Bases de um cristianismo sólido

INTRODUÇÃO

Na década de setenta iniciou-se em Foz do Iguaçu, onde minha família vive, a hidroelétrica de Itaipu, projetada para produzir doze milhões de kilowatts de energia, considerada por muitos a obra do século. Mas, o que me chama a atenção nessa obra são suas proporções gigantescas; dentre essas proporções está uma que me encanta: é a composição da base da barragem do vertedouro principal que comporta uma quantidade de água fantástica; sua espessura é de 140m de pura rocha, ferro e concreto.

Mas, porque uma base tão sólida? Por três bons motivos: a) caso a barragem ruísse, perderia-se muito dinheiro e tempo; b) simplesmente varreria três cidades do mapa do Brasil, Argentina e Paraguai; c) estaria comprometido todo o abastecimento de energia de uma vasta região do Brasil e do Paraguai.

Até hoje, esta base tem se mantido inabalável, mesmo sujeita às mais diferentes condições climáticas, entre elas enchentes alarmantes; o segredo do sucesso não está no topo, mas na base.

ELUCIDAÇÃO:

Considerado por muitos o maior do Novo Testamento, devido a sua influencia sobre a Teologia da Igreja Protestante e por nenhum livro conter mais do pensamento paulino do que Romanos.

Romanos foi escrito durante a terceira viagem missionaria de Paulo, durante o período que esteve em Corinto e antes de iniciar a viagem para Jerusalém a fim de levar a oferta das igrejas da Macedonia e da Grécia. Essa carta tinha como objetivo comunicar aos crentes de Roma a sua visita e oferecer-lhes sistemática e compreensiva exposição do Evangelho de Cristo.

Pois em Roma podemos dizer que estava localizada um deposito de podridão e idolatria, era uma verdadeira vitrine da sordidez humana.

A carta de Paulo aos Romanos é também uma carta universal devido ao seu conteúdo doutrinário-apologético dos capítulos 1-11, e ético-moral do 12-15.

Nós podemos facilmente traçar um paralelo entre a segunda parte da carta aos Romanos, onde Paulo chama atenção para a PRAXIA cristã e o ensino de Jesus no sermão do monte.

No texto já lido encontramos Paulo ensinando-nos a não nos conformar com este mundo; no sermão do monte Jesus fala que somos o sal da terra e a luz do mundo, somos a diferença do mundo mesmo inseridos nele; essa semelhança fica ainda mais nítida quando observamos as virtudes recomendadas por Paulo em Romanos 12. 12-21 e o conjunto dos ensinos de Cristo.

Paulo recomenda: ameis sem hipocrisia uns aos outros, sejam perseverantes na oração, amem vossos inimigos, sejam humildes, não paguem mal com mal; se possível tenha paz com todos.

Jesus disse: ” Tudo que quereis que os outros vos façam, fazei vós a eles, amais os vossos inimigos e orai pelos que vos perseguem, bem-aventurados os pacificadores, não resistais aos perversos, mas qualquer que ti ferir a face direita dai-lhe também a esquerda; entre tantos outros ensinamentos, dá-nos até a impressão que Paulo teria tido acesso a estes ensinos de Jesus devido a sua profundidade e clareza quanto à prática cristã.

E assim o texto lido Rm. 12. 1,2 é o carro chefe das exortações práticas e éticas de Paulo endereçadas aos romanos, e esses versículos constituem uma parte de extrema importância na fundamentação da vida cristã romana.

Por isso gostaria de convidar os amados irmãos a meditarmos nessa manhã sobre:

BASES DE UM CRISTIANISMO SÓLIDO

1º) UM CULTO RACIONAL

Há em nossos dias uma verdadeira “guerra” por assim dizer entre as igrejas protestantes mas especificamente pentecostais X tradicionais, em relação em como se deve cultuar, até parece a questão existente entre os judeus e os samaritanos quanto ao local que se deve adorar ( João 4); os tradicionais acusam os pentecostais de místicos; os pentecostais acusam os tradicionais de racionais. E no meio dessa confusão teológica encontram-se ainda os que não sabem para onde ir.

Mas será que há realmente uma diferença gritante entre razão e emoção?

Analisemos o que Paulo que dizer com a expressão: “tem logiken latreian”.

“Latreian”era uma palavra usada originalmente para designar uma jornada de trabalho; ou seja , homens que davam sua força por pagamento; não era uma escravitude mas uma aceitação voluntária de trabalho em troca de pagamento, chegou então a significar somente servir.

Também chegou a significar “aquilo a que o homem dedica a totalidade de sua vida.”

Por fim “latréia” tornou-se a palavra característica usada para o serviço “aos deuses” .

Na Bíblia nunca significa serviço humano, sempre é usado como serviço e culto a Deus; uma adoração.

Já “Logiken”; que pode ser traduzida por racional e razoável; mas que em si têm um sentido muito limitado.

A melhor tradução para essa palavra, de acordo com os mais modernos, e também os antigos dentre eles Calvino, é espiritual; não que o culto, não deva ser racional e razoável; mas para o que Paulo tencionava espiritual cabe melhor.

Com isso irmãos relendo o versículo temos a seguinte composição “Rogo-vos, pois, irmãos pelas misericórdias de Deus; que apresenteis vosso corpo por sacrifício vivo ,santo e agradável a Deus, que é o vosso culto ou adoração espiritual.”

Mas o que caracteriza esse culto ou adoração espiritual?

Ele é constituído por uma vida sacrificial, na qual nosso corpo é uma oferta diária a Deus; algo totalmente livre.

Um verdadeiro contraste, uma antítese ao culto judaico, era o conceito inverso do cerimonial judaico, que era cheio de regras e simbologias, na qual a vida do sacrifício era tirada antes de ser oferecida.

A proposta de Paulo não está relacionada a sangue de cordeiros e touros, mas está ligado a um ser vivo com vontade e desejos, o que se sacrifica não é mais só a carne mas todo o ser, toda a personalidade.

Não há lugar o mecanicismo judaico no qual o racionalismo-intelectivo dominava; há agora o espiritual; porque o homem sacrificado possui razão, mas é um ser espiritual.

Culto espiritual é uma relação de interação entre o homem e Deus na qual em hipótese alguma Deus será deixado em segundo plano.

“Culto espiritual é aquele no qual oferecemos nossa vida a cada dia, a verdadeira adoração não é algo que se possa realizar dentro somente da igreja, o verdadeiro culto é ver o mundo como o templo do deus vivo e em cada ato comum, um ato de adoração”. William Barclay.

Essa “adoração espiritual” usada aqui por Paulo é o mesmo termo para aqueles que adoram a Deus no Espírito.

“Porque nós é que somos a circuncisão nós que adoramos a Deus, no Espirito e nos gloriamos em Cristo Jesus e não confiamos na carne. (Fp 3:3)”.

E também se relaciona com João 4:23,24.

“Mas vem a hora , e já chegou, em que os verdadeiros adoradores, adorarão o Pai em espírito e em verdade, porque são estes que o Pai procura para seus adoradores.

Deus é espirito; importa que seus adoradores adorem em espirito e em verdade”.

Diante disso Paulo deixa claro que o culto espiritual não extingue a razão como querem os pentecostais, e também não extingue o místico como defendem os tradicionais; o termo espiritual engloba os dois termos, não erradicando-os , mas equilibrando-os por meio do Espirito de Deus que leva a igreja a prestar uma adoração espiritual que envolve coração e mente o que na minha opinião difere do conceito vigente atual.

“Latreian Logiken”, extrapola as paredes do formalismo e transforma nossa vida em uma liturgia constante de celebração ao Senhor e nos possibilita a ter a visão de William Barclay que disse: “Um diz: Vou a igreja adorar, mas também deveria dizer: vou a fábrica, a oficina, a escola, a garagem, a mina, ao estaleiro, ao campo, ao jardim para adorar a Deus.”

Tudo por meio de uma vida sacrificial expressada assim por Crisóstomo.

“Como pode um corpo tornar-se um sacrifício vivo?

Que os olhos não contemplem o mal, isso importa em sacrifício, que a língua não profira nenhuma vileza e isso será uma oferta; que as mãos não operem o que é pecaminoso isso eqüivale a um holocausto. Além disso, pois isso não é o bastante; devemos nos esforçar em favor do bem, as mãos dando esmolas, a boca bendizendo aqueles que nos amaldiçoam, e os ouvidos sempre prontos para dar atenção a Deus.”

Culto espiritual é a mente e coração sacrificados em adoração a Deus.

E isso responde a pergunta inicial. Há realmente uma diferença gritante entre razão e emoção?

Em minha opinião não há. Ambas fazem parte da adoração a Deus, só se tornam diferentes quando estão desassociadas , o que transforma o culto em algo manco.

2º) UMA IDENTIDADE DEFINIDA

Jesus disse que deveríamos ser caracterizados pelo amor ;mas o que vemos hoje nossos arraiais é justamente o contrário, uma descaracterização contínua não ligada somente ao amor a marca maior; mas num todo; mas uma vez gostaria de fazer a relação pentecostais – tradicionais .

Os pentecostais que perderam sua identidade o sincrético e os tradicionais ao absorverem o humanismo.

Como recuperar a identidade?

Analisemos a expressão: “suskematizethe” que pode ser traduzida por não vos conformeis; não vos modeleis; não tomeis a forma; não assumam a moda.

A raiz dessa palavra é “esquema”, um esquema de vida que varia dia após dia, por exemplo uma pessoa com dezessete anos tinha um esquema de vida, hoje com cinqüenta possui completamente outro.

Temos aqui um imperativo que dentre seus muitos sentidos expressa, uma ordem, uma proibição, um pedido, uma exortação.

Neste caso especificamente está no presente médio que representa uma ação durativa.

Isso nos faz ver que Paulo ao desafiar a busca pela identidade, chama a igreja a uma vida de não conformação constante, algo tão diário como nosso culto espiritual. Paulo está sendo enfático, em outras palavras não está pedindo por favor, ele está falando aos romanos sobre algo inegociável, a relação deles com o mundo.

Não deveria haver relação alguma entre eles e o mundo; a não ser o fato de está no mundo; mas o fato de está não permite amoldar-se, conformar-se.

Não deve haver interação entre os cristãos e o presente século, porque onde houver essa relação só um sobreviverá, em outras palavras, ou a igreja evangeliza o mundo, ou o mundo seculariza a igreja.

Talvez essa relação de não conformação fique melhor exemplificado num dialogo que travei sobre um determinado filme, que havia uma relação homossexual; ao comentar o filme com minha cunhada disse que era um bom filme; ela me respondeu que não queria ver para que não achasse aquela relação normal; o mais interessante é que ela sequer é evangélica.

Devemos atentar para a paráfrase que Barclay faz desta parte do versículo:

” Não emparelheis vossas vidas com todas as modas do mundo; não sejais como o camaleão que toma a cor do mundo que o rodeia; não sigais o mundo e não deixeis que o mundo decida como sereis.”

Diante disso analisemos uma outra palavra que como a expressão anterior é um imperativo, só que não na forma negativa, mas sim uma positiva de incentivo.

” Metamorfousthe”, a raiz dessa palavra é “morfe” que significa algo invariável; exemplificando: Um homem tem um esquema aos dezessete anos e outro aos cinqüenta, mas tem a mesma forma ainda que seu aspecto varie, ele é invariavelmente a mesma pessoa.

Por isso, se faz necessário uma transformação, ou seja, uma ação de mudar a forma; porque por nós mesmos vivemos uma vida dominada pelo mais baixo nível da natureza humana. Mas em Cristo vivemos uma vida dominada por Ele, ou pelo Espirito Santo.

E essa transformação é que em linguagem paulina é chamada “a imagem de Cristo em nós”.

Mas é muito fácil falar em não conformação e transformação, o difícil é providenciar um meio para que essa realidade venha a tona; no projeto traçado por Paulo esse meio foi devidamente providenciado.

O meio é: ” ANAKAINOSIS DA NOOS”, ou seja, a renovação da mente.

A palavra usada para mente “NOOS” é a mesma usada constantemente no vocabulário grego de filosofia; que não expressa só a intelectualidade, mas uma idéia de espiritualidade; que deixa esse versículo nessa parte assim : “Mas transformem-se internamente, pela renovação do vosso espirito.”

Não é esse um dos principais propósitos do evangelho, a promoção da transformação, uma renovação do espírito humano que jazia morto em “delitos e pecados”; mesmo eles sendo cristão não a ação do verbo que é durativa, não deve haver uma estagnação na renovação do “NOOS”.

Essa renovação implica no abandono, crucificação e morte do “velho homem”, para que Cristo implante em nós tudo novo, novos princípios, novas leis, novos objetivos e novas esperanças e por meio dessa renovação somos transformados em novos homens e uma nova humanidade; pois agora temos a “mente de Cristo”, é sempre nova.

Essa recuperação da identidade tem uma força muito grande sobre nosso viver; mas também sobre os outros devido o nosso testemunho.

Dessa forma traçamos a seguinte relação:

Não conformação + transformação pela renovação = igreja autentica.

3º) UM VIVER EXPERENCIAL COM DEUS

“EIS TÓ DOKIMAZEIN”

Uma igreja que sabe cultuar; não conformada mas transformada pela renovação da mente, está apta para experimentar algo profundamente singular: A VONTADE DE DEUS, que coroa a igreja pelo sucesso nas fases anteriores com esse prêmio.

Antes de discorrer sobre “DOKIMAZEIN”, gostaria de definir experimentar filosoficamente.

“É a tese que todo o conhecimento está alicerçado sobre a experiência”. Mais conhecido como empirismo.

A palavra “DOKIMAZEIN”, traduzida mais freqüentemente por “experimenteis’

pode também receber os seguintes significados:

“escolher cuidadosamente”(Jerônimo);

“aprendais” ( Stuart)

“conhecer experimentalmente”( Dodridge).

Calvino disse que esse significa 3 coisas:

Um teste: como quando expomos um metal ao fogo.

“Aprovar o que já está provado

Nesse aspecto esse aprovar, não é para a vontade de Deus; mas devo aprová-la em minha vida por meio da experiência, se faz necessário que eu constate na prática pessoal o que já esta provada na teoria e na prática das outras pessoas.

Isso nos leva a Jó 42:5 “Eu te conhecia de ouvir falar mas agora meus olhos te vêem.”

“Provar para fazer minha própria distinção, ter meu próprio discernimento e entendimento.

Calvino acha essa última idéia mas apropriada nesse contexto que deixa o versículo assim: “que vós possais entender o que é a vontade de Deus, a qual é sempre boa, perfeita e agradável.”

Apesar dessa gama de significados o que fica realmente mais forte é a palavra experimenteis; mais essa palavra trás em si um sentido muito amplo nossa vida deve ser um constante experimentar, seria por assim dizer um viver experiencial ; que é algo individual, interno, racional e espiritual.

Como o trabalho de um degustador que um dia após o outro prova alimentos e vinhos e os classifica aprovando-os ou não, nós devemos por as situações a experimento para que saibamos qual o sabor que elas terão em nossa vida cristã e quando sentimos em nosso paladar o sabor da vontade de Deus, constatamos o que é dito a respeito dela; só que agora para nós.

Provamos que ela é :

boa: o sumo bem

agradável: em contraste com tudo o que é arbitrário.

perfeita: como reflexo da essência do Seu dono.

E dessa forma como um degustador sabe quando algo é de qualidade, poderemos então saber é a vontade de Deus ou não.

Experimentar ou viver experiencialmente cada situação é antagônico ao pragmatismo vigente em nossos dias; pois experimentar nos leva ao contato com o objeto do experimento ou seja experimentar a vontade de Deus, envolve estar e permanecer em contato com Deus.

Talvez “DOKIMAZEIN” faça sentido para os adeptos da vida cristã fast-food ou da geração caixa eletrônica, que querem tudo rápido sem o menor esforço.

“Dokimazein” da vontade é algo importantíssimo na relação indivíduo – Deus; pois essa relação de interação e viver experiencial não só nos revela a vontade do Pai, mas nos revela o Pai.

E assim dessa forma Paulo conclui as bases para uma conduta prática na vida da Igreja em Roma e da igreja cristã como um todo.

Portanto :

Culto espiritual + igreja autêntica + viver experiencial da vontade de Deus = BASES DE UM CRISTIANISMO SÓLIDO.

APLICAÇÃO:

Que isso nos ensina hoje?

Para a igreja em geral, há a necessidade de uma reflexão total de atitudes e valores, no qual há de ser revista nossa relação com o culto, com o mundo e com a vontade de Deus.

A nós futuros pastores, e aqui carinhosamente me dirijo aos colegas formandos aos quais cabe a importante tarefa de iniciar novos trabalhos, reedificar antigos ou consertar os existentes, Romanos 12:1,2, não é somente uma exortação prática, mas sim o cerne de toda uma caminhada cristã e assim se faz necessário olhar para a igreja em Roma para edificar a sua igreja , que se não tiver uma base sólida ruirá.

E ao demais que permanecerão, entre esses eu, aprendamos com Roma para prosseguirmos para o alvo e possamos ter uma igreja com uma base cristã sólida.

CONCLUSÃO

Já se passaram vinte e um anos desde o início da construção de Itaipu e sua base continua sólida e inabalável propiciando assim condições favoráveis para a produção de energia.

A minha oração é que nós possamos não só edificar uma igreja sob bases sólidas, mas que através de nossas bases possamos ser verdadeiras usinas produzindo energia e influenciando a todos ao nosso derredor.

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