Deus gosta das mulheres?

Deus gosta das mulheres ? É esta uma questão crucial que eu vou abordar com grande gosto, porque estou muito sinceramente convicta que a resposta é afirmativa e tenho passado uma grande parte dos últimos dez ou quinze anos a demonstrar que tal é verdade. Mas quando me desloquei a uma grande escola londrina para raparigas, e falei para um auditório de 300 raparigas da parte da manhã e participei num seminário com 80 raparigas da parte da tarde, estava lá uma menina com cerca de 12 anos que pediu a palavra para dizer o seguinte: ‘Parece-me a mim que, de fato, Deus gosta das mulheres, mas dizem-nos que Deus prefere os homens.’

Trata-se de um dilema que foi assim colocado de uma forma muito simples. Tenho que agradecer aquela menina o fato de ter colocado a questão desta maneira singela. Trata-se de uma questão que desacredita a Igreja ao iniciar-mos um novo milênio. Como é que a Igreja se atreve a fazer com que seja sequer necessário colocar a questão desta forma ? Como mulher católica que sou, eu sei que pertenço a uma das poucas instituições sociais ou políticas existentes que ainda exclui sistematicamente das suas estruturas, as mulheres. A Igreja reclama uma autoridade moral absoluta, e no entanto as suas decisões são tomadas por homens, por de trás de portas fechadas; o dinheiro é colocado num banco por homens, em locais secretos; a teologia que marca o nosso lugar na vida pública ou privada é construída por homens, sem contar conosco.

Não há qualquer verdadeiro sentido de colaboração ou de parceria. As mulheres são muito facilmente consideradas como o inimigo, porque somos ‘a outra’ e havendo um clero celibatário no comando da igreja então, obviamente, as mulheres serão sempre ‘a outra’, a desconhecida, a não familiar. A ética que orienta a moral pública da igreja baseia-se numa versão em ‘estado sólido’ acerca das verdades humanas e sociais. E isto deve-se ao fato que a nossa visão da moral baseia-se de alguma forma num universo que já não corresponde ao que se passa atualmente.

A forma antiga de transmissão radiofônica já não corresponde ao mundo dos dígitos, dos átomos, e processo, com o qual lidamos hoje em dia. Por isso, o ensinamento da Igreja Católica sobre a contracepção, o aborto, a homossexualidade, o divórcio, o perdão da dívida, os pecados sociais do mundo presente, a violência contra as mulheres, a violência das mulheres contra os homens, o abuso das crianças, todas estas questões, onde também se inclui o recasamento parecem está moldadas em pedra. Não estão sujeitas a uma perspectiva da moral que tem que é obrigada a enfrentar a questão do processo.

Temos que reconhecer que tudo isto não é apenas um problema da Igreja Católica. As mulheres são silenciadas na igreja, tal como o são na sinagoga, e na mesquita. Não há espaço para o nosso contributo. Se a nossa crença religiosa, e a nossa construção religiosa é projetada apenas por homens, então é evidente que não podem estar enformadas pelo contributo das mulheres. E no entanto, fico animada com as palavras de um cardeal inglês do século XIX, John Henry Newman, que escreveu o que considero constituir um pensamento muito importante: ‘Ser humano significa mudança, significa mudar; para se ser perfeito é necessário ter mudado muitas vezes.’

A Igreja Católica aspira à perfeição. Então não deverá essa Igreja procurar mudar e mudar muitas vezes ? E por isso sou levada a colocar uma pergunta simples: não será perigoso para toda a sociedade, para os rapazes jovens e para as raparigas jovens, que estão lá fora, que não se encontram dentro desta sala, que são estudantes desta faculdade, não será para eles e elas perigoso o fato da Igreja Católica ser, aparentemente, tão profundamente sexista ?

Pensem bem como é que se exerce o poder. Porque quanto a mim estas questões não têm a ver com teologia e nem sequer com sociologia, não têm sequer a ver com a nossa literacia emocional – mas antes têm a ver com psicologia – têm a ver com a forma de utilização do poder por parte dos homens e das mulheres. A forma de como negoceiam o poder. A forma como enfrentam o poder. Os dirigentes da nossa Igreja dizem-nos que estas coisas têm a ver com teologia. Pensem na forma como, quer a Igreja quer a sociedade em geral, conspiraram tendo em vista, por um lado exaltar as mulheres e por outro humilhá-las porque os mesmos argumentos são utilizados por ambas.

Alguns dos constrangimentos que são utilizados quer para nos exaltar quer para nos silenciar, poderão ser de caráter religioso, outros de caráter político e ainda outros de caráter social. Eu penso que são os religiosos que são os mais difíceis de enfrentar porque os religiosos vêm revestidos com o manto da verdade absoluta e dizem-nos que não podemos discordar. Faz-se imensa pressão emocional sobre os crentes para subscreverem os ensinamentos da Igreja Católica sobre as mulheres.

Eu quero agora citar umas palavras escritas por João Paulo I, aquele Papa que só durou 30 dias, e que ele dirigiu às mulheres italianas, quando ainda era Cardeal, mas na minha óptica resume perfeitamente a perspectiva sentimental da Igreja acerca da dignidade das mulheres:

O marido …. quererá sempre que a sua esposa tenha um aspecto bonito e uma boa figura, que se mova com graciosidade e que se vista com elegância; ele também ficará orgulhoso se ela já tiver lido Shakespeare e Tolstoy, mas ele também tem sentido prático e gosta de comer bem e por isso ficará duplamente feliz se descobrir que para além de uma linda esposa ele adquiriu uma rainha da cozinha, sem preço, e uma rainha de um chão bem limpo, e de uma casa tornada bonita por mãos delicadas e de crianças criadas como flores vivas.’

Portanto, bem-vinda seja a rainha da cozinha, a rainha de um chão bem limpo, será nisto que consiste a vossa dignidade ? Será este o vosso destino? Bem-vindo ao homem, rei do universo, para andar por cima do vosso chão bem limpo com as suas botas sujas. Eis o dilema. E vejam lá se têm lido Shakespeare e Tolstoy recentemente, para além de irem à ginástica.

Não é para admirar que eu fique escandalizada quando uma amiga me afirma ‘ quando vou à Igreja sinto que tenho que deixar lá fora o meu cérebro.’ Que desperdício de talento. E também que desperdício de algo que deveríamos verdadeiramente apreciar. Porque eu também vos quero dizer que creio que as vozes das mulheres são diferentes. Somos mais do que cozinheiras, limpadoras e cuidadoras de crianças. E temos razão por estarmos orgulhosas dos nossos talentos como cozinheiras, como limpadoras, como criadoras de crianças. Eu gosto deste destino. Eu gosto imenso de cozinhar. Mas também gosto de saber que o meu irmão também sabe cozinhar. Temos algo de distinto a dizer e quer a Igreja, quer a sociedade precisam de nos ouvir.

E então o que será isso ? O que deverá ser o contributo específico das mulheres para o diálogo da vida e do discurso humano ? O que será único naquilo que nós pretendemos afirmar ? Há muita investigação que comprova que as mulheres são boas a realizar uma multiplicidade de tarefas simultâneas. Sabemos como pôr em marcha vários projetos ao mesmo tempo porque os nossos cérebros conseguem operar em ambos os hemisférios simultaneamente. Neste mundo agitado e complicado em que agora vivemos esta é uma capacidade que devemos preservar com cuidado. Além disso, somos boas comunicadoras.

Sabemos ouvir, temos uma longa prática de escuta, e sabemos usar as palavras como um instrumento relacional. Sabemos construir a comunidade e como utilizar as palavras na tarefa da construção da comunidade. Entregamo-nos nos relacionamentos e instintivamente somos capazes de estabelecer ligações e criar redes. Sabemos dirigirmo-nos à pessoa que naquela sala se sente excluída, não sei se já repararam que quando as mulheres falam umas com as outras, gostam de se encarar face a face. Quando os homens falam uns com os outros preferem manter-se de lado, olhando para fora. Eu já tenho dado formação a mulheres anglicanas que se preparam para a ordenação e eu digo-lhes sempre: quando o prior vos for apresentado pela primeira vez não o encarem de frente, porque vão meter-lhe medo.

Fiquem de lado e olhem para fora porque assim ele não terá medo de vós e poderá melhor relacionar-se convosco. Estamos a falar de capacidades, de dons humanos, que valorizam a família humana, a comunidade humana. Eu não sou uma grande feminista que está a advogar a eliminação dos homens. Nem pensar. O que me concerne é o desenvolvimento das relações entre as mulheres e os homens. O que me preocupa é a literacia emocional, quer para os homens como para as mulheres. E para as crianças, em especial para as crianças do sexo masculino porque, atualmente, estes encontram-se no fundo do saco. No meu país, atualmente, as raparigas estão a ter grande sucesso em especial em provas públicas mas os rapazes parece que estão a sofrer.

Que podemos nós fazer para desenvolver a literacia emocional de toda a comunidade humana ?

Então o que se passará quando estes dons – a capacidade de desenvolver várias tarefas ao mesmo tempo, a comunicação, a construção de redes, o cuidado da família – forem libertados para o interior da vida da Igreja, ou para dentro de qualquer organização que tenha, no passado, favorecido o contributo dos homens mais do que o das mulheres? Eu apenas posso relatar aquilo que sei e aquilo que já presenciei: A Igreja Anglicana tem ordenado mulheres para o sacerdócio desde 1994. Outras Igrejas, as chamadas ‘livres’ ou igrejas protestantes não INTEGRADAS NA Igreja Anglicana, já ordenam mulheres para o ministério, no Reino Unido, desde 1917, antes das mulheres poderem votar.

Dispomos agora de provas documentais que nos podem ajudar a avaliar o contributo das mulheres para a vida das igrejas, quando estas conseguem adquirir uma voz dentro de uma instituição masculina. Hão de reparar que eu parto da premissa que apenas as mulheres ordenadas é que podem contribuir plenamente para a vida da igreja. Admito que não estejam de acordo comigo, mas eu mantenho que as mulheres, e digo-o porque creio que assim tudo se torna mais evidente – e nestas incluo as freiras, que dão um contributo muito especial, e as mulheres leigas devotas – serão sempre vistas num papel auxiliar, até que o nosso estatuto de igualdade como representantes de Cristo seja reconhecido formalmente. É sobre isto que toda a discussão em torno das mulheres e em torno da ordenação das mulheres, incide.

Teremos nós um estatuto de igualdade como representantes de Cristo ou serão apenas os homens que se podem colocar no altar e representar Cristo ? Se assim for, é uma coisa horrível porque tal significa que apenas homens judeus, de 33 anos de idade podem estar no altar. Porque então é uma espécie de determinismo biológico. Então não temos dignidade.

Quando as primeiras mulheres foram ordenadas, tal como se passou com as primeiras mulheres eleitas para o Parlamento ou as primeiras advogadas ou médicas, elas pareciam que apenas iriam duplicar o sistema. Algumas das minhas alunas, ainda hoje aspiram a usar camisas pretas, cabeção, fatos pretos – não as posso criticar. Querem ser reconhecidas como padres. Mas é este precisamente o problema. Aquelas pioneiras de que atrás eu falava, vestiam-se, falavam e atuavam como homens e ficavam satisfeitas por serem incluídas no discurso masculino. Havia quem afirmasse que elas apenas se teriam alistado no clube dos homens. Creio que elas se sentiram penalizadas por esta apreciação.

Eu tenho tentado apoiá-las mesmo quando elas se assemelham a pequenos bispos. Aquelas de nós que se encontram de fora não fazem idéia de como é difícil para as mulheres se fazerem ouvir quando se integram numa instituição inteiramente masculina. Por isso as perdôo, com toda a sinceridade. E por isso a dor e a amargura acompanham o sentido da graça e da benção. E a primeira mulher que foi ordenada na igreja anglicana teve que suportar muita dor e amargura. É claro que ainda há espaços de que se encontram excluídas, é claro que há homens que nem lhes querem tocar, é claro que há pessoas que não querem receber a comunhão das mãos delas, como se elas estivessem de alguma forma contaminadas. É horrível. Mas nos espaços onde são saudadas, onde são acolhidas, estão a realizar um trabalho notável.

Eu gosto imenso de as ver, a passar nas ruas das cidades e das vilas. Gosto imenso de as ver na televisão. Gosto imenso de as ver nos hospitais onde confortam as pessoas que estão próximas da morte.

Agora que já existe uma massa crítica de mulheres ordenadas, não apenas uma, não apenas cinco, mas várias centenas, agora que já atingimos o ponto de viragem, nota-se uma mudança de espírito. O papel do padre está a ser feminizado. O Reino Unido tem uma população de 56 milhões de pessoas. Destes, 20 milhões afirmam-se como pertencendo à Igreja Anglicana, mas ao domingo menos de um milhão vão à igreja.

Cerca de 2 milhões de católicos vão à missa aos domingos porque a nossa igreja insiste muito mais na prática dominical. Quero dizer com isto que o ensino do catolicismo, o ensino do cristianismo interessa apenas a uma minoria. As pessoas mais devotas no Reino Unido são os muçulmanos. O segundo grupo a nível de devoção talvez sejam os cristãos, talvez os judeus, talvez os sisks, talvez os ba’hai, talvez todos os que constituem as outras comunidades de fé. Eu venho de um país, que devido à sua história colonial, tem agora que aceitar ser completamente multirracial, completamente multicultural. A Igreja Anglicana é a igreja oficial, a Rainha é a chefe da igreja.

Todos os dias o Parlamento abre os seus trabalhos com orações mas noutros locais não há sinais religiosos, exceto as igrejas em todas as localidades, em cada vila e aldeia onde talvez apenas 20 pessoas freqüentem a igreja aos domingos. Quanto à Igreja Católica, muitas mulheres na casa dos 40 anos estão a deixá-la, porque criaram os seus filhos e consideram-se excluídas, consideram que a Igreja não quer aprender nada com elas, e que não tem nada a dar-lhes. Quanto aos jovens é raro vê-los. Quanto às religiosas, na minha ordem, quando eu entrei aos 17 anos, em 1964, havia 135 irmãs na nossa província. Agora há 85 e destas 6 têm menos de 60 anos.

Por isso estamos a falar de declino. Estamos a falar de uma completa mudança na demografia da vida da Igreja, estamos a falar de seminários que estão vazios, de vocações para o sacerdócio de homens que têm cerca de 30 ou 40 anos. Os jovens não estão a entrar. Estamos a ver uma completa mudança na vida da igreja católica no Reino Unido e respectiva participação. Mas na Universidade de Cambridge, há 60 alunos no ‘College’ anglicano onde dou aulas, homens e mulheres, 35 homens e 25 mulheres. Estão todos em formação para o sacerdócio. O estudante mais novo tem 22 anos e o mais velho 39. Aí encontramos vida, energia, saúde e bondade.

Ali as raparigas e os rapazes estão a aprender a trabalhar em conjunto e a colaborar uns com os outros. Cada vez se torna mais evidente que os tabus que afastavam as mulheres do altar são de origem humana e não divina. Portanto está é uma história que se aplica a todas nós, e não apenas a algumas de nós – ou seja, aquelas mulheres que têm vocação para o sacerdócio. Estou constantemente a conhecer mulheres com esta vocação, entre mulheres católicas também. Este ano, na Igreja Anglicana já foram ordenadas duas mulheres que vieram da igreja católica, e que mudaram para poderem ser ordenadas. Esta é a história de todas as mulheres que desejam falar com autoridade a partir da sua própria experiência, mulheres que aspiram a partilhar o seu poder e não exercê-lo sobre, acima e contra o poder e a autoridade dos homens.

Por isso não me surpreende que a Dorothy L. Sayers, teóloga anglicana, autora de romances policiais, que também escreveu alguns livros sobre as mulheres na igreja, e que era conhecida nos anos 40 deste século, tenha escrito:

«Talvez não nos deva surpreender que foram as mulheres as primeiras a estarem no presépio e as últimas a encontrarem-se na cruz. Nunca tinham conhecido um homem como aquele – nunca tinha havia um homem como aquele. Um profeta e um professor que nunca as admoestava, que nunca as lisonjeava, adulava ou protegia, que não fazia graça incômoda acerca delas, nunca as tratava com expressões de tipo ‘As mulheres, Deus nos acuda!’ Ou ‘As senhoras, que Deus as abençoe !’; que repreendia sem expressões de vítima e que as elogiava sem condescendência; que tomava a sério as suas perguntas e os seus argumentos; que nunca estabelecia fronteiras para a sua esfera, que nunca as pressionava para serem femininas ou gozava com elas por serem do sexo feminino; que não tinha ressentimentos nem qualquer dignidade masculina mal assumida a defender; que as respeitava tal como eram e comportava-se com total naturalidade.

Não há qualquer ato, qualquer sermão, qualquer parábola, em todos os Evangelhos que reflita algo sobre a perversidade feminina; ninguém pode retirar das palavras e dos atos de Jesus que haveria algo de ‘esquisito’ na natureza das mulheres.» (Dorothy S. Sayers, Are women human ?, Grand Rapids, Eerdmans, 1971).

A Dorothy L. Sayers nasceu em 1893. Era filha de um pastor anglicano. Formou-se em línguas modernas em Oxford e traduziu A Divina Comédia de Dante. É um exemplo de uma mulher que descobriu o som da sua própria voz e que tinha gosto em usá-la. E usou bem a sua voz. Acabou a sua carreira como publicitária, escrevendo anúncios. Foi ela a autora do célebre slogan da cerveja irlandesa da marca Guiness: ‘Guiness is good for you. Mas também escreveu uma peça para teatro maravilhosa, intitulada ‘Um homem nascido para ser rei’, Jesus, que foi transmitido pela BBC em 1946. Foi a primeira vez que uma peça de teatro com um tema religioso foi transmitido pela radio. Afirmei atrás que somos reféns do destino quando vozes religiosas, sociais e políticas excluem a nossa própria voz.

Também há outros constrangimentos – de ordem econômico, por exemplo. No entanto, vejamos o que nos pode ajudar ? Quais são os contributos específicos que o século 20 prestou à vida das mulheres ? Porque o século 20 foi um século de grandes mudanças na vida das mulheres, na sociedade, na política, na economia. Para começar, fomos para a escola, fomos para a universidade. Obtivemos o sufrágio. Tivemos acesso à educação. As nossas aspirações e expectativas mudaram. É evidente que a mecanização do trabalho doméstico nos transformou a todas. Lembro-me de quando eu era criança e a minha mãe torcia a roupa num aparelho e eu pus a minha mão junto ao rolo e observei a minha mão a passar juntamente com uma toalha. De repente a minha mãe viu o que estava a acontecer e assustou-se ! Pessoas como a minha mãe já não têm que utilizar aquele tipo de equipamento. No mundo ocidental, as mulheres já não levam a roupa para lavar no rio, usando as pedras para bater na roupa e lavá-la.

A mecanização transformou as nossas vidas. Dispomos agora de mais tempo e energia para se dedicarem a outras tarefas. No mundo em desenvolvimento, o quadro é mais complexo. O chamado progresso é contraditório quando arrasta consigo a pobreza e a SIDA. O que é que a Igreja tem a dizer acerca da pobreza ? O que é que a Igreja tem a dizer acerca da SIDA ? Mas uma das grandes bênçãos dos tempos presentes é que pelo menos temos consciência do que é que se está a passar. Como é que sabemos o que se está a passar na Índia ou na África atualmente ? Eu sou de opinião que dois grandes eventos científicos ocorridos nos últimos 100 anos transformaram as nossas vidas de forma revolucionária, e que alteraram a forma como pensamos acerca do universo e acerca de nós próprios – o primeiro e talvez o mais importante foi a ida à lua. Mudou a nossa perspectiva. Somos a primeira geração que pode observa o planeta terra do lado de fora. Agora sabemos que somos todos habitantes deste frágil berlinde de cor entre o azul e o verde, suspenso no céu.

Agora sabemos o que está em causa no meio-ambiente, a um nível que seria impensável para os nossos avós. Sabemos que somos um planeta, uma terra, que eu ao tocar aqui na mesa estou a fazer ressonância em todo o planeta. Sabemos que temos responsabilidades face ao próximo, e isto a uma escala nunca vista. Tudo isto é maravilhoso mas também é uma grande responsabilidade. O que acontece às mulheres em Portugal diz-me respeito enquanto me encontro sentada em frente ao meu computador em Cambridge. Até vos consigo ver através da internet devido à revolução tecnológica global que se seguiu às viagens à lua. E o que dizer das outras grandes transformações científicas ? Aquela que mais tem afetado a vida das mulheres foi a invenção da pílula contraceptiva.

Quer estejamos a favor ou contra a pílula, quer estejamos envolvidas ou não em planeamento familiar por métodos naturais, ou quer utilizemos métodos contraceptivos artificiais, trata-se de uma invenção de fundo e que estabelece um novo universo moral para as mulheres. Temos controle sobre a nossa própria fertilidade e devido a isso as mulheres podem desejar viver uma vida no domínio público de formas que eram impossíveis para as nossas mães e para as nossas avós. Tudo isto opera mudanças.

Não estou a tomar partido, não estou a dizer que isto é bom ou mau, o que estou a dizer é que não podemos ignorar. A Igreja tem que ter a consciência de que as mulheres, hoje em dia, querem sair para trabalhos remunerados, querem ter influência fora da arena doméstica.

Durante demasiado tempo, os homens têm tido o controle sobre o corpo das mulheres, sobre a fertilidade das mulheres, sobre as idéias e o pensamento das mulheres. Eu estou a perder a paciência e sei que não sou a única que se revolta contra a tremenda injustiça desta situação. Protesto quando as mulheres são tratadas como se, de fato, não fossem bem seres humanos. Como se, de fato, não podem ser verdadeiras representantes de Cristo. À beira do terceiro milênio quero nele entrar apelando para o empoderamento das mulheres – que não têm medo de apelar a Deus para que seja nossa testemunha.

Precisamos de igualdade – é muito simples, precisamos de igualdade, queremos ser reconhecidas; merecemos ser aclamadas. Não é nada de especial, não pode constituir um problema. Queremos simplesmente que se diga: ‘Demos graças a Deus porque existem as mulheres’. As nossas vozes querem cantar a nova cantiga de um novo século. Por isso eu quero afirmar: ‘ouçam-nos e aprendam conosco em toda a nossa diversidade.’

Passando agora para a minha história pessoal, algumas notas apenas. Em 1992 acompanhei de perto todo o debate ocorrido na Igreja Anglicana e na sociedade inglesa acerca da ordenação das mulheres. Estive presente na ordenação da primeira mulher. Estive presente na primeira celebração eucarística que se realizou no dia seguinte à ordenação. Estive presente durante o debate na Câmara dos Comuns e na Câmara dos Lordes, porque dado que a Igreja Anglicana é uma igreja oficial, foi necessário fazer aprovar legislação específica nas duas câmaras. Já tinha ocasião de ouvir e ler todos os argumentos a favor e contra.

Alguns deles são triviais. Outros são bem importantes. Mas a questão fulcral que se coloca é a seguinte: poderão as mulheres representar Jesus Cristo ? Eu escrevi um livro sobre a ordenação das mulheres que me foi encomendado pela minha editora. Escrevi esse livro em 1993. Em 1994 o Papa publicou um documento intitulado ‘Sobre a reserva da ordenação sacerdotal apenas aos homens’ – excluindo, portanto, as mulheres. Por sorte o meu livro ainda não tinha saído da impressão embora já estive quase impresso e eu pedi ao editor para acrescentar o texto integral do documento papal ao livro, o que ele fez.

O livro foi posto à venda com o título Woman at the Altar e durante três anos nada aconteceu de especial. Depois, a Congregação para a Vida Religiosa, sediada na Santa Sé, em Roma, no Vaticano, escreveu às superiores da ordem religiosa a que eu pertencia, o Institute of the Blessed Virgin Mary, e perguntou-lhes se elas sabiam que uma das religiosas tinha escrito o tal livro, e se tinha tido autorização delas para o escrever. Elas responderam que o livro tinha sido escrito enquanto o debate ainda estava aberto, ou seja antes da publicação do documento papal. Cinco anos depois da publicação descobri que a editora norte-americana que tinha lançado o livro nos Estados Unidos, e que era uma editora pertencente e gerida por uma ordem de frades, tinha destruído os exemplares existentes em armazém, em obediência às ordens do bispo da diocese. Disseram-me que os livros tinham sido queimados.

Destruídos pelo fogo, por ordem da Congregação para a Doutrina da Fé. Esta Congregação começou então a escrever cartas à Madre Superior Geral da Ordem a que eu pertencia. Nessas cartas afirmavam que eu deveria ser forçada a fazer uma declaração pública manifestando a minha concordância com dois dos ensinamentos da Igreja, a saber a encíclica Humanae Vitae, acerca do controle de nascimentos e o documento Ordinatae Sacerdotalis acerca das mulheres e o sacramento da ordem. Eu recusei fazê-lo. Fi-lo porque considerei que este pedido trivializava a sabedoria da tradição cristão ocidental. Devo dizer que no Reino Unido eu sou conhecida e sem falsa modéstia o digo, respeitada, como comentadora de assuntos religiosos na BBC e noutros meios de comunicação social.

Devo dizer também que me considero uma moderada, gosto de ouvir todos os lados, coloco-me ao centro. No entanto, as pessoas do Vaticano afirmavam o contrário. Mas tenho que dar graças a Deus pela Igreja que temos em Inglaterra e no País de Gales porque o cardeal inglês, o cardeal arcebispo de Westminster, o cardeal Hume, chamou-me quando ouviu falar nesta história. Ele está muito zangado com o fato de as pessoas no Vaticano não o terem contatado, não se tinham dado ao trabalho de lhe perguntar que tipo de pessoa era eu. Ele disse-me: ‘Lavínia, isto não tem nada a ver com obediência. Tem a ver com justiça.’

Ele achava que era injusto pedirem-me para fazer uma declaração pública pois nunca tinham pedido isto a outra pessoa. A razão porque eu deixei a minha Ordem foi motivada também pelo seguinte: no Natal de 1999 eu estava em Nova Iorque. Li no jornal The New York Times, no dia 27 de Dezembro, que no dia Natal, 3 milhões de pessoas tinham ido a uma igreja Católica, e isto só na cidade de Nova Iorque. Maravilhoso ! Mas peço que façam umas contas. Esses fiéis deram pelo menos 10 milhões de dólares na coleta. Ainda bem.

Agora reparem nas famílias que vão entrando na igreja no dia de Natal, será que cada uma tem 17 filhos ? O meu avô era um de 17 filhos. Nem pensar. Têm dois filhos. Ou seja utilizam métodos contraceptivos. Mas como também dão dinheiro à Igreja, esta já não os quer chamar heréticos. Se escrevermos um livro, contudo, a atitude que têm conosco já é diferente e o livro até acaba queimado. Eis a ironia. Eu não sou uma inimiga da Igreja Católica. Eu gosto muito da Igreja.

Eu acredito com muita força que Deus gosta das mulheres. Eu não me importo de oferecer a minha vida por esta convicção – de que Deus gosta das mulheres. Espero não ter que dar a minha vida por esta causa, já basta terem queimado o meu livro. Obrigada.

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