Disciplina: Expressão da paternidade de Deus

INTRODUÇÃO

Todo atleta antes de uma grande competição, passa por um período de grande preparação, no qual ele busca a preparação física e emocional .
Durante esse período o treinamento chega as raias da exaustão, treina-se quase 12 horas por dia, 7 dias por semana, come comidas especialmente preparadas, dorme cedo e acorda mais cedo ainda, corre, pula, se exercita, compete, perdendo algumas vezes; mas seu coração e mente estão impregnados com o objetivo de vencer, chegar ao topo do pódio e receber os louros da vitória.
Nesse processo há uma pessoa imprescindível, o técnico, aquele que desenvolve o programa de treinamento todo, que ao mesmo tempo é pai, amigo, verdugo tudo com o objetivo de disciplinar o atleta afim de que seja um vencedor.
No fim desse processo, o melhor atleta, melhor preparado desfrutará de todas as glórias possíveis e imagináveis.
Apesar da glória ser do atleta, o segredo do sucesso não está nele em si, mas em seu instrutor; sem técnico não existem campeões.

ELUCIDAÇÃO
O texto lido está inserido no livro aos Hebreus escrito provavelmente antes da destruição de Jerusalém ocorrida no ano 70 D.C. Westcott a situa no fim da década de 60 D.C, provavelmente entre 64-67.
Quanto a autoria, apesar de muitos atribuírem a Paulo, gostaria aqui de ficar com a posição de Orígenes: “Quem escreveu essa epístola, só Deus o sabe.”

Quanto a proveniência da mesma está entre Itália e para alguns estudiosos de origem alexandrina.
O propósito central da epístola é o de advertir os crentes judeus ou gentios que cuidassem de não voltar aos seus antigos caminhos da religiosidade ou de alguma religião inferior.
Robertson diz acerca de Hebreus: “É a primeira grande apologia do cristianismo, e nunca foi ultrapassada.”
O livro divide-se em 4 partes:
Tema Predominante: A Revelação de Deus no Filho é Final. 1:1-2
Desenvolvimento do Tema: Natureza e Perfeições do Filho. 1: 2b-10:18
Aplicações Práticas: 10:19-12:29
Conclusão com Exortações, Saudações e Benção.
O texto lido está inserido na terceira parte do livro e no início da Quarta parte, onde aborda a relação paternal entre Deus e seu povo, e mostra Deus como nosso tutor, o qual nos disciplina afim de obtermos a vitória.
Posto isso convido os irmãos a meditar sobre:
DISCIPLINA: EXPRESSÃO DA PATERNIDADE DE DEUS.
1o ) PORQUE EVIDENCIA A GENUINIDADE DA NOSSA FILIAÇÃO.
No versículo 6 temos a expressão grega “paidéia” que no seu sentido original quer dizer” treinar uma criança”, gostaria de esclarecer que o autor de Hebreus trabalha magistralmente todos os conceito de “paidéia”, ou seja é possível compreendê-la como instruir, treinar, corrigir, repreender, a ponto de podermos aplicá-los quase simultâneos ao texto, tornando-se difícil desassociai-los.
Algo muito interessante neste texto é o antagonismo aparente entre disciplina e amor; paternidade e açoite; para o mundo isso soa incoerente, mas para Deus esse antagonismo é o que caracteriza que somos seus filhos.
Pois como um pai terreno que disciplina, quando precisa, assim quando Deus nos recebe como filhos e torna sua paternidade evidente, muitas vezes nos treina como a crianças e outras ensina-nos lições rigorosas, porém necessárias.
Quando Deus nos faz seus filhos traz junto o direito de usar o açoite, mas também nos dá os privilégios que só os filhos tem direito.
Alford diz: “Ele acolhe como seu filho legítimo, recebendo-o em seu coração estimando-o”
Porém uma declaração de Calvino fala-nos profundamente: “Quando os filhos percebem que Deus intervém disciplinando-os, percebem um sinal seguro do seu amor. Pois Deus se apresenta por Pai para todos quanto são por Ele corrigidos. Pois aqueles que escouceiam como cavalos fogosos ou que resistem obstinadamente, não pertencem a essa classe de homens. Em suma, pois, Ele ensina-nos que a correção de Deus só é paternal ao nos submetermos a ele.
“O propósito dos testes e das tribulações é a nossa disciplina, e a disciplina forma filhos dignos da família divina.” Champlin.
A expressão “panta huion” que designa a relação nossa em relação a Deus, como filhos, é o que permite entender esse tópico todo.
A disciplina paterna é sinal de confirmação da nossa filiação; e se somos disciplinados pelo Pai celeste é evidente que somos filhos.
Essa relação de “como filhos” é totalmente antagônica ao versículo 8 quando o autor usa o adjetivo grego “nothos” que quer dizer bastardo, filho de uma relação adúltera, ilegítimo.
A prova dessa relação paternal de deus para conosco pesa sob o fato de sermos por Ele disciplinados, alguns poderiam achar que o s legítimos não deveriam sofrer, mas pelo contrário, aqueles que não estão sob a disciplina de Deus não são filhos são bastardos.
Crisóstomo disse: “Visto que o não ser disciplinado é prova de que esse alguém é bastardo, devemos regozijarmos debaixo da disciplina, como sinal de genuína filiação.”
Esse ensino está de pleno acordo com :
Pv. 13:24: “O que retém a vara não ama seu filho; mas o que o ama cedo disciplina.”
Pv. 19:18: “Castiga teu filho enquanto há esperança, mas não te excedas a ponto de matá-lo.”
Pv. 23:13-14: “Não retires da criança a ,disciplina pois se a fustigares com a vara não morrerás. Tu a fustigarás com a vara e livrarás a sua alma do inferno.
Pv. 29:15: “A vara e a disciplina são sabedoria, mas a criança entregue a si mesma vem a envergonhar a mãe.”
Cabe aqui uma comparação entre o substantivo “HUIÓS” e “NOTHOS”, atentando para comparação que o autor faz entre ambas, deixando clara a relação paternal só em relação aos legítimos, ou melhor dizendo o autor deixa claro que na casa de Deus só há lugar para filhos legítimos e se somos legítimos devemos estar submissos a “paidéia” divina.
Sociologicamente define-se essa relação assim: “Somente os ilegítimos estão isentos de disciplina, por isso tendem para o crime e a delinqüência; o pai consciente disciplina afim de evitar as armadilhas da degradação.
E platonicamente assim: “Nossos erros não devem ficar de forma nenhuma sem punição; pois tornaria nossa alma pecaminosa e rebelde.”
Ser filhos desejo de muitos privilégio dos eleitos.
2o ) PORQUE NOS FAZ PARTICIPANTES DA SUA NATUREZA.
Todo filho legítimo ao mesmo tempo que é passível de todas as obrigações de filho, também tem o privilégio de desfrutar das relias do mesmo ofício.
A expressão “metalabein aguiotetos”, é uma expressão no aoristo e um substantivo, que quer dizer receber sua parte, compartilhar, receber santidade, pureza, sinceridade.
Essa expressão traz consigo a idéia de uma ação que aconteceu e continua acontecendo.
Uma vez que como filhos estamos sob a disciplina de Deus , e a disciplina tem como função domesticar e mortificar a carne, nos purificando para a vida, podemos inferir que a disciplina divina, tem um papel muito maior, que é o de nos fazer participantes, recebedores ou compartilhadores da santidade de Deus e é justamente esse o sentido da expressão analisada.
A disciplina de Deus não é algo imperfeito como a disciplina de nossos pais terrenos, aos quais nos corrigiam como bem lhes parecia, Deus nos corrige para um propósito definido, para nosso aproveitamento(V.11), e que propósito é esse senão o de implantar a sua natureza em nós, fazendo de nós homens e mulheres santos, afim de que onde Ele esteja, estejamos nós também.
“Metalabein Aghiothetos” nos transporta para o transcendente, onde só os santos podem habitar; por isso Deus tem tanto interesse em nos disciplinar, porque sem santidade é impossível ver ao Senhor.( Hb 14:12).
Assim como para ser filhos precisamos estar sob a tutela disciplinar de Deus, assim para chegar aos céus temos que ser participantes da natureza de Deus ou seja santos, pois Ele mesmo diz: “Sede santos como Eu sou santo”( Lv 11:44).E o caminho para se alcançar é o caminho da disciplina em suas múltiplas facetas, a disciplina está para o crente; assim como o fogo está para o ouro; quanto ao seu processo purificador de remover as impurezas, tornando o material bruto em algo valioso, desejável e aceitável.
Isso nos leva ao texto de Isaias 48:10b”… provei-te na fornalha da aflição.”, onde a impurezas espirituais de Israel foram depuradas.
Ao passarmos pela nossa fornalha da aflição por meio da disciplina, temos que ter uma coisa em mente, isso é parte do processo no qual Deus tenciona nos fazer participantes da sua santidade.
Todos os atos de Deus para conosco tem objetivos definidos, ou sejam nunca visam nosso mal-estar mas sempre para o nosso proveito afim de compartilhar conosco sua natureza santa.
Temos o privilégio de com-partilhar com Deus, ou seja partilhar com Ele algo que só compartilha com seus íntimos e legítimos filhos, a sua santidade.
Metalabein Aghiothetos, além desse significado , tem um outro sentido muito importante, que é um significado amplamente escatológico, ser participantes da santidade nos habilita a sermos participantes da eternidade com Deus.

E essa idéia esta ligada ao verbo “zao” no futuro contido no v.9 que é viveremos, a conclusão lógica que podemos chegar é que a disciplina depuradora de Deus como expressão de sua paternidade e de que sejamos participantes de sua santidade e vivamos com Ele no futuro.
Participar da santidade e ter a certeza que não somos bastardos, mas legítimos e santos.
Por isso quando partirmos dessa vida poderemos mandar dizer: “Se alguém perguntar por mim, diga que fui me encontrar com o Pai.
3o ) PORQUE FAZ DE NÓS RESTAURADOS E RESTAURADORES. (v.12-13).
A disciplina que a princípio parece sem vantagem aparente (V.11) , nesses versículos começamos a observar seus resultados em uma perspectiva mais terrena.
Analisemos a expressão “anorthosate” que é o imperativo aoristo de “anorton”, que expressa uma ação completa, pontilear, o texto transmite mais ou menos essa idéia, aportuguesando a coisa.
Tudo esse período disciplinatório já passou, agora levanta a cabeça, tome um banho, não precisa ficar com essa cara de coitado, levante os ombros, os joelhos, erga a cabeça pois você é filho legítimo, participante da santidade, você está restaurado, apesar das gírias é isso que quer dizer.
Agora já não estamos sob disciplina, mas pós-disciplina, aptos para andarmos eretos e conscientes que temos um Pai que cuida de nós, usando a vara quando necessário, mas que também nos incita e encoraja a buscar uma melhor qualidade de vida, onde somos cabeça e não cauda.
Esse texto de Hebreus é tirado da LXX em Isaías 35.3 que diz: “Dizei aos turbados: Esforçai-vos, não temais; o vosso Deus virá com vingança, com recompensa divina virá e vos salvará.”
Esse texto com teor profético fazia muito sentido aos Hebreus, porque parece que de certa forma eles estavam sendo preparados para a queda de Jerusalém no ano 70 D.C. por isso essa mensagem de encorajamento se fazia necessário.
Uma outra palavra que merece a nossa atenção é “poieite” que é um imperativo presente ativo, quer dizer fazei veredas, uma ação que devia ser praticada pelo indivíduo e não esperar que caísse do céu.
Ou seja construa abra um caminho próprio para vossos pés, a disciplina sofrida lhe habilitou a edificar seu próprio caminho, conhecendo sua capacidade e seus limites, seu caminho agora não será mais baseado em circunstâncias, mas em fé e em fatos.
E esse edificar de veredas tem uma conseqüência muito benéfica sobre a comunidade da qual fazemos parte, pois ajudaremos evitar que os mancos se desviem, vivendo de modo que agrada a Deus, o manco e o que sofre serão restaurados através de nos e não sofrerão agravos em sua situação.
Em outras o nosso amadurecimento pela disciplina que nos conscientizou da nossa legítima filiação e da nossa participação da santidade de Deus e nos reanimou levando-nos a construir caminhos para nossos pés, faz com que agora funcionemos como colunas as quais aliviaram o peso de sobre os fracos.
O interessante é a ordem como o versículo se segue:
Levantai as mãos cansadas, e joelhos vacilantes;
Fazei veredas direitas para os vossos pés;
Para que não se extravie o que é manco, antes seja curado.
As duas primeiras visam uma restauração própria, mas a terceira é em prol dos outros, ou seja da comunidade.
Em nossos corações só deve haver um desejo o de ser filhos abençoados de Deus e benção para os outros.
Cito aqui um poema de Mathew Arnold:
Movimentai-vos entre as fileiras, lembrai-vos
Dos errantes, refrigerai os exaustos…
Preenchei os hiatos em nossas fileiras,
Fortalecei a linha que cambaleia,
Firmai-vos, continuai a vossa marcha,
Continuai até a fronteira do desperdício,
Continuai, até a cidade de Deus.
Aplicação
Nossa realidade hoje amados não difere muito dos Hebreus, também somos carentes de disciplina, em todos os aspectos, necessitamos ser legitimados como filhos, ser participantes da santidade, restaurados e restauradores.
Como pastores pesa sobre nossos ombros a tarefa de ser disciplinadores, espelhemo-nos no exemplo de Deus que não só pune, mas antes educa, instrui e encoraja.
Tudo isso nos leva a uma questão profunda:
Queremos ser “huiós” ou “nothos”?
A nossa resposta determinará não só nosso ministério, mas também determinará o nosso porvir.
Oxalá sejamos todos nós “Huiós” de Deus.
CONCLUSÃO
Acabou o campeonato, o louro e a coroa da vitória está sobre o atleta, a fama e o dinheiro também, mas o que ninguém sabe, somente o atleta sabe e que a vitória não é só dele, pois ele não existiria sem o técnico, não existiria sem seu disciplinador, seu mentor, seu pai, seu tutor.
Assim somos nós quando todos nos acharem super crentes, super pastores, não nos esqueçamos, que o mérito não é nosso, mas sim de nosso Pai celeste, que nos instruiu e disciplinou.
Somos mais que vencedores, mas não em nós mesmos, mas somente naquele que é acima de todos.

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