Da Igreja que somos à Igreja que precisamos ser

1) Introdução:

Em tempos de Concílio, deixem-me acrescentar uma breve visão sobre a Igreja, a partir da visão missionária que o Bispo tem para a Igreja na Primeira Região, sempre baseado nas Escrituras, em João Wesley e nos documentos e decisões da Igreja. Ou seja, como podemos tornar os desafios bíblicos e wesleyanos presentes em nossos documentos, em ações que nos tornem efetivamente uma Igreja Missionária a Serviço do Povo.

2) Igreja: Um movimento de Fé que move a história.

O quadro por que atravessa o Brasil desencoraja qualquer otimista; mas não deve desencorajar homens e mulheres de fé! Fico desolado ao ouvir colegas de ministério expressarem-se acerca da Igreja, do povo e da Missão com tristeza e pessimismo. O pior é quando passamos ao povo esses sentimentos de pessimismo, incredulidade e dúvidas através de nossas mensagens. Nosso povo vai atuar na missão na medida de nossa fé. Se cremos em um Deus que move montanhas, seremos capazes de mobilizar nosso povo a mudar o bairro, a cidade e o país, no poder e autoridade do nome de Jesus. A realidade, já dita por diferentes teólogos, é que “há poder em nossas palavras”. Para jogar o povo na prostração e incredulidade, ou lançá-lo com alegria em marchas missionárias, que pela fé, mudam a história.
Eu creio profundamente que nós podemos ser parte desse mover e agir de Deus na história do nosso Brasil. E, assim, atuarmos, para que haja vida plena para todos os brasileiros e brasileiras.
Estou convencido de que essa mudança tem de começar no coração dos/as pastores/as responsáveis pelo rebanho. Se você não consegue crer nisso, está na hora de você ficar a sós com Deus, que um dia chamou você, e confessar-lhe suas dúvidas e dificuldades, e pedir com sede o dom da fé, a fé que remove montanhas (cf. Mc 11.20-25), que muda a história de um povo. São palavras de fé que movem a história e constroem um mundo novo.

3) Jesus: A prioridade da Igreja

Uma centralidade na cristologia é decisiva. Cristo funda a Igreja, a qual é o seu corpo. Não há Igreja sem Ele. Parece o óbvio, mas, em tempos de modismos doutrinários, é decisivo cantar e ensinar: “Da Igreja o fundamento é Cristo o Salvador” (HE 205).
Por que enfatizar isso? Porque vivemos em tempos de materialismo religioso. Explico. Trata-se de uma sociedade, onde a grande prioridade é ter, possuir; a corrida do consumo é o grande anseio da alma das pessoas. O mercado tornou-se uma grande divindade; atender suas exigências tornou-se a grande cerimônia religiosa dos nossos dias. Alcançar o bem material desejado torna-se uma grande compensação. As igrejas se rendem a ele. A salvação é a prosperidade, é o possuir um negócio próprio, uma casa, um carro. Não consigo ouvir em nenhum dos testemunhos contemporâneos na televisão a genuína alegria de encontrar Cristo, e a esperança da eternidade com Deus. Está tudo descrito em bens materiais.
Jesus é instrumentalizado para o consumo, e, com isso, Deus, também, foi posto ao serviço do mercado. Está certo isso? Estaria salva uma pessoa que, tendo aceitado Jesus, continuasse desempregada? Segundo algumas teologias, a resposta seria não.
Mas qual é a teologia dos Evangelhos? Antes de responder, deixem-me citar o Pr. David Wilkerson : “Acredite ou não, muitas pessoas de bem que estão envolvidas em realizar empreendimentos maravilhosos não irão para o céu. Pior do que isso, muitos, que se consideram cristãos e estão convencidos de que irão para o céu, ficarão de fora, mesmo não estando envolvidos em pecados grosseiros como pornografia, e outros moralmente condenáveis.” O que tem a ver esta afirmação de David Wilkerson com o que falávamos? Simples, Jesus não é uma opção religiosa entre diversos outras que o mercado oferece, quase sempre segundo o conceito: O que eu ganho com isso? Jesus nos ensinou: “Muitos, naquele dia, hão de dizer-me: Senhor, Senhor! Porventura, não temos nós profetizado em teu nome, e, em teu nome, não expelimos demônios, e, em teu nome, não fizemos muitos milagres? Então, lhes direi explicitamente: nunca vos conheci. Apartai-vos de mim, os que praticais a iniqüidade.” (Mt 7.22-23).
A salvação, no Evangelho, pode representar a renúncia às posses, como foi no caso de Zaqueu: “Entrementes, Zaqueu se levantou e disse ao Senhor: Senhor, resolvo dar aos pobres a metade dos meus bens; e, se nalguma coisa tenho defraudado alguém, restituo quatro vezes mais. Então, Jesus lhe disse: Hoje, houve salvação nesta casa, pois que também este é filho de Abraão.” (Lc 19.8-9). Aqui, fica claro que é Jesus, como autor da salvação, que espera que tiremos do nosso coração nossos ídolos; aquilo que mais almejamos deve dar lugar a ELE. Zaqueu perdeu a riqueza para ganhar a Cristo e a Salvação. O contrário do jovem rico (cf. Lc 19.18-23).
Por isso, a Igreja de Cristo rompe com o mercado, o consumo. Quantas vezes temos deixado de ofertar a missões, a projetos sociais, porque estamos economizando para comprar um vestido novo, um carro mais novo, ou mesmo um aparelho de televisão? Ou, como igreja local, priorizamos uma guitarra nova em vez de investir na congregação da periferia, ou mesmo ajudar famílias mais carentes. Vede o ensino do discurso missionário de Jesus. (cf. Mt 10.5-10).
Assim, a salvação está relacionada à afirmação de Jesus no Sermão do Monte: “Buscai, pois, em primeiro lugar o seu reino e a sua justiça, e todas estas cousas vos serão acrescentadas.” (Mt 6.33).
Sim, seguir o ensino de Jesus conforme viveu Paulo: “Logo, já não sou eu quem vive, mas Cristo vive em mim; e, esse viver que, agora, tenho na carne, vivo pela fé no Filho de Deus, que me amou e a si mesmo se entregou por mim.” (Gl 2.20). Sim, Jesus como prioridade, fé centrada nele, valores orientados por seu Evangelho e uma viva dependência de sua graça salvadora são caminhos da salvação, e o único modo de ser Igreja de Jesus.

4) A Igreja: Valoriza, reconhece e escolhe a Cruz.

A cruz é uma realidade. Ainda que alguns tentem escondê-la, ela é o maior símbolo do Cristianismo. Hoje, há tentativas de transformar a fé cristã numa religião da negação do sofrimento, da exaltação, do prazer e da prosperidade. Mas o Cristianismo, embora considere alegria, prazer, prosperidade, frutos da vida cristã, não tem vergonha da cruz; pelo contrário, a considera o poder de Deus. Não foge da cruz, mas a assume a cada dia. Afinal, foi esta a ordem de Jesus: “Dizia a todos: Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, dia a dia tome a sua cruz, e siga-me. Pois quem quiser salvar a sua vida perdê-la-á; quem perder a vida por minha causa, esse a salvará.” (Lc 9.23-24). Não escolher a cruz, nos termos das palavras de Jesus, é escolher o mundo, é perder a verdadeira vida.
Aprendamos com o Rev. Dietrich Bonhoeffer : “Esta cruz é colocada sobre cada crente. O primeiro sofrimento cristão, que cada qual tem de experimentar, é a chamada para cortar a ligação com este mundo. É a morte do homem velho no encontro com Jesus Cristo. Quem entra para o discipulado entrega-se à morte de Jesus, expõe a sua vida à morte; desde o princípio que assim é; a cruz não é o fim pavoroso de uma vida piedosa, feliz, antes, se ergue no começo da comunhão com Jesus Cristo. Cada chamada de Cristo conduz à morte. Quer, com os primeiros discípulos, devamos abandonar casa e profissão para O seguir, quer, com Lutero, saiamos do claustro para ingressar na vida secular, em ambas as coisas, a mesma morte nos aguarda, a morte em Jesus Cristo, a extinção do nosso velho homem na chamada de Jesus.”

5) Igreja: Uma comunidade fraterna.

Há, no Novo Testamento, expressões que marcam definitivamente o modo de ser fraterno da Igreja: “Perseveravam […] na comunhão, no partir do pão e nas orações […] Todos os que creram estavam juntos, e tinham tudo em comum.” (At 2.42,44).
Temos sido ameaçados por uma visão que tem se tornado hegemônica no meio neo-evangélico brasileiro, a qual tenta implantar uma Igreja que, ao invés de ser uma família, onde todos buscam se conhecer, amar e apoiar-se mutuamente, por uma Igreja rodoviária, onde multidões chegam e a maioria não se conhece, ficam pouco tempo ali, e, em seguida, partem por diferentes caminhos, para destinos desconhecidos. Reconheço que a grande maioria dessas pessoas tem tido uma experiência real com Deus, mas também observo que muito poucos têm avançado desta experiência com Deus, para uma experiência no caminho do Discipulado, do seguimento a Jesus, ou, menos ainda, têm experimentado a vivência da fé no nível que Atos 2. 42-47 narra.
Isso não quer dizer que, porque queremos ser uma família, devemos ser uma comunidade de fé pequena. Não, não é isso que estou querendo dizer. Cito o exemplo de João Wesley, o qual, na medida em que as multidões iam se convertendo, ia organizando as Sociedades Metodistas, que eram grupos de comunhão, fraternidade e ajuda mútua para o crescimento na fé. Esse princípio é usado hoje na Igreja Metodista que mais cresce no mundo, a Igreja Metodista da Sarça Ardente, pastoreada pelo Bispo Sundo Kim, e que já está ultrapassando os 90.000 membros. Esta igreja local, em Seul (Coréia), tem algumas centenas de grupos de integração, onde as pessoas vão aprendendo a viver a fé cristã e a exercer o amor, a santidade e a justiça, e, assim, tornam-se transmissoras da fé cristã.
Nossas igrejas locais precisam ser uma comunidade fraterna, e, eu diria, terapêutica. As pessoas estão carentes de atos de amor, e creio ser nossa vocação propiciarmos um espaço de acolhimento que seja restaurador da dignidade humana, e da criação de Deus, desfigurada pelo pecado.

6) Igreja: Da Comunhão à Conexidade e Unidade.

Da experiência da multiplicação dos pães ao quadro da última Ceia, a vida de Jesus é um constante apelo à solidariedade, comunhão e serviço mútuo em amor (cf. Jo 17).
É clara a visão que o tema nacional nos convida a sermos uma comunidade de fé, principalmente, comunidade do Reino de Deus, em constante alerta e serviço ao povo, e isso não é uma tarefa fácil. Tudo ao nosso redor conspira contra a comunhão, o serviço e a vida; a sociedade, em geral, está centrada em projetos extremamente individualistas; os políticos buscam os votos com promessas ao povo, que nunca irão cumprir, visto seus projetos serem pessoais e individualistas. Neste ano de eleições, veremos isso crescer.
Ser uma comunidade cristã é, antes de tudo, a grande ênfase e tarefa. Devemos mostrar que é possível construir uma comunidade fraterna e voltada para o apoio mútuo. Não podemos ser uma comunidade, onde irmãos se destroem e se devoram mutuamente (cf. Gl 5.15). Isso é um escândalo para o Evangelho. Temos que tomar em consideração e exemplo a vivência expressa pela comunidade cristã primitiva. O testemunho de Atos 2.42-47 nos mostra uma comunidade, onde a dor, a alegria, a refeição, a necessidade, enfim, tudo era compartilhado. Eram, de fato, uma família de fé, unidos pelo amor. Essa ênfase põe, à luz do dia, a necessidade da ligação, do relacionamento, conhecimento entre as pessoas da comunidade.
Conexidade é o nome que damos a esse relacionamento que é necessário haver entre os membros de uma comunidade, para que alcancem a UNIDADE (cf. Fp 1.9). Vamos refletir um pouco mais sobre a conexidade.
Estamos conscientes de que o mundo atual fortalece, cada vez mais, os laços de inter-dependência. Todos o seres humanos, a ciência, as comunicações, as guerras, o comércio, os movimentos culturais, o armamentismo ou a luta pela paz, pela ecologia, em todos os sentidos, há uma conexidade, até dramática, na comunidade mundial.
O mal está organizado, atua articuladamente. A política que oprime os países endividados está articulada conexionalmente através de instituições como o Banco Mundial. Até os bandidos no Rio de Janeiro têm uma conexidade: o Comando Vermelho, que é um exemplo disso. Em São Paulo, viu-se, recentemente, essa articulação criminosa agir.
Nós, metodistas, não podemos cair no congregacionalismo: somos conexionais, teremos muito maior força se nos organizarmos e compartilharmos recursos, e integrarmos nossa ação. Certamente, se vivermos a conexidade da vida do Reino de Deus, venceremos a conexidade da morte. Pois Deus está conosco.
João Wesley se preocupou em dar ao povo metodista uma base de unidade para a missão. Apenas uma atitude de abertura para a verdade bíblica e o diálogo podem sustentar, continuamente, esta unidade. A conexidade é mais que um sistema político administrativo, é uma opção de trabalho pela unidade na missão. A Igreja Metodista tem um compromisso vivo com a verdade do Evangelho e pela experiência pessoal e comunitária do Espírito Santo; exerce seu testemunho e pratica o Evangelho do Reino como força libertadora de Deus entre nós.
Essa base conexional da missão da Igreja Metodista é uma realidade que se alimenta na vida, ministério, sacrifício, morte e ressurreição de nosso Senhor Jesus Cristo. É Deus quem dá ao sacrifício de Jesus Cristo a força libertadora da vida. Nele, afirmamos que há vitória da cruz e da vida sobre a conexidade da morte. É o poder da cruz com o qual os cristãos se identificam. A santidade bíblica, tal como a praticou Wesley, se traduz em conexidade a partir de Cristo, e se traduz em amor a Deus e amor ao próximo, de tal forma que um condiciona o outro (cf. Mt 22.37-40; Jo 2.9-11).

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