Mulheres Solitárias, Enfrentando a Realidade

(baseado no livro de Rute)

Introdução

Neste primeiro momento vamos tentar olhar o desafio da solidão com clareza, com rudeza se for necessário, mas com verdade e, enfrentar a nossa realidade, como estamos vivendo. Eu me sinto extremamente à vontade para falar porque não conheço o seu caso específico. Talvez esteja lendo este texto em busca de subsídio para ajudar outras pessoas. Talvez esteja sentido-se só e deseje encontrar sentido e esperança para o futuro. Não sei quais são os rastos de vida que possa ter deixado para trás. Por isso, tome a minha ignorância como maior álibi que eu tenho para falar com a franqueza que desejo falar com você.

Desenvolvimento

Enfrentando esta realidade amarga podem estar vivendo as viúvas, as abandonadas, as desquitadas, as divorciadas e as solteiras com idade avançada. Embora com realidades diferentes a sua situação pode ser muito semelhante.

Na experiência das viúvas, o fenómeno mais marcante na sua vida é a saudade. A memória fica grávida; e nessas horas, mesmo aquele marido que a fez sofrer, quando parte ganha a fisionomia de herói e os piores momentos são sepultados com ele. Ressuscitam-se os grandes momentos e o pigmeu torna-se Golias. Com a saudade surge tantas vezes a carência. E esse é um problema que atinge mais as viúvas novas. O marido se foi; a cama vazia não tem mais aquele pé enroscado no seu de madrugada. O cheiro do travesseiro já se foi, foi lavado. Com a carência surge a insegurança. A educação dos filhos, se os houver. As contas da renda, da água, da luz e dos gás que ficam por pagar. E outras realidades que se apresentam com um aparente gigantismo que alarma a mulher só. E a tudo isto, acumule ainda a auto-piedade. “Pobre de mim”! isto só me acontece a mim! Que vou fazer agora? Etc.

As abandonadas são aquelas que foram deixadas pelos maridos. O marido sai de casa para viver com outra pessoa, volta à casa dos pais, ou pior ainda! Quando sai para viver com outra pessoa, pelo menos, ainda que má, a mulher fica com uma justificação. Mas, quando sai para viver com ninguém, significa que ninguém para ele é melhor que viver com a esposa. As mulheres abandonadas são as viúvas sem dignidade, porque a viúva tem a dignidade da saudade. Ele não está comigo porque morreu, senão estaria comigo! Mas a abandonada não pode dizer isso. E, nestes casos, o que acontece com elas é que o “amor próprio” fica extremamente golpeado, e surge o ódio, a revolta, e a carência vem à toda de forma descontrolada.

A divorciada! A divorciada é psicologicamente como uma solteira mas com a memória marcada e cheia de temores. É alguém com uma história amarga para contar. É uma mulher desiludida, marcada, complexada, apavorada e temerosa. Desacreditada de toda a possibilidade de felicidade é como uma “solteira” dolorida.

«A solteira de idade avançada – como é comum dizer-se: solteirona! – é uma mulher que pode viver frustrada porque a sua experiência nunca passou de uma expectativa, de um sonho, de imagens construídas na sua mente e coração, de planos, ilusões e de alguma fantasia. Por vezes, com algumas tentativas fracassadas de amor pelo meio. Combate-lhe os pensamentos contraditórios da vocação de mãe e de esposa que crê ser. O enxoval que reuniu com carinho durante anos, e do qual não sabe o que fazer. E, destas experiências surge o sentimento de desânimo: desânimo pela sua vida, desânimo pela sua fé, desanimo por tudo… que a pode conduzir a atitudes precipitadas, nomeadamente procurar no mundo – e por vezes para seu próprio prejuízo – o homem que sempre procurou na igreja e não encontrou. A precipitação é o pior erro que pode acometer à solteira, que é uma consequência de não continuar a esperar no Senhor.» (VPP)

«Não queremos examinar estas questões do ponto de vista doutrinário, mas devocional, considerando os inúmeros casos existentes no mundo e já muito frequentes na igreja; alguns ali ocorridos e outros de pessoas que vieram nessa situação ao conhecimento de nosso Senhor Jesus Cristo.» (VPP) E, a questão básica agora é como sarar as feridas? Porque todas estas experiências geram marcas, provocam dores, em algumas pessoas criam ódio, noutras desconfiança, noutras mágoas, noutras complexos, e ainda noutras a auto-imagem fica reduzida a nada. Muitas pensam que a vida lhes boicotou a felicidade, abandonando-as.

Deus, antevendo todas estas situações, deixou registado na Sua Palavra, algumas mulheres que tiveram este tipo de experiência e sentimentos. Vejamos no Livro de Rute, capítulo 1, versículo 20, o que Noemi disse em Belém: «chamai-me Mara, porque grande amargura me tem dado o Todo-Poderoso». E no versículo 13 às suas duas noras: “Mais amargo me é a mim do que a vós mesmas, porquanto a mão do Senhor se descarregou contra mim».

Vejam o resultado psicológico da viuvez, da ausência do companheiro, mesmo na vida dos personagens bíblicos mais brilhantes, e como o ser humano é ser humano em qualquer lugar e em qualquer época. Mas na Bíblia nós temos mulheres cuja reacção a essas situações as tornou hoje um digno exemplo.

Rute é o exemplo da viúva nova, como Noemi é exemplo da viúva idosa, porque em ambos os casos há atitudes diferentes a serem nutridas dentro das mulheres.

Diz a Escritura que o seu casamento tinha durado dez anos. E dez anos de casamento é ainda lua-de-mel. O casamento está na sua adolescência. Mas ele morre!

Nesta situação ela não baixa os braços. O que ela fez para enfrentar a sua solidão? Com sua fé, Rute está disposta a mudar geograficamente se houver necessidade, e a primeira coisa que fez foi fortalecer as velhas amizades. Não se isolou, não vai viver de memórias e de lugares. Nos versículos 16 e 17 sua sogra lhe diz para voltar para os seus. Mas ela responde: «onde quer que tu fores, eu irei!» Estas palavras têm sido usadas em casamentos, para a mulher dizer ao marido e vice-versa. No entanto, elas foram ditas da nora para a sogra. Que exemplo notável temos nós aqui de relacionamento sogra/nora!

A pior coisa que pode acontecer é a mulher pensar que com a falta de marido a vida acabou para ela. Rute não pensa assim! Maalon era o seu amado, mas a relação interpessoal não é só aquela que se tem com o companheiro conjugal.

Rute procura ocupação. Não deixa que a sua mente se transforme num baú de velhas memórias. Ela transforma sua mente numa oficina de coisas novas, ela vai à luta, não fica consumida entre lembranças e histórias do marido em casa. Ela disse a sua sogra: «deixa-me ir ao campo, e apanharei espigas…» (2:2-3). Paulo já dizia a Timóteo que há um grande perigo quando as viúvas novas ficam desocupadas (I Tim. 5:13).

Tendo oportunidade, Rute casou. As viúvas que esperam no Senhor, O Senhor pode transformar o seu mal num bem maior que teria na situação anterior, se o contratempo lhe não tivesse vindo. Ela soube esperar no Senhor, e casou (I Cor. 7:39). E não foi um casamento qualquer. O maior momento da sua história começou ali. Ela mesmo gentia, veio a ser bisavó de Davi, o maior rei de Israel e mãe pela ascendência do Messias de Israel (Mat. 1:5-6).

Noemi é o exemplo da viúva idosa. E, além daquilo que foi dito para as viúvas novas, que poderá ser aplicado pontualmente às mais idosas, podemos ainda referir mais o seguinte: em primeiro lugar ela pensa em sobreviver. No capítulo 1, verso 6, ela diz: «Então se levantou ela com suas noras, e voltou dos campos de Moabe, porquanto ouvira que o Senhor tinha visitado o seu povo, dando-lhe pão». Algumas viúvas suicidam-se psicologicamente e isolam-se. Noemi não, acha que «sobreviver é preciso!»

Depois, ela não se torna dependente de ninguém. Amizade é uma coisa, dependência é outra. Nos versos 8 e 9, ela diz a sua noras: «ide às vossas terras, cada uma case e tenha marido… e sede felizes…!» Será que a maioria das sogras diria isto às suas noras, em circunstâncias iguais? Provavelmente diria: «não vão embora; lembrai-vos que foram mulheres dos meus filhos, e têm que me ajudar…!» E se elas procurassem marido, eram logo acusadas das piores coisas.

Noemi tinha a felicidade em potencial no coração. Era uma idosa que não se tinha cansado de sonhar com o amor. Ela só não casa de novo porque não tinha razão biológica para isso. Mas admite-o nos outros. Não se deixa, por isso, influenciar e dominar por aquela maneira de ser característica de pessoas idosas. Não dá para mim, não dá para os outros. Ela, antes procura ajudar as mais novas – vers. 9, 11, 12. Com isso a sua vida se perpetuava na vida da sua nora, cujo filho lhe viria suscitar o nome da sua família, conforme rezava a Lei (4:5). Ela mesma criou o filho de Rute (4:16), tornando-se útil na sua família, à semelhança do que Paulo tinha dito a Tito (2:3-5).

Raquel e Ana são tipos de exemplos de mulheres que têm problemas no lar. Há uma certa luta conjugal a travar, mas que não se deixam vencer. Raquel é aquela que ensina que vale a pena lutar pelo amor e que vale a pena lutar até à morte! (Gén. 30:1) Ana é exemplo daquela mulher que coloca os seus conflitos nas mãos de Deus e Ele providência o escape. Por vezes até não é da maneira como desejaria. Por vezes é mesmo descompreendida. Mas de Deus vem a resposta muito mais abundantemente alem daquilo que pedimos ou pensamos (I Sam. 1)

«Relativamente às solteiras, o Senhor fala das que o são por vocação (nascença), outras por obrigação, e ainda outras por opção (Mateus 19:12). Em qualquer caso, nunca devemos perder a consciência de que «quer vivamos, quer morramos, somos do Senhor» (Rom. 14:8). E este é o facto mais sublime que podemos ter e imaginar. Por isso, não podemos limitar a nossa vida a esse tipo de experiências – que não passam de humanas e sociais – com o próprio Senhor, que «é mais sublime que os céus» (Heb. 7:26). Disse Elcana a sua mulher: «não sou eu melhor que dez filhos?» (I Sam. 1:8). Ao que poderíamos adaptar e dizer: “não é o Senhor melhor que qualquer marido?” E, se for caso de mulher viúva, e enviuvar dez vezes, não é o Senhor melhor que todos eles? Vivendo de acordo com a vocação humana, isso dá-nos uma certa felicidade humana. No entanto, ela será sempre incerta e inconstante, em função com as circunstâncias da vida (I Cor. 7:24-28). Mas, a plenitude da felicidade está em vivermos de acordo com a vocação espiritual (Idem, 7:8). E, não podemos perder de vista esta realidade: «disponíveis para o Senhor, sendo úteis na Sua obra.» E, assim, tal como o Senhor disse, do ponto de vista humano, quando criou o homem, macho e fêmea, que era «muito bom» (Gén. 1:31), agora nos diz, do ponto de vista espiritual: «o que a não dá em casamento, faz melhor!» (I Cor. 7:38).» (VPP)

Conclusão
O balanço da vida não deve ser feito no seu início, ou no meio, mas no fim. E, para qualquer situação de vida da mulher casada, da desquitada, da abandonada, divorciada, viúva idosa ou nova, da mãe solteira, ou da solteira de idade avançada, aqui há um projecto de vida fantástico. Seja você quem for, é para essa arquitectura e movimento existencial que Deus a está chamando. Para a construção de uma coisa digna, sadia, responsável. E, no fim, o que você receberá será louvor. A minha esperança é que o Espírito Santo tenha acção sobre o eventual pessimismo da leitora, porque essa não é uma resposta para as super-a quinhoadas, cultas e aculturadas, inteligentes e académicas. Esse é um projecto de vida para seres humanos, para gente que se cinge de força, dignidade, de coragem e temor do Senhor. Esperança!

Adaptado por
Vítor Pereira do Paço

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