Edificando uma igreja de discípulos e discípulas

Despojando-vos, portanto, de toda maldade e dolo, de hipocrisias e invejas e de toda sorte de maledicências, desejai ardentemente, como crianças recém-nascidas, o genuíno leite espiritual.
Para que, por ele, vos seja dado crescimento para salvação, se é que já tendes a experiência de que o Senhor é bondoso. (1 Pe 2.1-3)

1. Entre a necessidade e a responsabilidade

Vivemos num mundo, onde as pessoas lutam para que suas necessidades sejam supridas. Muitas, no Brasil de hoje, não conseguem suprir nem as mais básicas, tais como saúde, alimento, educação, moradia, etc. Neste grande espaço de carência é que muitas Igrejas atuam; o púlpito se transformou num balcão de ofertas e a concorrência é grande.

Para que tenham uma idéia, desde que nós metodistas começamos a ganhar espaço na mídia, especialmente agora, com a programa na televisão, não param de surgir igrejas novas, usando o nome metodista, acrescentando um sobrenome qualquer como por exemplo: Filadélfia… Isto porque as pessoas reconhecem credibilidade no nome metodista. Somos uma Igreja com uma longa tradição, presente em 138 países do mundo, temos 748 escolas e universidades espalhadas em todos os continentes. Desta forma, nós precisamos ter um testemunho e ministério compatível com tal tradição, zelando por uma ação missionária que não tropece nos modismos evangélicos, os quais se multiplicam a cada dia.

Com isso, estamos advertindo sobre os riscos de uma igreja de eventos, pois estes conspiram contra a vida normal e madura da igreja local. Nada contra eventos vinculados a um propósito de ensino, e que leve a igreja a um nível de discipulado e maturidade, mas, sim, contra aqueles que tornam a igreja dependente de um determinado avivalista, ou o que é um milagre vivo, e cobram caro, incidindo tais ofertas no dízimo normal dos crentes. Esse tipo de eventos torna a igreja imatura e dependente de tais “injeções de espiritualidade”.

Para suprir as igrejas de tais necessidades, nós temos estimulado os retiros de renovação espiritual e encontros com Deus. Visando a ter mais tempo de levar as pessoas a serem impactadas e motivadas à busca de uma vida mais santa e madura na Palavra de Deus. A sequência é o seguimento no grupo pequeno de discipulado. Não há outro caminho para tirar a igreja local de uma dependência espiritual para maturidade e responsabilidade missionária, senão através da ênfase no discipulado. Nesta seqüência, incluo o seguinte: Um ministério pastoral saudável há de gerar uma liderança madura na Palavra, que fará novos discípulos e discípulas. Portanto, dos pastores e pastoras aos discípulos e discípulas na igreja local, todos devemos estar focados em duas coisas: 1) Crescer na nossa experiência com Deus e na Palavra; 2) Crescer na responsabilidade de gerar vidas em Cristo e discipular cada uma delas.

2. Fazendo discípulos – (Mateus 28.26-20)

Vejamos o que ensinou Jesus: “Ide, pois, e FAZEI discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado.” (Mateus 28.18-19). Essa é a nossa tarefa. Trabalhamos com as crianças em reforço escolar, para torná-las discípulas de Jesus. Deixem-me citar João Wesley aqui, quando ele justificou porque criou a 1ª Escola Metodista em Kingswood: ” A proposta é… ensinar as crianças mais pobres a ler, escrever e fazer contas, mas especialmente (com a ajuda de Deus) a conhecer Deus e Jesus Cristo.” Trabalhamos com os pobres e oprimidos, para que sintam e creiam no amor de Deus nas nossas vidas, e, desse modo, venham a ser discípulos de Jesus. Trabalhamos com a juventude para que cresça no conhecimento de Deus, e confesse permanentemente a Jesus e testemunhe que são discípulos de Jesus. Trabalhamos com idosos, para encarnar o amor de Deus em serviços, e estes vejam e confessem que Jesus Cristo é o Senhor. Enfatizamos a escola dominical, para que aqueles que são batizados em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo sejam ensinados a guardar todas as coisas que Jesus nos ordenou, e tornarem-se, assim, discípulos de Jesus. Enfatizamos a expansão missionária, os grupos pequenos de santificação e testemunho, para que os discípulos cresçam em santidade e novos discípulos sejam atraídos pelos sinais de amor de Deus que o Senhor faz surgir no meio do seu povo, como dizia o apóstolo Paulo acerca dos Tessalonicenses: “Porque de vós repercutiu a palavra do Senhor, não só na Macedônia e Acaia, mas por toda parte se divulgou a vossa fé para com Deus, a tal ponto de não termos necessidade de acrescentar cousa alguma; pois eles mesmos, no tocante a nós, proclamam que repercussão teve o nosso ingresso no vosso meio, e como, deixando os ídolos, vos convertestes a Deus, para servirdes o Deus vivo e verdadeiro.” (1Ts 1.8-9).

E, finalmente, promovemos o dízimo como prioridade; primeiro porque cabe a nós discípulos(as) cumprir as ordenanças bíblicas (cf. Ml 3.10;. Mt 5.17-18); segundo por ser esta a maneira bíblica de levantarmos recursos para investir na missão de Deus.

3. A Igreja primitiva fez discípulos – (Atos 2.41-47)

Estamos mais do que convencidos acerca do fato de ter a Igreja Primitiva dois níveis básicos de seu discipulado. Os grupos pequenos, que, de certa forma, reproduziam o círculo de Jesus e seus doze discípulos, e o círculo maior dos setenta discípulos, e, por outro lado à medida que iam se convertendo, se reuniam de casa em casa, na maioria das vezes.

Grupos de até vinte pessoas, possivelmente a dimensão que comportavam as residências em Jerusalém, mais tarde por toda a Judéia e Samaria. Esses círculos de catequese eram também espaços de evangelização; vede a casa de Cornélio; este já orava, e buscava (cf. Atos 10.22), até que chama Pedro a sua casa. Nossa principal referência é que os 120 do dia de Pentecostes, com mais os 3.000, precisaram de muitas casas para prosseguir na doutrina dos apóstolos, no partir do pão, e nas orações, para prosseguirem no discipulado de Jesus. Mas esta que foi uma contingência da igreja nascente, não foi perdida, mesmo quando a Igreja passou a ter espaços maiores como nos revela Atos 6, quando da eleição dos diáconos, momento em que a Igreja seguiu se expandindo em ministérios de fazer discípulos casa por casa, família por família (cf. Atos 8.3; Atos 9.11-19).

4. O Metodismo primitivo e o discipulado

Melhor do que meus argumentos, vejamos o depoimento de Wesley sobre o desenvolvimento do discipulado através das Sociedades e dos pequenos grupos de santidade:

“Oito ou dez pessoas vieram a mim, em Londres, em fins de 1739, e pareciam profundamente convencidas do pecado e a suspirar sinceramente pela redenção. Como duas ou três fizeram no dia seguinte, desejavam que eu orasse com elas e as aconselhasse sobre como fugirem da ira vindoura, que pendia constantemente sobre as suas cabeças. Para que tivéssemos mais tempo para essa grande obra, marquei um dia em que poderiam vir juntas. Elas o fizeram todas as semanas, especialmente às quintas-feiras à noite. Dei a estas e a quantas outras desejassem, pois o seu número crescia dia a dia, os conselhos que julguei necessários, e sempre terminávamos a nossa reunião com oração adequada às suas diferentes necessidades.

Essa foi a origem da Sociedade Unida, primeiro em Londres e, depois, em outros lugares. Esta sociedade não é senão um grupo de homens procurando o poder da piedade, unidos para orarem juntos, para receberem a palavra de exortação e para vigiarem uns pelos outros em amor, a fim de que possam auxiliar-se mutuamente a conseguir a sua salvação”.

“Para que se possa discernir mais facilmente se estão realmente realizando a sua salvação, cada sociedade é dividida em grupos menores chamados classes, de acordo com as suas residências. Há cerca de 12 pessoas em cada classe, sendo uma delas indicada para ser o líder. É dever deste: 1) Visitar cada um de sua classe pelo menos uma vez por semana, para indagar dele a respeito do progresso de sua alma; para aconselhar, reprovar, confortar ou exortar, conforme as exigências da ocasião; para receber o que queiram dar para alívio dos pobres. 2) Encontrar-se com o ministro e com os mordomos da sociedade uma vez por semana para informar ao ministro de alguém que esteja doente, de alguém que não esteja andando bem e não aceita reprimenda; para entregar aos mordomos o que receberam das classes na semana anterior e dar conta da contribuição de cada pessoa.”

Conclusão

Neste caminho, o Metodismo se tornou uma força missionária em todos os continentes, e, onde não perdeu esta paixão pelas vidas sem Cristo, e no discipulado, guiando os convertidos a uma vida crescente em santidade, seguimos nos multiplicando.

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