Deus, tem misericórdia de mim, que sou um pecador

Amados no Senhor Jesus Cristo,

Ao ler Domingo 2 de catecismo de Heidelberg dá para levar um susto bem grande. Pois o catecismo afirma que somos incapazes de amar. Sim irmãos, é isso mesmo! Domingo 2 do catecismo de Heidelberg afirma que ninguém tem condições de amar a Deus, nem de amar aos seus próximos! Posso imaginar que nem todos concordam com isso. Dizer isso não é radical e pesado demais? Por que o catecismo afirma que somos incapazes da amar? Por que não podemos amar pelo menos algumas pessoas, por exemplo, os nossos filhos? Não é assim que até os descrentes amam os seus queridos? A Bíblia diz que Mical, a filha de Saul “amava Davi” (1 Samuel 18: 28). Ela, embora fosse uma pessoa incrédula, amava Davi! Ela estava apaixonada por ele, e até aconteceu uma vez que ela enganou seu pai para que Davi pudesse fugir e escapar da morte. Isto não é amor? E outra coisa: O Senhor Jesus Cristo disse: “Amem os seus inimigos. Se vocês apenas amarem aqueles que os amam, que recompensa receberão? Até os publicanos fazem isso”. (Mateus 5: 43-48). Assim o Senhor deixou bem claro que até os publicanos, que certamente não eram pessoas de boa fama, amavam os seus queridos!

Por que, então, o catecismo ensina que nós não somos capazes de amar Deus e nossos próximos? Por que o catecismo nega que qualquer um tenha o dom de amar? Todos nós não conhecemos pessoas que são educadas, carinhosas, simpáticas e humanas? Conhecemos até pessoas descrentes que são assim. Conhecemos pessoas que não crêem em Deus nem em nada, mas que demonstram sempre consideração pelos outros. Há até ateus que são capazes de estender a mão para ajudar outros. Como então o catecismo pode dizer que não somos capazes de amar, mas que somos inclinados a odiar? Neste momento é bom vocês notarem, que o catecismo, a tratar deste assunto, se baseia na Palavra de Deus. Ao afirmar que todos nós somos inclinados a odiar os nossos próximos, o catecismo fala biblicamente. Ele não reflete uma opinião pessoal. Mas ele avalia a nossa situação com a Bíblia na mão. Pergunta-se: “Como você conhece a sua miséria”? Resposta: “Eu conheço a minha incapacidade de amar a Deus e a meu próximo pela lei de Deus”. Desta maneira o catecismo toma uma posição bíblica em relação ao assunto que está sendo tratando. Ele se baseia na Palavra. Ele avalia a nossa vida à luz da santa lei de Deus. Esta lei é como um espelho, que mostra qualquer defeito. É só por isso, irmãos, que o catecismo ensina algo que poderia deixar-nos de cabelo em pé. O catecismo não transmite a opinião pessoal de ninguém. Ele nos ensina a opinião da lei e da Palavra de Deus.

O que requer Deus na sua lei? É apenas uma só coisa: amar. Amar a Deus é o mandamento mais importante. Amar a Deus deve ser o grande objetivo da nossa vida. Amar a Deus é mais importante ainda do que amar a nosso próximo. Por isso o Senhor disse que este é “o grande e primeiro mandamento”. Mas também devemos amar a nosso próximo. Devemos amá-lo como a nós mesmos. Amá-lo como a nós mesmos quer dizer: devemos amar o nosso próximo ardentemente, procurando sempre seu bem. Este segundo mandamento não pode ser ignorado de maneira alguma. Por isso o Senhor disse: “O segundo mandamento é semelhante ao primeiro”. Podemos dizer que existe um cordão umbilical entre o grande e o primeiro mandamento, e o segundo. Quem ama a Deus, aliás, quem ama verdadeiramente a Deus, ame também a seu próximo. E aquele que ama verdadeiramente a seu próximo, também ame a Deus.

Na Palavra de Deus estes dois mandamentos sempre andam de mãos dadas. O próprio Senhor Jesus Cristo os uniu. Não cabe a ninguém separá-los. Isto é confirmado pelo apóstolo João, que escreveu: “Deus nos deu este mandamento: Quem ama a Deus, ame também a seu irmão. Se alguém afirmar: ‘Eu amo a Deus’, mas odiar a seu irmão, é mentiroso, pois quem não ama a seu irmão, a quem vê, não pode amar a Deus, a quem não vê” (1 João 4:20-21). Então irmãos, é assim que devemos avaliar a nossa vida. A nossa vocação é amar a Deus em primeiro lugar, porém, sem jamais deixar de amar também o nosso próximo. Este é o ensinamento da lei de Deus. Este é também o ensinamento do evangelho de Cristo. Agora, irmãos, será que somos capazes disso? Será que somos capazes de colocar Deus em primeiro lugar, e ao mesmo tempo amar os nossos próximos como a nós mesmos, amando-o sincera e ardentemente? Podemos guardar a lei de Deus perfeitamente?

Vamos analisar um caso bíblico. Na palavra de Deus encontramos pessoas que se consideravam perfeitas. Achavam que eram capazes de observar a lei de Deus perfeitamente. Estou me referindo aos fariseus. Eles formavam a classe de crentes zeladores e se consideravam pessoas totalmente dedicadas a Deus. Eles faziam questão de cumprir cada vírgula da lei de Deus. Eles costumavam fazer o maior esforço possível para cumprir qualquer coisa que Deus tinha ordenado. Também se esforçavam para evitar qualquer coisa que Deus tinha proibido. O compromisso deles era um só: observar e cumprir a lei de Deus. Um exemplo: Deus ordenou na sua lei, no antigo Testamento, que todos dessem os dízimos de tudo quanto ganhavam. Então, os fariseus faziam questão de dar os dízimos de qualquer coisinha. Se, vamos supor, o fariseu ganhasse um saco de feijão, ele depositava exatamente dez por cento do valor no cofre do templo. E se ele ganhasse uma galinha, ele calculava o valor dela, e depositou dez por cento do valor nas ofertas. Assim o fariseu se sentia muito bem à vontade. Fazendo tudo isso ele tinha orgulho de ser crente. Ele pensava que estava cumprindo a lei de Deus perfeitamente. Os fariseus até criaram regras adicionais, para que pudessem fazer até mais do que Deus tinha exigido na sua lei! Isto não é colocar Deus em primeiro lugar? Isto não é amor a Deus?

Irmãos, até hoje há pessoas que vivem do mesmo jeito. Há muitos que se sacrificam todos os dias, cumprindo um lei, ou cumprindo um monte de regrinhas. Há pessoas que fazem de tudo, até mais ainda do que Deus ordenou, para poderem agradar a Deus. Há pessoas que andam todo dia muitos quilômetros para não perderem um culto. Há pessoas que estão todo dia na igreja. Há pessoas que vivem sofrendo, carregadas de um fardo pesado. Em alguns casos até deixaram de comprar remédios, para poder pagar os dízimos. Será que aquelas pessoas não amam a Deus? Elas não colocam Deus em primeiro lugar? Elas não cumprem a lei de Deus perfeitamente? Vamos avaliar esta situação à luz da palavra de Deus, irmãos. A lei de Deus diz: “Amarás o Senhor teu Deus. Este é o primeiro e grande mandamento. O segundo mandamento, igual ao primeiro, é: amarás o teu próximo”! Ou seja, Deus deve estar em primeiro lugar, e o segundo mandamento, que também deve ser cumprido, é este: amarás o teu próximo como a ti mesmo.

Vamos agora dar mais uma olhada à vida religiosa dos fariseus, os quais se esforçaram tanto para colocar Deus em primeiro lugar. Será que eles cumpriram a lei de Deus? Eles amavam tanto a Deus como a seus próximos? Aí está o problema. A palavra de Deus revela que os fariseus, aqueles mesmos que zelaram tanto para serem cada vez mais aperfeiçoados na obediência à lei de Deus, tropeçaram feio na segunda parte. Eles amavam a Deus, aliás, tentaram amar a Deus, mas não amavam a seus próximos. Eles devoravam as casas das viúvas (Mateus 23: 14). Eles cobravam cem Reais de aluguel ou mais por um quarto simples, sugando as viúvas que ganhavam apenas um salário. Eles cobravam os dízimos daqueles que não tinham condições de pagar nada. Eles eram gananciosos (Lucas 16: 14). Agora, podemos dizer que eles amavam a seus próximos? Não, não podemos dizer isso. Mas se eles não amavam a seus próximos, eles amavam a Deus, o qual ordenou: “amem a seus próximos?” Aí está o problema. É confirmado o ensino do catecismo: “Cada um de nós somos inclinados a odiar a Deus e a nosso próximo”.

Como é difícil amar como Deus quer! Amar do jeito que nós queremos é fácil demais. Mas amar como Deus ordena é uma tarefa que ninguém consegue cumprir com perfeição e sem falhas. Aquele que cumpre todas as regras da igreja, mas está massacrando as viúvas e os desempregados, ele não tem amor. Aquele que compra presentes para si mesmo, para sua esposa e para seus filhos, mas quase não põe nenhum tostão nas ofertas, ele não ama a Deus. Aquele que ama sua namorada, ou seu namorado, ou seu pai, ou sua mãe, ou seus filhos queridos, mas não cultua e serve a Deus de todo o coração, louvando-o e glorificando-o, ele se torna culpado de não cumprir a lei de Deus. Aquele que é a pessoa mais simpática do mundo, mas não coloca Deus em primeiro lugar, ela não cumpre a lei de Deus. Aquele que cumpre a metade da lei de Deus, e não cumpre a outra metade, de fato descumpre a lei de Deus (Tiago 2: 9-11). Desta maneira até as pessoas mais zelosas e as pessoas mais carinhosas e simpáticas, tornam-se culpadas de não cumprir os mandamentos de Deus. Por isto concluímos, com a Bíblia na mão: Observar a lei de Deus da maneira que Cristo exige, é difícil demais. Amar verdadeiramente, amar sinceramente, da forma que Deus quer, é a coisa mais difícil do mundo. Ninguém é capaz de cumprir a lei de Deus perfeitamente.

A nossa situação é lamentável, irmãos. Sempre temos pensamentos e desejos errados. Até aquele que realmente faz questão de levar uma vida santa, não está livre de muitos pecados e continua precisando orar a oração que o nosso Senhor Jesus Cristo nos ensinou: “Perdoa-nos as nossas dívidas, assim como nos perdoamos os nossos devedores” (Mateus 6 e Lucas 11). Por que precisamos orar esta oração? É porque somos inclinados a odiar a Deus e a nosso próximo. Todos os dias há falta de amor em nossas vidas. Esquecemo-nos do nosso próximo, ou esquecemo-nos de Deus. É por causa disto que precisamos pedir perdão a Deus, todos os dias. Até uma pessoa totalmente disposta a procurar o bem para todos os seus próximos, seja ele diácono, presbítero ou pastor, tropeça em muitas coisas, diz o Senhor Deus (Tiago 3: 2).

Aqui em nossa igreja não há pessoas perfeitas, nem uma sequer (Romanos 3). Aqui não há ninguém sem pecados. Pelo contrário, aqui há apenas homens, mulheres e jovens que, por natureza, são inclinados a odiarem a Deus e a seus próximos. Aqui só há pessoas cuja tendência é serem egoístas. O melhor entre nós, ele não tem motivos de orgulhar-se. Até o mais nobre deve ter consciência do mal que já fez e deveria apenas confessar: “Ó Senhor, seja propício a mim que sou pecador!” Todos nós devemos ter esta atitude, irmãos. Devemos reconhecer que somos maus, inclinados a odiar a Deus e a nossos próximos. Tudo isto é muito triste. Não é um diagnóstico animador. Mas não posso pregar outro ensinamento. Precisamos reconhecer a nossa situação como ela é. Precisamos aprender humildade diante de Deus. Deus não ama aquele que se exalta. Deus não ama aquele que bate no peito, dizendo: “Eu amo perfeitamente a Deus e a meu próximo”. Deus não ama o arrogante, nem se ele fosse crente. Deus ama aqueles que têm um coração quebrantado. Ele ama aqueles que confessam os seus muitos pecados e fraquezas. Deus ama aqueles que se humilham diante dele, confessando: “Senhor Deus, sou um miserável pecador! Não posso amar perfeitamente. Tem compaixão de mim, e salva-me por tua graça, pelo poder da tua Palavra e pelo poder do teu Espírito Santo”!

É por aí irmãos! Se quisermos receber a eterna salvação, o primeiro passo é reconhecermos a nossa incapacidade de fazer a vontade de Deus. É somente assim, reconhecendo honestamente que o nosso amor é falho, reconhecendo e confessando a nossa depravação total, que podemos entender como precisamos da presença do Espírito Santo em nossas vidas. É somente assim que podemos entender como precisamos do poder e da graça de Deus para sermos salvos. Pois é somente pela graça e pelo poder do Espírito Santo, que será possível que sejamos transformados! É somente pelo poder e pela graça do Espírito Santo de Deus que podemos ser mudados em pessoas que amam a Deus e que amam a seus próximos. Aqui não há crentes bonzinhos e perfeitos. Para que ninguém se glorie! Para que ninguém se exalte! “Porque todo o que se exalta será humilhado; mas o que se humilha será exaltado”.

Amém.

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