Caminhando, mancando e cumprindo a missão

Recentemente estive pesquisando sobre a situação social de nossa nação, para preparar uma devocional para a “Cia de dança Halel”. Procurava por números e estatísticas que me ajudassem montar um quadro da realidade social em que vivemos e sensibilizar o grupo de que deveríamos fazer alguma coisa em relação a isso.
Fiquei extremamente chocado e estarrecido diante do quadro que se formou a minha mesa. Como todos os brasileiros, eu sabia que a situação está “feia” há muitos anos, que entra governo e sai governo e as coisas apenas pioram, mas eu não fazia idéia, estatisticamente falando, da miséria e do descaso em que a nossa nação está inserida.
Para você ter uma noção clara das coisas, vou brevemente expor a situação de nosso país e mostrar o porque de tanta indignação da minha parte. Os analistas políticos classificam a situação nacional em duas linhas: A LINHA DA POBREZA E A LINHA DA MISÉRIA.

LINHA DA POBREZA
Nesta linha estão representados todos os brasileiros que possuem renda básica, com um salário de aproximadamente R$ 80,00. São aquelas pessoas que não conseguem suprir as necessidades básicas de manutenção da vida humana, como: Alimentação, moradia, transporte e vestuário. Isso em um contexto onde a educação e saúde, mesmo que muito ruins, são fornecidas pelo estado.
Estão nessa lista cerca de 30 milhões de brasileiros, pessoas que trabalham de sol a sol, e com extrema habilidade, conseguem o feito de permanecerem vivas. São verdadeiros “heróis da resistência”.

LINHA DA MISÉRIA
Se a linha da pobreza lhe causou espanto e indignação, prepare-se para ficar ainda mais desesperado.
Na pirâmide da sociedade brasileira, a linha da miséria é a ultima e a mais baixa classificação econômica. Pasme, ela está ainda abaixo da linha da pobreza, ou seja, se na linha da pobreza as pessoas ainda recebem o mínimo, do mínimo para sobreviver, aqui na linha da miséria elas não recebem nem isso.
São pessoas que não conseguem garantir, aquilo que é mais básico para a vida de cada ser humano: UMA REFEIÇÃO DIÁRIA. São essas as pessoas que se tornaram alvo do programa do governo federal, o “FOME ZERO”.
Agora se você estiver pensando que são poucas as pessoas que estão neste lado da moeda, você está muito enganado. Prepare-se, segure-se na cadeira.
O número de pessoas que estão na linha da miséria da nação brasileira é de 23 Milhões de pessoas.
É como se existissem, mais ou menos, 20 cidades de Campinas/SP, cheias de pessoas gritando:
“Por favor, dê-me algo para comer, estou faminto”! ou então: “Pelo amor de Deus, meu filho está morrendo, preciso de ajuda, dê-me um prato de comida”!
Isto embrulha o teu estomago? Deixa-te indignado? Pois é, quando nos deparamos com uma situação assim a primeira coisa que vem a nossa cabeça é:
Onde estão a pessoas responsáveis para mudar essa situação? Porque ninguém faz nada?
Geralmente acreditamos que a responsabilidade de resolver essa situação é dos políticos que confiamos e votamos, para nos representar no governo. Teoricamente eles deveriam realmente resolver a situação de miséria e pobreza de nossa nação, mas, estamos “carecas” de saber que eles não se interessam por isso, pelo menos na sua grande maioria.
Sabe porque? Segundo Ricardo Mendonça, repórter da revista VEJA edição de Jan/02, a crueldade consiste em que, nas contas macroeconômicas do nosso país, a miséria é apenas um detalhe. Os miseráveis não produzem, nem consomem, portanto, eles nem entram na equação econômica de um país moderno, nem afetam, positiva e nem negativamente, o desenvolvimento econômico. Literalmente margeiam a sociedade.
* Onde, então, estaria a resposta?
Talvez você espante um pouco, mas ela está em NÓS. Nós somos a resposta para a situação de desespero e angustia que vivem essas pessoas.
Não dá para conceber a idéia de um evangelho que apenas cuide da parte espiritual de cada individuo. Bem porque não existe apenas uma parte espiritual, não há essa dicotomia entre corpo e espírito, somos seres integrais, que partilhamos de necessidades física e espirituais, porém uma está associada a outra e vice versa.
Há um chavão por ai: “Vamos evangelizar as almas carentes!” Eu nunca vi uma alma andando pela rua. Caso eu veja alguma vou amarrá-la em nome de Jesus! Sai pra lá, isso é espiritismo, coisa do capeta. Eu vejo pessoas pelas ruas, pessoas tristes, desamparadas, com fome, morrendo. Vejo PESSOAS! Seres INTEGRAIS!
Se cumprirmos a missão de evangelizar o mundo, apenas olhando para o lado espiritual, deixaremos a missão “manca”, de “muletas” faltando uma parte.
Foi exatamente isso que Tiago diz em sua carta:
“Se um irmão ou uma irmã estiverem carecidos de roupa e necessitados do alimento cotidiano, e qualquer dentre vós lhes disser: Ide em paz, aquecei-vos e fartai-vos, sem, contudo, lhes dar o necessário para o corpo, qual é o proveito disso? Assim, também a fé, se não tiver obras, por si só está morta”.
Tg 2:15-17
Bom se a conversa é conosco mesmo, o que então nos falta para começarmos a fazer um reboliço e mudar a situação de nosso país, pregando o evangelho integral de Jesus Cristo? A resposta é “VERGONHA NA CARA”. Pode parecer um pouco forte, mas eu penso ser a única resposta que realmente expresse a realidade.
Crueldade maior ainda é, saber que essas pessoas, além de andarem à margem da sociedade, também andam à margem do cristianismo. A exemplo do que acontece com a economia, essas pessoas não entram nas nossas contas de crescimento e desenvolvimento da igreja. Elas não participam dos nossos ciclos de amizades, não são nossos parentes, por isso, nunca são idealizadas como pessoas a serem alcançadas por nós. Simplesmente vivemos como se elas não existissem.
Certamente o refrão da música “Pra não dizer que eu não falei das flores”, de Geraldo Vandré, encaixaria – se muito bem com a atitude que precisamos tomar.
“Vem vamos embora, que esperar não é saber;
Quem sabe faz a hora, não espera acontecer”…
Louvo a Deus porque na Shalom procuramos fazer um pouquinho da nossa parte, digo pouquinho, porque poderíamos fazer infinitamente mais do que fazemos. É ridículo ver o pessoal das cestas básicas, lutando e brigando domingo a domingo, em busca de alimentos para alimentar as famílias da nossa própria comunidade. Se não alimentamos nem a nossa própria gente, que diremos então de 53 milhões de brasileiros.
Foi pensando nisso que escolhi o texto de II Co 8:1-7, onde Paulo ensina a essa comunidade a necessidade de fazermos obras sociais.
1 Também, irmãos, vos fazemos conhecer a graça de Deus concedida às igrejas da Macedônia;
2 porque, no meio de muita prova de tribulação, manifestaram abundância de alegria, e a profunda pobreza deles superabundou em grande riqueza da sua generosidade.
3 Porque eles, testemunho eu, na medida de suas posses e mesmo acima delas, se mostraram voluntários,
4 pedindo-nos, com muitos rogos, a graça de participarem da assistência aos santos.
5 E não somente fizeram como nós esperávamos, mas também deram-se a si mesmos primeiro ao Senhor, depois a nós, pela vontade de Deus;
6 o que nos levou a recomendar a Tito que, como começou, assim também complete esta graça entre vós.
7 Como, porém, em tudo, manifestais superabundância, tanto na fé e na palavra como no saber, e em todo cuidado, e em nosso amor para convosco, assim também abundeis nesta graça.

Paulo está fazendo uma comparação muito clara nesse texto. Ele está comparando dois tipos de comunidades cristãs:
· Comunidades que se esforçam em promover o bem estar social dos mais pobres, mesmo possuindo várias dificuldades.
· Comunidades que possuem tudo para promover o bem estar social dos mais pobres, mas que ficam adiando sua ação e geralmente nunca a fazem.
Esse trecho está cheio de paradoxos, são neles que Paulo trabalha para mostrar o padrão ideal de uma igreja que se chama pelo nome de Jesus.

I – ENTENDA QUE AJUDAR OS POBRES NÃO É DEVER, É PRIVILÉGIO.
a) ESSA É A FINALIDADE DE SEUS RECURSOS.
A igreja de Jerusalém estava passando por grandes dificuldades financeiras, o berço do cristianismo estava empobrecido, espiritual e financeiramente falando. Alguns estudiosos acreditam que isso estava ocorrendo por causa do cerco dos romanos que culminaria na invasão de 70 d.c. Não creio ser uma teoria muito boa, pois teríamos que datar a carta aos Coríntios muito tardiamente.
Outros atribuem a pobreza por causa da grande euforia relatada em Atos, onde todos tinham tudo em comum, vendiam suas posses e distribuíam entre todos. Isso acontecia porque acreditavam que Cristo voltaria em questão de semanas. Como ele não voltou, os irmão começaram a reter novamente seus bens, deixando aqueles que tinham se desfeito de tudo, na mais completa miséria. Prefiro está explicação, tomando por base a atitude de Ananias e Safira. Não seria difícil crer que existissem mais irmãos como eles.
Paulo diz no versículo 1 que Deus concedeu graça às igreja da Macedônia. Essas igrejas eram as mais pobres e as mais necessitadas, porém são elas que levantarão fundos para os necessitados que estavam em Jerusalém.
Geralmente associamos a dádiva de ofertar ao fato de termos uma obrigação diante de Deus, como se fosse uma divida a ser paga que precisamos oferecer, a cada domingo, para nunca sermos acusados de “roubarmos” o Senhor.
O que você precisa entender, nesse ponto, é que tudo o que temo provem do Senhor, todas as suas riquezas e bens matérias vem de Deus, por isso quando você oferta para ajudar aos necessitados, esta dizendo ao Senhor que Ele pode continuar te abençoando com bênçãos matérias, pois você entende a finalidade que elas possuem em sua vida: “AJUDAR AOS NECESSITADOS”.

b) DEUS SEMPRE LHE DÁ O SUFICIENTE PARA VIVER E CONTRIBUIR.
Nossa segunda lição, tirada do vers. 2, é a de que nem sempre só deva ofertar aqueles que possuem bens sobrando.
A abundancia em recursos matérias, sempre esteve ligada a tranqüilidade e paz. Não é difícil ouvirmos as pessoas dizendo: “Ah, se eu tivesse a grana que aquela pessoa tem eu também faria isso e aquilo”.
Os macedônios exerceram o seu privilégio de contribuir em um momento de extrema tribulação, Paulo diz MUITA, e pobreza. Não espere que você acerte na loteria para ajudar as pessoas, comece desde já, mesmo se estiver vivendo em uma situação de aperto financeiro.
Como igreja não podemos ficar estagnados esperando o nosso caixa começar a ficar cheio de dinheiro sobrando para começarmos a fazer alguma coisa consistente na área social, aumentando número de bairros de periferia alcançados por nossas cestas básicas, etc.
c) ENTENDER O PRIVILÉGIO PRODUZ VONTADE E DESEJO DE FAZER.
No vers. 3 Paulo diz que os macedônios deram tudo o que podiam e ainda além do que podiam dar. Isso mostra-nos que entender a possibilidade de ajudar os pobres, como sendo um privilégio, permite que Deus gere em nos um coração de generosidade e de liberalidade.
A palavra generosidade, no grego, é exatamente o oposto de mesquinhez. O fato de Paulo dizer que eles deram ainda mais do que poderiam dar, não quer dizer que eles começaram a passar fome para ajudar os outros, mas, mostra-nos que, mesmo sendo uma comunidade desprovida de muitos bens, o pouco que eles possuíam, eles sabiam muito bem o que fazer com ele.
Como comenta Calvino: “Os que dão de seus minguados recursos se mostram condescendentes além de suas possibilidades, uma vez que de seus pobres meios ainda fazem alguma doação a outrem”. (comentário de II Co, página 168)
Eles não tinham os corações presos ao dinheiro, eles entendiam muito bem as palavras de Jesus que disse:
“Há maior felicidade em dar do que em receber” At 20:35

II – DESEJE ARDENTEMENTE EXERCER ESSE PRIVILÉGIO.

a) NÃO ESPERE ALGUÉM MANDAR, TOME VOCÊ MESMO A INICIATIVA.
No vers. 4 Paulo diz que eles insistiram muito para que ele lhes desse o privilégio de contribuir com a causa dos pobres.
Não fique esperando alguém lhe dizer como fazer, onde fazer, quando fazer, comece a analisar as coisas a sua volta e passe a fazer planos, ajunte alguns irmãos, seu grupo de célula, pensem juntos em alternativas que ajudarão a tirar a nossa nação dessa triste realidade.
b) SUPERE A BARREIRA DO DINHEIRO E ENTREGUE SUA VIDA.
Não permita que a falta de dinheiro seja um empecilho para que você não cumpra a sua tarefa de forma integral.
No vers. 5, Paulo diz que eles não somente entregaram seus recursos, como também entregaram a própria vida, primeiramente a Deus e depois a ele. Isso mostra o nível de espiritualidade desse povo, que encarava a oferta como algo tão importante quanto orar, ler a palavra e dedicar-se a piedade.
Isso me faz lembrar dos “Morávios”. Aqueles cristãos que em alguns séculos atrás se vendiam como escravos para evangelizar povos onde era proibida a entrada de missionários.
Vemos muitas pessoas que entregam fortunas em dízimos e ofertas. Pessoas que possuem vastos recursos e até, muitas vezes, ajudam muitas pessoas. Mas essas pessoas apenas despejam seus recursos nas igrejas, mas não se envolvem com as vidas das pessoas, transformando suas ofertas em nada, conforme diz I Co 13:3.
O texto mostra que não basta dar o dinheiro, é necessário que o seu coração seja depositado junto com as suas “notas”. O Senhor não precisa de dinheiro. Para Deus o ouro e a nossa prata não são mais e nem menos valiosos. Deus quer que você siga o exemplo daquela viúva pobre, que depositou duas pequenas moedas, porém que colocou junto o seu coração (Lc 21:1-4).

III – TENHA UMA ESPIRITUALIDADE INTEGRAL.

Ajudar aos necessitados faz parte do crescimento espiritual. Encerrando a sessão, no vers. 7, Paulo diz que da mesma forma que os coríntios eram muito bem providos de dons do Espírito Santo, conforme ele mesmo havia afirmado em sua primeira carta no capítulo 1:7, eles precisavam desenvolver a responsabilidade social com os necessitados.
Não adiante você se encurralar em nossos templos, em nossas células, em nossos grupos, se você não entender que uma espiritualidade segundo o coração de Deus, é composta de ações de cidadania e solidariedade, você será um cristão fraco e impotente, que estará andando em desobediência.
Deus nunca separou a vida espiritual da vida social, Deus nunca ordenou que fizéssemos apenas as coisas concernentes a alma/espírito das pessoas, muito pelo contrário, veja o texto de Is 58:6,7,10,11:
“6 O jejum que desejo não é este: soltar as correntes da injustiça, desatar as cordas do jugo, pôr em liberdade os oprimidos e romper todo jugo? 7 Não é partilhar sua comida com o faminto, abrigar o pobre desamparado, vestir o nu que você encontrou, e não recusar ajudar o próximo? 10 Se com renúncia própria você beneficiar os famintos e satisfazer o anseio dos aflitos, então a sua luz despontará nas trevas, a sua noite será como o meio-dia. 11 O Senhor o guiará constantemente, satisfará os seus desejos numa terra ressequida pelo sol e fortalecerá os seus ossos. Você será como um jardim bem regado, como uma fonte cujas águas nunca faltam”.

CONCLUSÃO
Só encontraremos a espiritualidade que tanto desejamos, o avivamento que tanto ansiamos, aquela porção de poder que nossa alma geme, dia e noite, quando entendermos e começarmos a colocar em prática tudo aquilo que ouvimos e acabamos de aprender.
Não seja uma daquelas pessoas que travará o seguinte dialogo com Jesus no dia da prestação de contas:
– Jesus diz: Ah! foi você que permitiu que eu pegasse pneumonia, todas aquelas vezes, sendo que sua gaveta estava cheia de blusas que você nem usava?. Foi você que me deixou desmaiar de fome, todas aquelas vezes, sendo que todos os dias você jogava fora resto e mais restos de comida? Foi você que passou pelas calçadas onde eu estava deitado, doente, com febre, com a perna cheia de feridas, e nem ao menos parou para saber se eu estava precisando de algum remédio?
Você já sabe como essa história termina não é? Caso não saiba dê uma olhadinha em Mt 25:31-46. Não seja uma dessas pessoas que será lançada no fogo, no inferno, bem porque, se você é um salvo, você não irá mais para o inferno, portanto, a sua única alternativa é portar-se como um servo justo e fiel e acolher ao pobre e necessitado como se estivesse acolhendo o próprio JESUS!

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