Lavando as mãos

(sermão dramatizado, pregado pelo pr.paulo damião, vestido com roupas típicas da época de pilatos, no domingo de páscoa – 23/04/2000 – na ipi central de presidente prudente – sp)
meu nome é pôncio pilatos. sei que sou uma figura mundialmente conhecida, mas, queria lhes contar um pouco da minha vida. conto com a preciosa atenção de todos, pois, o que aconteceu comigo, poderá acontecer com todos que aqui estão.
sou de origem samita, nasci no ano 5º ac, filho de pais da classe média alta e quando jovem, me ingressei na cavalaria romana.
decidi me envolver com a carreira política, tendo sido nomeado pelo imperador tibério, como governador da judéia, no ano 26 d.c.
a judéia, era uma região pouco desejada pelos políticos de carreira, porque, o relacionamento com o povo judeu e em especial, com seus líderes religiosos, era muito problemático.
enfim, quando se está no começo de uma carreira, não dá para ficar escolhendo e então me mudei para cesaréia, às margens do mar mediterrãneo, juntamente com minha esposa.
como governador, tinha pleno controle sobre a província. possuía uma cavalaria com 120 homens e cinco batalhões de infantaria, num total de 5.000 soldados. em jerusalém, na fortaleza de antonia, implantei um destacamento militar.
disposto a não dar espaço para as autoridades judáicas, assumi o controle do templo, administrando suas finanças e nomeando os sumos sacerdotes. até as vestes sacerdotais, estavam sob meu controle.
além disso, minha primeira ação como governador, foi trazer imagens do imperador para jerusalém, provocando a ira de todo o povo.
o dinheiro arrecadado no templo era muito para a subsistência dos sacerdotes. assim, resolvi desviar parte da verba para a construção de um grande aqueduto, trazendo água doce de uma fonte localizada à 40 kilometros de cesaréia. as ruínas deste aqueduto ainda estão por lá!
quando o povo e as autoridades reagiram contra tal projeto, eu, deliberadamente, instiquei a cavalaria à se lançar contra a multidão. muitos morreram e outros ficaram gravemente feridos.
certa ocasião, o povo de israel acreditou num falso profeta que dizia existir no monte gerisim, em samaria, vasos sagrados enterrados por moisés, cujos poderes, capacitariam o povo a derrubar o imperador, assim como, derrubaram o faraó do egito. cerquei o monte gerisim, desbaratei a multidão e executei os líderes do movimento. eu era violento, bravo e gostava de despeitar os outros.
por ser personalista, egoísta e arrogante, não me dava bem com meus colegas governadores. eu tinha uma raiva muito grande de herodes e por isso, acabei matando vários de seus súditos.
isto me rendeu um processo e daí em diante, eu decidi dar um outro rumo à minha vida, sendo mais condescendente para com tudo e todos.
até mandei tirar as imagens do governador, que havia colocado em jerusalém, pois, não queria mais problemas na minha carreira.
certa noite de quinta-feira, os sumos sacerdotes trouxeram à minha presença um jovem bem afeiçoado, forte, de olhar profundo e generoso, chamado jesus. ele havia nascido em belem, crescera em nazaré e aos 30 anos de vida, estava sendo acusado de heresias e de tentar contra o imperador, pois, se denominava ou era chamado de: “o rei dos judeus”. ora, o rei dos judeus só poderia ser o imperador e ninguém mais.
como o sinédrio, organismo judeu que controlava a religião e os costumes judáicos, estava pedindo a pena máxima, isto é, a pena de morte, se fazia necessário a minha participação no julgamento, pois, só eu poderia decidir sobre se ele merecia morrer ou não.
resolvi interrogá-lo e para a minha supresa, ele ficou calado diante de muitas perguntas que lhe fiz, mas, cheguei à conclusão de que ele não merecia ir para a cruz, que na época, era o instrumento de pena de morte.
chamei os sumos-sacerdotes e os comuniquei da minha decisão. eles não gostaram! previniram-me de que, desde que o tal jesus começara seu ministério, a renda do templo tinha caído muito e consequentemente, minha parte desta renda, também, tinha diminuído.
a pressão desses poderosos líderes foi tão grande que eu decidi….. “lavar as mãos!”
ah! que vergonha! se eu pudesse voltar atrás e enfrentá-los. eu, o governador romano, a maior autoridade na província não suportei às pressões dos poderosos.
eu espero que você que me ouve nesta noite, seja diferente de mim. não se deixe vencer! não se deixe intimidar! nunca abra mão da sua autoridade por nada neste mundo! nem por bens, por dinheiro, por poder! por nada!
mas, além de não suportar as pressões dos poderosos, eu cometi um outro grave erro.
como você se lembra, quando me mudei para cesaréia, levei minha esposa comigo. ela nunca se envolvia em questões políticas, ainda que, de vez em quando, eu lhe pedisse algum conselho. é preciso destacar que, todas as vezes que segui suas orientações, sempre fui bem sucedido.
curiosamente, naquela noite, em que estava interrogando jesus, eis que a minha querida esposa foi até o tribunal e pediu para conversar comigo em separado. percebí seu rosto tenso, preocupado e até angustiado.
na sala anexa ao tribunal, ela me relatou que tivera um sonho muito ruim , no qual ela muito sofrera por causa do tal jesus, que estava sendo acusado pelos judeus e interrogado por mim. pediu-me com todas as forças do seu coração, derramando muitas lágrimas: “não te envolvas com o sangue deste justo!”
foi interessante, pois, eu não havia tido tempo de ir em casa e não conversara nada com ela sobre jesus e tanto ela como eu, não estávamos vendo nada que pudesse condenar aquele belo jovem à morte. para lhe tranquilizar, eu prometi que levaria em conta o seu conselho e que ela poderia voltar para casa.
porém, ao voltar para o tribunal, esquecí-me completamente do seu conselho e me envolvi, cada vez mais, no interrogatório do jovem galileu, cuja fama era de ter curado enfermos, alimentado multidões, expulsado demônios de muitas pessoas e que só andava fazendo o bem.
e ao me esquecer do seu conselho, preferi…. “lavar as mãos!”
que tristeza! eu não levei em conta o conselho da minha esposa e acabei envolvido e me envolvendo num dos maiores crimes da história: a crucificação de jesus de nazaré!
ah! se eu pudesse voltar atrás! ah! se eu tivesse atendido ao conselho da minha querida esposa! por isso, eu digo à você, hoje, com todas as forças que ainda me restam: não jogue fora os conselhos das pessoas que te amam! não despreze a orientação dos mais velhos! não menospreze os conselhos dos seus pais, irmãos e amigos! estes conselhos, se bons e obedecidos, poderão salvar tua vida!
pois é! a minha história ainda não acabou!
houve um momento no julgamento de jesus, em que eu pensei estar sendo muito esperto. como a pressão das autoridades era grande, eu procurei uma saída: coloquei jesus diante de todo o povo!
tudo isto estava acontecendo na festa da páscoa, a principal festa dos judeus e havia uma tradição de que, nesta festa, o imperador podia libertar um ou mais prisioneiros judeus.
olhando a lista dos prisioneiros, escolhi um dos mais perigosos, chamado barrabás. ele havia assaltado muitas casas, havia matado 5 pessoas e estuprado várias garotas. pensei comigo: “ninguém vai querer barrabás solto na rua de novo!” entre jesus e barrabás, com toda a certeza eles vão pedir que eu liberte jesus!
qual foi a minha surpresa! ao perguntar à multidão reunida em frente do palácio: “qual dos dois quereis que eu vos solte?!” eles responderam: “barrabás! barrabás! barrabás!”
tentei mais uma saída: eles poderiam pedir que su soltasse, também, a jesus. eles sabiam que eu tinha este poder, de não libertar apenas um preso, mas, quantos eu desejasse. então perguntei: “o que farei de jesus, chamado o cristo?!” a multidão, orientada pelos sacerdotes, respondeu: “crucifica-o! crucifica-o! crucifica-o!”
não convencido, ainda perguntei: “mas, que mal fez ele?” entretanto, a multidão não me ouviu, pois continou gritando: “crucifica-o! crucifica-o!”
vendo que não conseguia me comunicar mais com o povo e não querendo desagradá-lo….. “lavei as mãos!”
ah! meus caros ouvintes! quem dera eu não tivesse cedido às pressões populares. para não estragar a festa deles, preferi me calar. importava-me mais, não gerar nenhum tipo de conflito popular, pois, eu desejava crescer na vida política.
prestem atenção: mesmo quando toda a sociedade pender para um lado que seja errado e condenável, seja firme! não faça como eu! mantenha sua posição, seus princípios, sua dignidade acima de tudo. especialmente a vocês jovens, eu digo: cuidado com certos convites, com determinados ambientes e pessoas. pode parecer que não há nenhum perigo, mas, é assim mesmo, os caminhos de morte nunca se manifestam feios para nós! só depois e as vezes já sem retorno, é que a gente descobre a armadilha em que caiu.
finalmente, pois, ninguém aqui é obrigado a ficar ouvindo minha história e minhas memórias, eu ainda fiz mais uma coisa errada: eu fiz calar a minha própria consciência!
eu era o governador! tinha me preparado para ser autoridade romana com muito esmero! sabia que, diante de tudo que tinha apurado e de todas as pressões que estava recebendo, que jesus era inocente!
ao saber que ele era galileu, portanto, vivia na província vizinha governada por herodes, meu inimigo, resolvi enviar-lhe jesus , afim de me livrar da situação.
herodes desejava muito conhecer jesus e quis obrigá-lo a realizar um milagre, mas, jesus o recusou! diante disso, herodes o tratou com desprezo, vestiu nele um manto e o trouxe de volta a mim.
uma coisa interessante foi que, naquele dia, por causa de jesus, eu e herodes reatamos nossa amizade, nos reconciliamos diante dos problemas do passado.
nem mesmo isso despertou a minha consciência! aquele jovem simples, porém, de olhar penetrante, foi o instrumento para minha reconciliação e eu não fiz nada para retribuir-lhe.
novamente, estava eu na sacada do palácio, tendo uma grande multidão diante de mim. já estava amanhecendo a sexta-feira! o assunto jesus durou toda a noite de quinta. eu estava exausto! cansado!
mesmo assim, decidi o seguinte: já que nem eu nem herodes achamos nada em jesus que pudesse condená-lo, vou castigá-lo com algumas chibatadas e depois soltá-lo.
quando a multidão ouviu minha decisão, gritou ainda mais forte: “fora com jesus! queremos barrabás!
por mais duas vezes, eu disse que libertaria jesus e eles gritavam tanto que, mandei trazer uma bacia com água, como esta, e desejando acabar logo com tudo aquilo, querendo ir embora para casa e não desejoso de me envolver mais com jesus, fiz um gesto pelo qual passei para a história.
mesmo quando a minha consciência me dizia que jesus era inocente, eu preferi….. “lavar as mãos!”
que lamento! quem dera eu pudesse voltar no tempo e fazer aquilo que a minha consciência ordenava fazer. porém, vencido pelo cansaço, pelas pressões e pela omissão, eu tentei abafar a minha consciência.
senhoras e senhores que me ouvem neste auditório: permitam-me lembrar-lhes que, colocar a cabeça no travesseiro e dormir em paz é uma das melhores coisas da vida. porém, como é dificil conciliar o sono com a nossa consciência nos acusando! portanto, no que depender de vocês, vivam em paz com vocês mesmos , com todos e acima de tudo, com deus!
vocês sabem como está a minha vida hoje? logo após a morte de jesus, minha mulher me deixou e eu entrei numa profunda depressão.
sem motivação, doente e combalido, descuidei do meu trabalho e no reinado de gaio, no ano 37 d.c., fui substituído no governo da judéia. acabei encostado num canto escuro pelo imperador, que nunca mais me recebeu em sua presença.
perdi tudo o que tinha, tentando curar minha depressão que em pouco tempo, se transformou em loucura.
o pior de tudo é que, todas as vezes que vou lavar as mãos, eu me lembro de jesus, do seu rosto, do seu olhar, das suas mãos e pés furados pelos pregos, do sangue correndo pela sua face, ferida por uma coroa de espinhos.
e o que mais me desespera é que, quanto mais eu lavo as mãos, mais eu as vejo manchadas com o sangue daquele justo!
meu destino não será outro senão o suicídio! uma vez mais, serei covarde comigo mesmo e com a vida. meus sonhos não se concretizaram, porque um dia….. “eu lavei as mãos!”
senhoras e senhores, no que depender de vocês, nunca façam o que eu fiz! nunca lavem as mãos!!!!!

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