O Mutirão de Deus

Introdução

O texto lido da 1ª Epístola de Paulo aos Coríntios ajuda a nossa reflexão, neste momento solene de encerramento. Destaco o versículo 9 no qual o Apóstolo usa duas figuras para descrever a Igreja: 1) a lavoura; e, 2) a construção. Os eclesianos são comparados aos ” lavradores” ou aos “trabalhadores rurais” na seara, e, aos “trabalhadores da construção civil”, e chama a todos de “cooperadores”. A palavra “cooperadores” é uma das traduções da palavra grega “SYNERGOI”, que significa “trabalhadores com”. Jerônimo traduziu essa palavra grega para o latim, na Vulgata, usando a palavra “adjutor” que é a origem da palavra portuguesa “adjutório”, que tem três sentidos: a) esmola: b) Mister: e, c) (conforme o nosso dicionarista Aurélio, especialmente nos Estados da Bahia e Sergipe, essa palavra tem o sentido de) mutirão. E a palavra mutirão é de origem Tupi-guarani “mutiron” que os índios usavam para relembrar a sua tradição de propriedade coletiva da terra e dos bens, quando um grupo de índios ajudava um outro índio ou uma família que se achava em necessidade. Essa palavra é também hoje uma experiência brasileira de trabalhar coletivamente, nas cidades e na região rural, com o objetivo de trabalhar junto para ajudar alguém. Eu prefiro a ajuda da língua Tupi-guarani para pensar na palavra grega “SYNERGOI”, porque entendo que nesse texto de Paulo, Deus nos convida para participarmos de sua obra, como se fosse um grande Mutirão. Por isso eu chamo esta mensagem de encerramento de:

“O MUTIRÃO DE DEUS”, porque Deus, desde a Criação, começou um Mutirão, e, continua até hoje. Para esse Mutirão Ele está convidando as Igrejas e todos os cristãos.

I – Transformar o Caos em Oikoumene

Em Gn 1:2,3 lemos sobre a primeira parte do mutirão de Deus: “A terra, porém, era sem forma e vazia; havia trevas sobre a face do abismo, e o Espírito de Deus pairava por sobre as águas. Disse Deus: haja luz; e houve luz. ” A primeira parte da gigantesca obra da Criação não foi criar tudo “do nada”, mas transformar o “TOHU”, isto é, o CAOS em OIKOUMENE, que quer dizer: “casa habitável para todos.” Isso foi o que Deus fez nos seis dias da Criação. No última dia plantou um jardim, o Éden e colocou nele o homem que havia criado, “para o cultivar e o guardar.”(Gn 7.15). Com a entrada do pecado na realidade da Criação começou um movimento inverso, isto é, transformar o OIKOUMENE em CAOS, destruindo o Jardim. O profeta Isaias denunciou essa manobra destrutiva. Primeiramente condenou: “Porque assim diz o Senhor, que criou os céus, o único Deus, que formou a terra, que a fez e a estabeleceu; que não a fez para ser um CAOS (tohu), mas para ser habitada.” (Is 45.18). Depois apresentou o plano futuro de Deus: “Pois eis que crio novos céus e nova terra.” (Is 65.17) Essa promessa que ecoou na 2ª Epístola de Pedro e no Livro do Apocalipse, mostrava que Deus continua trabalhando na transformação do CAOS em OIKOUMENE. Ele continua empenhado nesse Mutirão. “Meu Pai trabalha até agora, e eu trabalho também,” (Jo 5.17) disse Jesus referindo-se ao Mutirão do Pai.
Hoje a humanidade está ameaçada na sua própria sobrevivência por causa da volta ao CAOS, pela poluição e pela destruição das obras da Criação. Tudo o que Deus fez para que suas criaturas vivessem bem, como se estivessem debaixo do mesmo teto (OIKOUMENE) está sendo paulatinamente dizimado pelo próprio homem. Não pode ficar ausente da pauta das atividades das Igrejas e das famílias cristãs o ítem sobre a defesa do meio ambiente e da ecologia. Essa é uma luta cuja bandeira está nas primeiras páginas da Bíblia. E, quando Paulo fala que somos “cooperadores de Deus” está afirmando que todos nós somos convidados para participar do Mutirão de Deus. (Salmo 8°)
A IPU é uma Igreja com consciência ecológica, arauto dos Novos Céus e da Nova Terra, na esperança escatológica da consumação do Reino de Deus.

II – Fazer o Homem e a Mulher

A segunda parte do Mutirão de Deus está revelada em Gn 1.26. “Disse Deus: Façamos o homem (ADAM=Homem e Mulher) à nossa imagem, conforme a nossa semelhança…” Desde o 6° dia da Criação Deus começou a fazer o ser humano. O pecado corrompeu a imagem e a semelhança de Deus no ser humano. Todo o esforço que Deus tem feito pelos Patriarcas, pelos Profetas, por Cristo e pela Igreja até hoje, tem sido para cumprir esse lema: “Façamos o homem!”. O pecado, através de suas expressões individuais e coletivas, tem outro lema: “Destruamos o Homem!” Como bem expressa o título do livro do grande filósofo cristão deste século, Gabriel Marcel, “Os Homens contra o Homem” em que ele descreve as técnicas de aviltamento da pessoa humana desenvolvidas em pleno século XX. Deus quer construir o ser humano pelo modelo de sua verdadeira imagem, que é Cristo. “Ele é a imagem do Deus invisível” (Cl 1.15). “até que todos cheguemos à unidade da fé… à perfeita varonilidade (ANDRA), à medida da estatura da plenitude de Cristo.” (Ef 4.13.) Todo o plano salvífico de Deus obedece ao lema “Façamos o Homem.” Todo o plano de evangelização das Igrejas e dos cristãos deve estar debaixo dessa bandeira do mutirão de Deus: “Façamos o Homem!”.
No Brasil a pessoa humana tem sido colocada em situação “sub-humana” de “sub-pessoa”. Milhões estão assim no Nordeste brasileiro e nas periferias de todas as grandes e médias cidades. No passado, quando alguém se rebelava contra essa desumanização era perseguido e morto pela polícia que lhe cortava a cabeça. Assim cortaram as cabeças de Antônio Conselheiro, Lampião, Maria Bonita e de outros. Hoje há métodos mais sofisticados. No plano de Mutirão de Deus, em João 3.16, a vida eterna é a vida plena e abundante que começa aqui e agora. E para que esse plano se cumprisse foram necessários a cruz e o túmulo vazio para que fossem denunciadas todas as estratégias da morte que foram ameaçadas pela vitória da Ressurreição.
A IPU é uma Igreja com consciência da justiça social e, que com a sua declaração adotada em Atibaia intitulada “Pronunciamento Social” adota a postura profética de denúncia e de proclamação daquele que veio para dar “vida e vida em abundância”. (Jo 10.10).

III – Criar a Comunidade de Fé (Koinonia)

Continuando a Criação, agora ameaçada pelo pecado, Deus chama, lá dos confins da Caldéia, da cidade de Ur, um homem que foi testado duramente em sua fé, Abraão, com sua família, com a finalidade de começar uma nova comunidade baseada na Fé verdadeira: “sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai, e vai para a terra que te mostrarei; de ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção… em ti serão benditas todas as famílias da terra.” (Gn 12.1-3)

Aqui está o início do povo de Israel, da assembléia de Javé que foi criada para viver uma nova realidade que se fortaleceu com a chamada dos profetas, a partir de Samuel. Na chamada de Abraão foi lançada uma das primeiras pedras para a construção do Reino de Deus. Jesus veio estabelecer o Reino e começou a formar a ECCLESIA MOU (minha assembléia), que em Pentecostes foi fundada pela ação do Espírito Santo. No Pentecostes a KOINONIA da Fé foi fortalecida pela vida comunitária dos primeiros cristãos em Jerusalém. Essa era a continuação de um processo que começou com a chamada de um povo, em Abraão, depois a Relíquia ou o Remanescente desse povo, depois Jesus e a sua Igreja e a continuação do grande movimento do Caminho, do Reino de Deus que tem na Igreja a sua principal agência, o seu mais útil instrumento, sendo ela a “vanguarda “desse novo Reino e a amostra da futura humanidade que Deus resolveu criar na realidade universal. Deus está lutando para formar essa nova comunidade de Fé. É parte do seu Mutirão.
A IPU surgiu no cenário brasileiro com a convicção de ser Igreja com proposta nova de ser uma comunidade de Fé e de Serviço dentro da cultura e da realidade de nossa vivência histórica dentro do Mutirão de Deus.

Conclusão

Uma das experiências mais significativas dos mutirões dos quais eu tenho participado, é no seu final, quando todo o grupo se reúne e festeja o término do trabalho realizado, com uma deliciosa feijoada. Durante o dia, logo cedo, enquanto as pessoas estão começando o mutirão, alguém coloca o feijão e as carnes na panela e começa a preparar a feijoada. Quando chega à tarde o povo está cansado e com fome e pronto para saborear a feijoada acompanhada com muita pimenta, farinha e bebidas. Assim o mutirão termina com a festa de uma grande e deliciosa refeição.
Segundo as promessas de Deus aqueles que participam de seu Mutirão um dia serão convidados, na consumação do seu Reino, para uma grande refeição no grande júbilo do céu “Bem-aventurados aqueles que são chamados à ceia das bodas do Cordeiro.” (Ap 19.9.) Foram os cooperadores de Deus, a lavoura de Deus e a sua construção pelos caminhos da Igreja Militante. Agora serão participantes da grande festa. Por isso neste final de Assembléia, no dealbar de mais um biênio, tenho o privilégio de convidar todos os irmãos e todas as irmãs, todas as Igrejas e Presbitérios, em nome do Senhor, a participar do grande Mutirão de Deus.

* Pregado no Culto de Encerramento da Assembléia Geral de 1991, em Mariápolis, SP.

Compartilhe a BençãoEmail this to someone
email
Print this page
Print
Tweet about this on Twitter
Twitter
Share on Facebook
Facebook
Share on LinkedIn
Linkedin

Comentários

comments

Contribua com sua opinião