O Sonho não acabou

1. Quando os fatos nos impedem de sonhar.
Sem medo de ser feliz. Sem medo de sonhar. São frases que marcaram a campanha do Partido dos Trabalhadores; sim, um operário na presidência, um sonho atrevido, contestado por todo tipo de preconceito, mas que se realizou. A esperança venceu o medo, dizíamos nós, eleitores do Lula.
E, agora, estamos com todo esse vulcão político a derramar lavas de prostituição e corrupção, tendo o governo no centro do vulcão. É verdade que o vulcão sempre esteve lá presente, mas mantido adormecido para a maioria da sociedade.
O sonho acabou! Dizem muitos. Na verdade, a lição que estamos reaprendendo é a advertência constante das Escrituras: “Assim diz o Senhor: Maldito o homem que confia no homem, faz da carne mortal o seu braço, e aparta o seu coração do Senhor!” (Jr 17.5). E o profeta continua num claro paralelismo, dizendo: “Bendito o homem que confia no Senhor, cuja esperança é o Senhor.” (Jr 17.7). Nossa confiança no PT e em Lula tinha a ver com o sonho de uma sociedade mais justa, mais solidária e comprometida com os pobres, com a ética. Na verdade, a base do nosso sonho é o Senhor, que coloca no nosso coração sede de justiça, compromisso com os pobres, à semelhança dos profetas (cf. Is 58.6-10), de Jesus (cf. Lc 6.20-22), e mesmo de João Wesley.
Por tudo isso, muitos brasileiros estão perplexos, desanimados, tristes. Os prognósticos é que as próximas eleições terão a maior taxa de votos nulos e em branco da história da nossa democracia. Uma descrença generalizada está tomando conta do povo. Daí que surgem as perguntas: Será que não devemos mais sonhar? Será que este quadro deprimente de corrupção generalizada vai nos impedir de sonhar?
Bem, quero fazer minha declaração: Eu me recuso a parar de sonhar! Deixem-me repartir uma frase de Augusto Cury: “Sem sonhos, as perdas se tornam insuportáveis, as pedras do caminho se tornam montanhas, os fracassos se transformam em golpes fatais. Mas, se você tiver grandes sonhos… seus erros produzirão crescimento, seus desafios produzirão oportunidades, seus medos produzirão coragem.”[1]
A ausência de sonhos nos imobiliza, tornamo-nos prisioneiros de nossos medos, a lógica da impossibilidade nos domina, e, atados, não queremos correr riscos, ou fugimos, ou nos escondemos da vida. Nos tornamos céticos, incrédulos e infelizes. Este imobilismo pode ocorrer com toda uma comunidade – a Igreja, nos fechamos nas nossas certezas, nada de novo acontece, não o queremos, temos temor de tudo, principalmente do novo, tudo é difícil, quase impossível.
Essa atitude pode ser tudo, menos Cristianismo; afinal Jesus mesmo anunciou: “Em verdade, em verdade vos digo que aquele que crê em mim fará também as obras que eu faço e outras maiores fará, porque eu vou para junto do Pai. E tudo quanto pedirdes em meu nome, isso farei, a fim de que o Pai seja glorificado no Filho.” (Jo 14.12-13). Sim, para Deus não há impossível em todos os seus propósitos. Eu, irmãos e irmãs, quero sonhar os sonhos de Deus. Gosto muito de um poema intitulado: “Eu tive um sonho”, de Margareth Fishback Powers[2], também conhecido como Pegadas na Areia. Leiamos:
Uma noite eu tive um sonho.
Sonhei que estava andando na praia com o Senhor e,
através do céu, passavam-se cenas da minha vida.
Para cada cena que se passava, percebi que eram deixados
dois pares de pegadas na areia;
Um era meu e o outro do Senhor.
Quando a última cena de minha vida passou diante de nós,
olhei para trás, para as pegada na areia,
e notei que, muitas vezes, no caminho de minha vida,
havia apenas um par de pegadas na areia.
Notei também que isso aconteceu nos momentos
mais difíceis e angustiosos de meu viver.
Isso entristeceu-me, deveras, e perguntei,
então, ao Senhor:
“Senhor, tu me disseste que, uma vez que eu resolvera Te seguir,
Tu andarias sempre comigo, em todo o caminho;
mas notei que, durante as maiores tribulações de meu viver,
havia na areia dos caminhos da vida apenas um par de pegadas.
Não compreendo por que, nas horas em que mais necessitava de Ti,
Tu me deixaste”
O Senhor me respondeu:
Minha preciosa filha, eu te amo e jamais te deixaria nas
Horas de tua prova e de teu sofrimento.
Quando viste na areia apenas um par de pegadas,
foi exatamente aí que Eu, nos braços, te carreguei.

Sonhar de olhos abertos é carregar a certeza de que, sim, podemos continuar, porque, quando ficar difícil, o sonho de olhos fechados de Margareth Fishback Powers será o nosso sonho. Sim, Deus está sempre conosco e nos conduzirá. Afinal, esta é a nossa fé; se O buscarmos e formos fiéis não precisamos temer: “Não to mandei eu? Sê forte e corajoso; não temas, nem te espantes, porque o Senhor, teu Deus, é contigo por onde quer que andares.” (Js 1.9).

2. Sonhando de olhos abertos.
Todos sabem que o Bispo é um sonhador. Sou mesmo. A fé me faz crer, como define Hebreus 11.1: “Ora, a fé é a certeza de coisas que se esperam, a convicção de fatos que se não vêem.” Certeza e convicção. Certeza do se espera! O que esperamos? O fracasso dos planos de Deus? De maneira nenhuma! Deus quer salvar este mundo, para isso enviou Jesus Cristo. Então eu não posso ter dúvida, Deus vai realizar esse sonho, que é a salvação do mundo, e eu sou parte disso; eu e você fomos chamados por Deus para isto: “Porque não ousarei discorrer sobre coisa alguma, senão sobre aquelas que Cristo fez por meu intermédio, para conduzir os gentios à obediência, por palavra e por obras, por força de sinais e prodígios, pelo poder do Espírito Santo; de maneira que, desde Jerusalém e circunvizinhanças até ao Ilírico, tenho divulgado o evangelho de Cristo, esforçando-me, deste modo, por pregar o evangelho, não onde Cristo já fora anunciado, para não edificar sobre fundamento alheio; antes, como está escrito: Hão de vê-lo aqueles que não tiveram notícia dele, e compreendê-lo os que nada tinham ouvido a seu respeito.” (Rm 15.18-21). Tal certeza estava no coração de Jesus quando entrou na sinagoga de Nazaré: “O Espírito do Senhor está sobre mim, pelo que me ungiu para evangelizar os pobres…” (Lc 4.18).
Quando Jesus proferiu tais palavras, o quadro de Israel era desolador: opressão por Herodes, opressão por Roma, pobres, escravos, dominação de Satanás nas vidas. À medida que Jesus foi conduzido pelo Espírito, Deus foi realizando seus planos salvíficos. O mesmo aconteceu com a Igreja Primitiva: “Crescia a palavra de Deus, e, em Jerusalém, se multiplicava o número dos discípulos; também muitíssimos sacerdotes obedeciam à fé.” (At 6.7).
Nosso Metodismo é pródigo dos testemunhos do poder de Deus se realizando na vida do grande sonhador que foi João Wesley, o qual enfrentou lutas e oposição de toda a ordem, mas sonhava e perseverava nos planos de Deus, e o Senhor o conduzia, dando-lhe vitória. Ouçamos um desses testemunhos[3]: “À tardinha, como não podíamos passar pela estrada comum, pedimos licença para passar pelos campos, e chegamos a Talmouth em bom tempo. A última vez que estive aqui, há cerca de quarenta anos, fui preso por um motim imenso, que rugia como leões. Mas como a maré se tem mudado! Ricos e pobres ficaram de cada lado da rua dum a outro lado da cidade, movidos pelo sentimento de amor e de bondade, olhando para mim como se eu fosse o rei que passasse. De tarde, preguei no cume dum morro alto e plano, perto do mar, à maior multidão que jamais se reuniu em Cornwall, senão em Redruth. Não testemunhei outra reunião igual desde que voltei da Irlanda. Deus moveu o coração do povo que parecia compreender o dia da sua visitação.”
Convicção de fatos que não se vêem. Eu tenho convicção de que Deus deseja que sua Igreja cresça. Afinal, isso aconteceu com a Igreja Primitiva, aconteceu com o Metodismo Primitivo, com o Metodismo nos E.U.A.; chegamos a 13 milhões de metodistas em nossa Igreja-mãe. Hoje, a diminuição do zelo evangelístico fez nossa Igreja diminuir nos E.U.A., mas ainda somos a segunda maior denominação evangélica naquele país. Na África do Sul, são 4 milhões de metodistas num país com cerca de 43 milhões de habitantes; isso significa quase 10% da população. Em termos do Brasil, isso corresponderia a 18 milhões de pessoas. Nós somos, hoje, no Brasil, cerca de 163 mil metodistas. Eu ficaria satisfeito com esse número se todo o restante da população fosse de discípulos e discípulas de Jesus. Mas não é esta a realidade, nem mesmo os que se dizem evangélicos são todos realmente discípulos de Cristo.
Transplantando para o Estado do Rio de Janeiro, com uma população de cerca de 16 milhões de pessoas, conforme o anuário estatístico do Estado do Rio, podemos afirmar sem erro que mais de 10 milhões de pessoas não conhecem a Jesus como Senhor e Salvador. Como não ter a convicção de que podemos ganhar um milhão de pessoas para Cristo? Deus está a favor disso; Ele nos enviou. O povo está sedento, prova disso são grupos religiosos que, biblicamente, nem Igreja são, muitos lobos em vez de pastores/as arrebanhando e explorando o povo. Por isso, se nós orarmos, nos santificarmos e restabelecermos nossa identidade de renovação, avivamento bíblico e paixão pelas vidas, certamente Deus fará com que o nosso trabalho se multiplique e a nossa semeadura da Palavra de Deus terá como colheita não apenas 30 por um, mas a medida de 100 por um. (cf. Mc 4.1-20). O que nos impede? Nossas fortalezas mentais que afirmam: não podemos, é impossível, afinal somos um pequeno povo mui feliz. Explosão de crescimento é coisa do pentecostalismo, dizem outros. Eu rejeito tudo isso. Creio que Deus nos deu uma herança de crescimento em santidade, e de vidas tocadas e transformadas pelo poder de Deus. O exemplo histórico, em diferentes países, com variadas culturas, onde Deus usou a Igreja Metodista e lhes deu uma explosão de crescimento, pode e deve ser buscado e experimentado entre nós. Um crescimento onde compromisso com a salvação de vidas no sentido mais integral possível gere um novo céu e uma nova terra, onde habite a graça, o amor e a justiça.
Afinal, irmãos e irmãs: “Se Deus é por nós, quem será contra nós?” Convido, exorto, mesmo, todos os metodistas da 1ª Região Eclesiástica a sonharem comigo, na direção de sermos uma Igreja, serva do Senhor, serva do povo carente, e que anuncia com intrepidez o amor, a graça e o poder de Deus, para o qual não há impossíveis em todos os seus propósitos. Amém! Amém! Amém!

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[1] Cury, Augusto – Nunca desista de seus sonhos. Rio de Janeiro: Sextante, 2004.

[2] Margareth Fishback Powers – Pegadas na Areia. São Paulo: Fundamento, 2004.

[3] Buyers, Paul E. – Trechos do Diário de John Wesley. Junta Geral de Educação Cristã: São Paulo. 1965. P. 65.

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