida dos frutos na vida da igreja é a receita do Apóstolo Paulo em Gálatas 5. 22.
Nosso mundo está sedento de amor, nossas igrejas precisam de ser um ambiente de amor, misericórdia, bondade, pois, desse modo, as pessoas crerão que somos enviados por Deus.
Finalmente, no próximo mês farei uma breve exegese de João 15, sobre a videira e os frutos, e no mês seguinte sobre a simbologia da árvore e dos frutos no Apocalipse de João. Assim, teremos três estudos bíblicos sobre o tema, que poderão ser usados em grupos de estudos de discipulado.

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