Reavivando o Dom

Não é de bom alvitre pregar sobre avivamento, a não ser que esteja passando por ele. É doloroso para um pregador falar de horizontes que não vê. O fato é que o assunto surge numa leitura simples de uma carta pastoral. Timóteo, o discípulo zeloso, fervoroso e dedicado, passava por épocas de sufrágio da alegria de ser uma testemunha de Jesus.

A perda dessa alegria se manifestou pela covardia (gr. deilias, v. 7), que gerou apatia em não “manter o padrão das sãs palavras” (gr. hypotuposin eche hygiaivonton logonv, v. 13) e “guardar o bom depósito” (gr. fulaxon paratheken ten kalen, v. 14). São três os agentes que, acoplados ao padrão doutrinário, não trazem prejuízos ao seu conteúdo: fé e amor (v. 13) e o Espírito Santo (v. 14).

As palavras paulinas são reveladoras, porque revelam o caminho do esfriamento. O que acontece com a maioria dos crentes que perdem a empolgação com as coisas ligadas ao ensino? Por que seminaristas, depois de três anos de estudo, não oram como antes e perdem a alegria da oração? Como reverter a situação que, olhando para os lados, não há referência imediata dessa alegria?

1. AS CAUSAS DA PERDA DA ALEGRIA
O início desta abordagem visa elaborar um diagnóstico. No texto, em apreço, a perda da alegria, aquela sensibilidade que se exibia por meio de lágrimas e da fé sem fingimento (v. 4-5), estava viva somente na lembrança de Paulo, o que exclui Timóteo de estar fazendo o mesmo exercício com a memória.

As boas lembranças da fé cristã foram esquecidas. Mas, é possível alguém esquecer das realidades mais impactantes da vida? Não se trata de uma amnésia, de um esquecimento patológico de eventos marcantes, mas uma reinterpretarão dos acontecimentos. As lembranças são decodificadas e conhecidas a partir de uma ruptura com o belo, o extraordinário (o Espírito Santo), o apaixonante (o amor) e a certeza (a fé), todos elementos encontrados no texto.

A causa primária do esfriamento foi descoberta: a reinterpretação de informações e dos fatos extraordinários do evangelho. O grande desafio é descobrir quais foram os condutores que ligaram esta nova hermenêutica ao coração do crente que ficou apático. Sugerem-se quatro possibilidades.

1.1 – A perda imediata de referências locais de felicidade
O texto mostra que Timóteo não estava com Paulo (II Tm 4,9). Ambos estavam solitários e à mercê de novas relações. A mudança do certo pelo incerto e do estabelecido com o não firmado desgastam aqueles que se envolvem com o “cheiro da morte e da vida” (cf. II Co 2,16). O afastamento daquelas fontes que banham de alegria, de aceitação, de amor, de esperança, e que servem de referência permanente de segurança, pode causar esfriamento. Por isso, recomenda-se cautela no envio de missionários e seminaristas. Quais serão suas fontes nutridoras desses elementos?
A questão de Timóteo era a da perda da auto-estima por causa do abandono e da perseguição que sofriam Paulo e seus seguidores (cf. 1,15; 2,5; 4,10,16). Os obreiros quando partem, deixam suas referências afetivas locais e começam suas vidas em outros lugares, sem o devido amparo do amor, da fé e de todas as coisas boas que a presença do Espírito Santo produz.

A companhia de pessoas que aprovam e amam é fundamental. Paulo se sentia bem com o amor dado por Demas, até que foi abandonado e deu seu amor ao presente século (cf. 4,10). Um amor, em crise como o de Demas, era importante para Paulo? A resposta é afirmativa, porque teve que fazer reposição imediata (v. 9). Uma transferência de igreja, de campo, de país podem trazer resultados devastadores para um crente, por melhor que seja sua intenção. O que podemos fazer para aqueles que estão chegando ao convívio da igreja? Uma oferta de amor, de companheirismo, de solidez e de apoio irrestrito.

Os seminaristas perdem o abraço do seu pastor, as referências das melhores amizades, o calor humano e o bem estar produzidos em meio às suas famílias, os elogios da mocidade, do pastor e das referências de estabilidade. Depois de três anos, conseguem conquistar alguém, um ou outro amigo num processo de adaptação difícil. No ano seguinte estarão separados de novo, numa igreja que não são conhecidos, que deverão satisfazer as expectativas, num breve período de tempo, de consertar a história e promoverem longos períodos de fartura.

O processo é doloroso, porque as fontes afetivas só estarão abertas se os resultados forem os esperados. Agora como pastor, sabe que ele precisa trabalhar muito, sob o intenso calor da expectativa e da oposição, para terem abertas as “torneiras da alegria e da aceitação”. É também possível que os resultados apareçam, mas que a comunidade esperava mais, e causar profunda desilusão.

É o abandono do ministério o melhor caminho? Todos sabem que não. É nesse ponto que começam as adaptações perigosas. Se a fonte padrão não está dando vida, então outra fonte é buscada. O risco é que a outra fonte possuía outras associações e valores. É comum ver outras buscas, não motivadas pela missão integral da Igreja, mas como uma referência existencial.

1.2 – A busca por novos horizontes ideológicos
A frustração com sã doutrina não é fato novo. O grande enfrentamento que se tem é receber instrução de gente sem fervor, sem amor, sem cumplicidade e amizade. Falar das mais sublimes realidades divinas, sem ser afetado por elas, pode comprometer a interpretação que os receptores fazem. Os grandes temas da fé não podem ser reproduzidos sem excitement, sob o risco de criar uma geração de “cérebros ressuscitados e corações mortos”, como diria Spurgeon.

É interessante entender o caminho que seguiu a Teologia da Libertação. Tomando Leonardo Boff como um ponto de partida, conhece-se um dos caminhos do esfriamento com aquilo que se considera certo. Como franciscano, Boff era um homem treinado para atender os pobres. Mas historicamente, os franciscanos puros lidavam com a misericórdia e não com política. Sabendo que tratar da pobreza, não eliminando suas causas (como se fosse possível), não diminuiria drasticamente o número de pobres, apelou-se para construções cognitivas mais práticas. Nessa altura, a teologia se casou com a hermenêutica comunista, uma ideologia secular agora com vocabulário teológico.

Boff, motivado honestamente pela causa do pobre, não se apercebeu que o abandono dos paradigmas fundamentais da fé cristã abriria um fosso em sua alma. Já cansado de tanto insistir com a Teologia da Libertação, disse numa plenária numa universidade federal: “É melhor ser um ateu feliz que um cristão frio”. A busca por caminhos epistemológicos alternativos é uma realidade quando as grandes verdades são usadas para perseguir, restringir ou manter o establisment. Tiram a alegria em nome de Deus, restringem a liberdade e sufocam a esperança em nome das melhores possibilidades teológicas. A juventude é perdida com pressões que deveriam ser sentidas no tempo certo. Mais tarde, a crise existencial bate à porta e requer outras adaptações, que podem colocar em risco tudo o que foi alcançado com muito trabalho.

1.3 – O apartheid epistemológico entre as novas aquisições e a sã doutrina
Quando a motivação de conhecer outros domínios faz parte do fascínio com toda a revelação de Deus, a interseção com toda a verdade é maravilhosa. Entretanto, a busca existencial de novas fronteiras pode apressar a sistematização e abrir um “fosso epistemológico”, da divisão entre o sagrado e o profano. Disso resulta uma crise de valores e de identidade, resolvida sob a divisão da existência, não integrando as partes e criando uma persona.

O crente deixa de ser um agente de fé para se tornar um ator, alguém com qualidades de articular papéis que não são originalmente os seus. Ora no tablado, ora no púlpito, assim segue a vida. Porém, o drama da infelicidade lhe impõe pesados castigos. A assimilação epistemológica de outras vertentes, na depressa de resolver problemas existenciais, pode criar um novo arcabouço de verdade com contradições e erros que sacrificam a missão e não promovem o resultado esperado.

Sem perceber que as impurezas da assimilação é que tiraram a alegria, o crente deduz imediatamente que é a sã doutrina. Sem poder perder os vínculos trazidos pela aquiescência com tais valores, o cristão fica em silêncio, reproduzindo verdades que desconfiam não serem benéficas, procurando alternativas teológicas, abrindo um segundo fosso, este agora ligado com afirmações doutrinárias que não se combinam. Aqui se discute que o cristianismo é meramente confessional e não existencial e vice e versa.

1.4 – O orgulho pelo zelo que mata o amor
A igreja em Éfeso é o que se poderia chamar de “boa igreja”. Ela nunca retrocedeu um centímetro na luta contra a mentira. Seu zelo, pelo que era certo, não permitia que os nicolaítas lograssem êxito (Ap 2,6), que eram homens maus e mentirosos (v. 2). Perseverança e boa elaboração de perdas não bastavam (v. 3), os crentes efésios tinham que resgatar o amor, porque é desta maneira que se persevera: amando aquilo que se crê, aquilo que os filósofos antigos chamavam de “amor à virtude” como única maneira de estabelecer absolutos éticos. Os que são cruéis manipulando a verdade podem estar exibindo toda a frustração com o conteúdo daquilo que afirmam ser correto.

A crueldade que segue numa direção tem retorno ao seu ponto de partida. É um efeito “bumerangue” inesperado, porque se idealiza que a luta por aquilo que se considerava ortodoxia por si mesmo fosse capaz de manter a bondade, a felicidade, a misericórdia, a comunhão e o amor entre seus congêneres. A guerra devasta a todos, vencedores e vencidos, as divisões denominacionais ou eclesiais estragam a todos.

Uma parte de uma igreja queria mais fervor, descobriu os dons espirituais e logo tiveram grande prazer com o reino de Deus. Uma parte do grupo, doutrinada para inibir estas manifestações usou todos os artifícios (exortação, pressão denominacional, ameaça de exclusão entre outros) para prevalecer. E prevaleceu, com um templo vazio, num domingo de lágrimas após a separação; a vencida saiu sob declarações pesadas de que a verdadeira igreja saía naquele momento. Como manter a obra do Espírito Santo em tristeza?

A ação de Deus e a do homem devem ser combinadas para produzir os melhores efeitos e os melhores resultados. Há o “entristecimento do Espírito” (cf. Ef 4,30.31), um antropopatismo que trata de sua ação retardada por sentimentos cultivados dentro da comunidade: amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmias (o elemento heterodoxo dentro da ortodoxia já tratado) e toda espécie de malícia. A ação de Deus segue um caminho que o homem desobstrui, para que a benignidade, a compaixão e o perdão sejam produzidos permanentemente, para preservar, com qualidade, a própria comunidade da fé.

Todo zelo deve lançar mão do amor pela verdade, que dará uma nova dinâmica para a ação de resistir. Se o manuseio da verdade traz tantos enfrentamentos, é normal a pessoa achar que lidar com ela traz muito desgaste. O que os crentes precisam aprender é que a luta tem um desgaste natural, e como tal deve seguir rigorosamente os critérios da resistência, sem criar guetos ou proibir certas associações, mas que as pessoas amem a verdade, que é foi descoberta por Davi, no Salmo 119, como mais “doce que o mel”.

1.5 – O pecado como substituto temporário da alegria da salvação
“Todos aqueles que são nascidos de Deus não vivem na prática do pecado”, disse João (I Jo 3,9). É da natureza do crente não desejar pecar, ainda que a velha natureza, vencida progressivamente, reclame seus espaço junto à alma do crente. A tensão entre as duas naturezas polariza uma angústia normal na vida daqueles que agora temem a Deus. Mas, há momentos, por decisão voluntária, de desejar experimentar do fruto da árvore do bem e do mal, para ampliar horizontes.

Foi o que ocorreu com Davi. Como rei, nada lhe faltava aos olhos, a não ser aquelas coisas proibidas aos homens tementes a Deus. A falta de alegria com a rotina (e ela deve ser encarada com alegria), fê-lo desejar a mulher de outro homem, com a agravante que o tal era muito leal ao rei, à sua causa e aos seus companheiros (cf. II Sm 11). A rotina do crente, se percebida corretamente, é mantida por intensas delícias, como costumava chamar Agostinho sua comunhão com Deus. Davi, ao contrário, esqueceu daqueles grandes momentos em que esteve feliz, e até dançou, com os poderosos atos de Deus na história. Eles foram reinterpretados e associados com uma rotina sem graça, procurando, em Bate-Seba, um escape temporário desse marasmo.

Quando as conversões, os arrependimentos, o crescimento espiritual, a compreensão das Escrituras e as respostas de oração começam a serem vistos como o resultado de uma “produção industrial”, mecânica, houve tal substituição. É interessante que uma conversão cause uma grande alegria nos céus, e não um frisson na terra (cf. Lc 15,7). A leitura e a compreensão das Escrituras não são tão dóceis mais. Houve uma substituição da alegria eterna pelo fugaz.

É desse ponto que se percebe que pecou, quando as coisas não se encaixam, dando um sentido que a melhor relva é a que está do outro lado. Entretanto, é sempre bom dizer, que os incomodados, com as adaptações que os outros fazem, já perderam o amor pelo que dizem estar fazendo, porque quem gosta do que faz não reclama do outro, incentiva-o com fascínio que tem pela obra de Deus.

As reposições duram pouco, tem prazer passageiro. Deixam marcas, trazem resultados não desejáveis. A pior das conseqüências foi o que Davi chamou “perda da alegria da salvação” (cf. Sl 51,12). Kidner (Derek KIDNER, Salmos 1-72, Introdução e Comentário, p. 214) afirma que há um paralelismo com “renova dentro de mim um espírito inabalável” (v. 10). Os pedidos de Davi já indicavam seu arrependimento. As pessoas arrependidas costumam fazer estes pedidos para Deus, que nada mais são que ocorrências normais da vida de um crente, a rotina.

Davi queria voltar a entender que os atos salvíficos de Deus na história são uma grande fonte de prazer. O espírito inabalável que pediu retrata o desejo de alguém que está querendo voltar, mas sob a dinâmica da leitura certa. A vitória numa guerra não era para ser computada como o resultado da força bélica e humana, mas como expressão dessa intervenção de Deus na ordem humana.

1.6 – A própria natureza do testemunho cristão somada com a inexperiência dos obreiros
O reino de Deus tem invadido a história (breaking history), dividindo a humanidade entre salvos e perdidos, causando conflitos normais entre as partes. Os que estão fora do reino procuram resistir a todo custo ao convite, usando a violência para se verem livres do desafio. A Palavra de Deus não permite que sejam criadas expectativas que não correspondam com suas próprias afirmações.

A experiência dramática de João, com o testemunho que daria às nações (cf. Ap 10,10.11), é reveladora. A visão recebida era a de um livrinho que deveria ser comido, no começo da degustação era tudo com sabor de mel, depois o gosto era amargo. O testemunho cristão traz resultados incríveis de aceitação e rejeição, absorvidos pela alma humana como doce e amargo. Há uma inevitabilidade dessa tensão dentro da esfera do prazer. Os vocacionados sabem disso e dão valores desproporcionais para o amargo, criando uma expectativa ou muito otimista ou pessimista demasiadamente.
A questão é que os vocacionados devem se sentir aptos para esta tensão; ou, quando não conseguem vislumbrar suas deficiências, devem permitir que outros o façam. Aqui suas qualificações serão examinadas, dentre elas não poderão ser neófitos (cf. I Tm 3,6).

Um neófito (lit. “um recém plantado”) não tem a experiência ou a maturidade necessárias para conciliar, motivado, doce e o amargo. Ele logo se apropria do orgulho (gr. tuphotheis) como mecanismo de defesa. Aqui o diabo arma a sua cilada, o jovem se sente acima da própria batalha. Este é o sentido de orgulho, de uma pessoa “enfumaçada” (A.T. ROBERTSON, Word Pictures in the New Testament, v. 4, p. 573), de “mente enfumaçada”.

O trunfo de Satanás é atuar na mente do vocacionado, travando grandes conflitos, que podem anuviar todo o raciocínio e propor um novo ponto de partida hermenêutico, tomado por amargura e ressentimento contra o dono da seara. A amargura lhe altera o tamanho e o coloca acima de tudo, no epicentro da verdade, julgando de todas as coisas ameaçam sua estabilidade. Certas declarações aumentam seu orgulho, como estar dentro da melhor denominação, aluno do melhor seminário e vindo de uma igreja local que “arrotava” primazia.

Uma volta à humildade, rejeitando modelos pouco produtivos das instituições, e estando abaixo da verdade, de outros irmãos (cf. Fl 2,3) e da grandeza da vocação. É preciso treinamento, uma busca diária e a aquiescência com Deus quando ele, por sua iniciativa, livra-lo-á dos grilhões da arrogância por meio de situações concretas de abatimento (note a voz passiva do verbo “humilhai-vos” em I Pe 5,6, que torna Deus como o agente da humilhação do crente, para exaltá-lo em tempo oportuno).

2. A RETOMADA DA ALEGRIA
2.1 – Restabeleça as velhas e nutridoras relações (v. 9)
Os cristãos gostam, muitas vezes, de apostar no acaso. As decisões são tomadas sem a devida cautela de pensar em todas as variáveis possíveis. O rompimento de relações, por exemplo, pode trazer conseqüências inesperadas. Uma troca de residência não pode ser analisada simplesmente pelo conforto da próxima moradia. Uma transferência de trabalho não pode ser vista somente pela ótica da vantagem. Há muita coisa em jogo.

As relações são formadas através de anos, depois de desencontros consertados, indiferenças vencidas e tensões superadas. Novas relações implicam voltar ao marco zero para começar tudo de novo. É compreensível que as pessoas se sintam desgastadas depois de um longo período na formação de laços fraternais. Novos relacionamentos podem acrescentar um desgaste e puxar o outro, que estava num cantinho, sob domínio em face da qualidade das relações. Sem o amparo desses novos envolvimentos, a tensão pode eclodir e somar-se a novos desânimos.

Há milhares de crentes que não foram felizes na troca de domicílio, inclusive sob as mais abençoadas das intenções. Se não for possível manter o mesmo domicílio de fraternidade, e se a mudança for inevitável, as velhas associações deverão ser mantidas a todo custo. É preciso disciplina para mantê-las, e não ter medo de usar toda tecnologia à disposição. A questão é entender que as relações novas chagam para somar e não para substituir.

O esfriamento, neste caso, tem locações mais sociológicas que teológicas. É o mesmo que falar das dificuldades que as pessoas rurais encontram quando são surpreendidas pelo estilo e ritmo da vida urbana. O importante é que as pessoas entendam que é o preço que pagam na busca de um futuro melhor. Por isso, quando uma igreja envia seu missionário deve, concomitantemente, planejar recursos e estratégias para manutenção das relações, e isso deverá fazer com grande eficácia, fugindo dos modelos tradicionais de envio.

2.2 – Humildade
Aqui é a sede das dificuldades dos cristãos: reconhecer seus limites sem perder a ternura e o otimismo. O esfriamento espiritual tem relação com os próprios fracassos pessoais, mais que com sistemas. É impossível que as pessoas não se energizem somente pela reflexão da frase “Cristo morreu pelos nossos pecados”. Não há verdade mais sublime e mais motivadora do que essa. É uma afirmação de amor pessoal, de um Deus que está a favor de todos os que confiam nele, apesar dos pecados que cometem. É a solução definitiva para a escravidão que o pecado produz. É a bênção de ser livre!

O orgulho, a “cortina de fumaça”, impede que o crente veja nitidamente quem é. Assim, ele imagina e fantasia sobre sua própria identidade, supervalorizando as próprias qualidades e reduzindo os defeitos. Isto aumenta a frustração com o contato com as coisas espirituais e identifica somente nos sistemas a raiz da sua fadiga. Não se discute a influência das estruturas sobre os indivíduos, mas há um comando bíblico para que o aquecimento seja produzido por meio da obediência direta do “reavives o dom que há em ti”. Aqui não se pode acomodar ao fato da soberania de Deus, porque em sua soberania ele indica que a responsabilidade é individual em conexão com o coletivo.

Esta parceria do divino com o humano é fundamental. Deus permite o “fogo” quando há a desobstrução dos canais de aquecimento, e a alimentação da chama com a “lenha” da humildade. A igreja em Laodicéia era cega de que era pobre, infeliz, miserável e nua (cf. Ap 3,17). Era uma coletividade incapaz de ver que não via, de juntar os bens e entender que era pobre, de somar as realizações e perceber que era miserável, e de não ser capaz de tocar em suas vergonhas para saber que estava nua. É a “cortina de fumaça” na mente que aumenta o valor que possui, que diminui os defeitos aquém daqueles existentes e que fecha os fóruns íntimos que discute a possibilidade de um reaquecimento.

A humildade não permite ao crente interpretar indevidamente a graça divina. Tal assunto teológico não pode ser formulado, assimilidado e apresentado com frieza. Não é permitido que os temas mais fascinantes sejam manipulados por corações desanimados. É preciso antecipar a humildade ao escrutínio e da participação nas benesses do reino de Deus. O orgulho impede a contemplação e o fascínio decorrente. Sem motivação, não há busca e recepção daquela energia que a graça divina produz. A manutenção da participação não depende mais somente da bondade de Deus, cabe ao cristão reavivar aquela capacidade que lhe é inerente. Não é a busca por novas opções de trabalho, mas a do dom ofertado desde o dia da conversão. O cristão cede e confirma sua incapacidade e aclama a graça divina como o agente de todas as realizações pessoais. Nisso há muita humildade. Aqui o cristão é transcendido a realizar tarefas que somente Deus poderia produzir, mas que agora tem a participação humana porque assim ele quis. Nisso há muito prazer!

2.3 – Lembrança
Este é um aspecto da psicologia bíblica crucial para avivamento. Com o sentido de recordar informações decisivas para a vida, ela ocorre ao menos oito vezes (Mt 16,9; Lc 17,32; Jo 15,20; 16,4; At 20,31; II Tm 2,8; Ap 2,5; 3,3). Todos estes textos deixam claro que há um tipo de esquecimento, sem ser uma amnésia acidental. É um tipo de esconde-esconde com informações que supostamente agrediriam o ego, porque a qualquer momento podem ser resgatadas. Elas não são “deletadas” definitivamente, mas apenas guardadas em algum lugar no inconsciente.

O esconde-esconde pode ser divertido, produzir algum tipo de bem estar, mas as informações que participam são eternas, sérias e necessárias para a sobrevivência do crente. A igreja em Éfeso tinha boas credenciais de um grupo sério: muita perseverança e extirpação da má doutrina dos nicolaítas. Mas, manipular conteúdos eternos com frieza abre a brincadeira do esconde-esconde e dá uma sensação de alívio. Por outro lado, declara que o depósito guardado sufocava e reprimia, porque não deixava que aqueles cristãos pudessem se sentir melhores que aqueles aos quais resistiam. Como expurgar os hereges sem se sentir melhores? Esta questão costuma ser encaminhada para o inconsciente e guardada lá

Chega o tempo em que esta solução não basta, os hereges saíram e é preciso manter o afeto para equilibrar a comunidade. Um confronto não deve devastar a promoção afetiva, porque é em nome do amor, da preservação do grupo que se mantém do lado de fora todas as informações que minimizam os efeitos e a natureza maravilhosa do sacrifício de Cristo. Recordar é preciso! Recordar é possível! Chegou a hora! Quando as coisas ficam frias, é tempo de mergulhar profundo no inconsciente e buscar o momento e a elaboração cognitiva exatos que produziram um cristianismo sem alegria.

A busca por si só é nutridora. Para chegar lá, no inconsciente, os canais precisam ser desobstruídos. As coisas, quando são ajustadas, são explicadas; os pedaços da vida se encaixam e a teologia encontra seu ponto de partida, num escrutínio com alegria. O dissabor é da heresia, o prazer da teologia que se formou com cognição e felicidade. Há um ponto no tempo quando o prazer foi perdido, este tempo não é padronizado para todos. Cada grupo deve avaliar a história e identificar a ocasião. Não é difícil, basta que os mais antigos se lembrem dos momentos memoráveis e depois dos tempos de esfriamento, entre os dois tempos está o causador da perda da alegria. O grupo será capaz de lembrar, porque Deus deu o comando para fazê-lo e dá capacidade para executá-lo.

Muitas surpresas aguardam os participantes dessa terapia de grupo. As coisas boas perdidas serão facilmente readmitidas porque já fazem parte da história da comunidade. Lágrimas serão derramadas quando, por razões de autoproteção, for descoberto o momento e as elaborações que esfriaram o grupo. Será um êxtase de lágrimas e alegrias, como aquele que se viu e ouviu depois que o templo foi reconstruído por Zorobabel (cf. Ne 12,43). Descansemos à sombra para recordar!

2.4 – Substituir paradigmas provisórios que sustentam temporariamente e trocá-los por princípios eternos
A desilusão com a sã doutrina abre porta para novos valores, que são verdadeiros pontos de partida, criando uma nova base hermenêutica. Aqui todo cristão faz seu arranjo ético para sobreviver, o qual considera correto porque certas condições o obrigam a tal. Arranjos devem, no máximo, ser temporários, que não sejam ensinados a outrem como verdade, que não interfiram no plano de salvação e que não sustentem toda existência.

A vida em sociedade, estruturada no pecado, coloca em confronto valores éticos universais (e.g. Raabe e as parteiras hebréias mentiram), situações difíceis para quem é limitado por esta vida. Estas negociações éticas trazem resultados que podem se maléficos para outras pessoas; neste caso, devem ser abandonadas, e podem até receber sanção da sociedade. É importante viver à luz dos padrões ideais, e entender que certos arranjos devem ser temporários.

As adaptações que Timóteo estava fazendo, não tendo coragem de anunciar a sã doutrina, adaptando sua mensagem às situações de ostensiva pressão, abandonando todo o poder que o carisma lhe proporcionava. O recuo escondeu as emoções passadas com o reino de Deus (as lágrimas) e a fé em Jesus. A confiança ficou abalada e ele não tinha instrumento melhor de apoio que a fé no Deus da sã doutrina.

CONCLUSÃO
Ricardo Gondim, em Desabafo (Ultimato, Ano XXXVII, julho-agosto de 2004) fez várias denúncias sobre o desmantelo presente nas igrejas evangélicas. Seria um artigo perfeito, mas dois registros são importantes: o título pode estar mostrando que o autor quer ficar à margem. Segundo, contesto a crítica feita sobre o uso dos teólogos do passado, quais seriam? Aqueles que produziram a maravilhosa teologia reformada?

Com Gondim, numerosas pessoas aderiram o discurso. Parece que são pessoas que querem ficam à margem da luta. Ele ataca as grades estrangeiras impostas à cultura nacional, mas se emocionou com Bach (e quem não se emocionaria?), e não com Luis Gonzaga, rei do Baião, cujas canções arrancam tantas lágrimas quanto uma música clássica (sem esquecer que o autor é cearense).

A luta continua, companheiros! Contra o pacote cultural estrangeiro imposto pela globalização, a música de baixa qualidade artística e teológica, o mercantilismo em nome de Deus e os conchavos corporativistas, porque são enfrentamentos permanentes desde os tempos apostólicos. Porém, o embate por si mesmo deve dar prazer, de agradecer a Deus por ver o que muitos não vêem, de saborear o que é bom, de ler a Bíblia com as lentes certas, de manter atualizada a alegria com os textos clássicos da teologia. Sejam bem vindos à festa!

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