Procedimento Cristão

INTRODUÇÃO

Em nossos dias ser crente tem sido muito fácil. Já ouvi dizer que, hoje em dia, é até status ser chamado de evangélico. Ser ou não ser é a grande questão. Não adianta ter um belo título, “eu sou um crente batista”, ou “eu sou pentecostal, falo em línguas, etc…”. Essas coisas não valem nada se o proceder não reflete o caráter de Cristo em nossa vida. Não falo de doutrinas, que esta igreja é a certa, que aquela não presta. Falo no sentido de sermos ou não aprendizes de Cristo, testemunhas fiéis, capazes de uma auto negação dos nossos desejos, refletindo um evangelho bíblico através de uma reflexão crítica, autêntica e espiritual. Quando a pessoa começar a colocar os “achismos” na frente da vontade de Deus, e as “experiências” no lugar da Palavra, vemos então os exageros, os radicalismos, a não convivência com os diferentes e, acima de tudo, um evangelho de conveniências, de pecados ocultos e de extremos através de uma não reflexão, que só leva ao bitolamento espiritual.
O apóstolo Paulo tinha em mente uma preocupação com o estilo de vida dos cristãos. Podemos perceber isto em seus escritos e, principalmente neste texto de Efésios. Não adiantava estar na comunidade de fé se o proceder fora desta era o mesmo que o apóstolo chama no nosso texto de “gentios”. O proceder cristão vem através de um estilo de vida que tem por exemplo único e simples, Jesus Cristo. Parece-nos utópico demais, mas não significa dizer que seja fácil ou difícil. Temos que reconhecer que o apóstolo Paulo tinha muita coragem em recomendar-se a si mesmo: “Sede meus imitadores, como também eu de Cristo.” (I Co.11:1). Mas também tinha humildade bastante em reconhecer-se um grande pecador: “Fiel é esta palavra e digna de toda aceitação: que Cristo Jesus veio ao mundo para salvar os pecadores, dos quais sou eu o principal.” (I Tm.1:15). Podemos então examinar neste texto o proceder cristão que deve estar guardado em nosso coração:

I – PROCEDER CRISTÃO, ESTILO DE VIDA (v.17-19)

Quando pensamos em ser crente, nos vem a mente um livro de regras, o que fazer ou não fazer, o que é lícito ou não, etc. Alguns acham que um estilo de vida puritano seja a saída. Outros pensam que muitas atividades podem conferir-lhes um grau de santidade e aproximação de Deus. E tem até quem pense que a clausura seja uma boa idéia para cumprir a Palavra e não se contaminar com o mundo.
É estranho ver todas estas concepções que as vezes tem até “embasamento bíblico”, e comparar o que Jesus nos fala através de sua oração sacerdotal: “não peço que os tire do mundo, mas que os livre do mal.” (Jo.17:15). É mais interessante ainda perceber que o Senhor Jesus quer que fiquemos no mundo para dar sabor e luz (Mt.5:13-16).
A preocupação do apóstolo não é a de criar um movimento de pureza, nem de criar regras a serem obedecidas, mas criar uma consciência de que o proceder que existe no mundo não é o que aprendemos de Cristo (Ef.4:20). O proceder cristão é acima de tudo um estilo de vida comprometido com Cristo e sua Palavra, que tem reflexo na vida espiritual, social, moral e ética. Jesus, quando indagado sobre o maior mandamento, respondeu que o amor a Deus e ao próximo resumem a lei e os profetas (Mt.22:34-40).
Paulo no texto aos Efésios está bem próximo do que Jesus nos fala. Ele sabia que o legalismo religioso era tão perigoso quanto a libertinagem. Uma consciência de que devemos ser exemplos de Cristo é o essencial. Paulo começa chamando a atenção ao modo de vida nos versos 17 a 19. Palavra nos saltam aos olhos como: “…não mais andeis como os gentios…”, “entenebrecidos no entendimento…”, “dureza de coração…”, “insensíveis…”, “lascívia…”, “toda sorte de impureza…”.
Por isso o apóstolo nos chama a atenção “para que não andeis mais como andam os gentios…”(v.17). Aqui o termo andar significa também comportar-se, aponta para a ação habitual ou seja o dia-a-dia.. Paulo vai mais fundo quando nos diz que o proceder do mundo está no nível da mais profunda escuridão, que é a escuridão da mente. A ênfase desta escuridão vem colocada na frase, “…alheios à vida de Deus…”(v.18), onde o termo utilizado no grego para “alheios” significa, literalmente, “alienados”. Ou seja, todos aqueles que procuram viver o cristianismo pelos padrões do mundo está literalmente nas trevas. Pior, está alienado da verdadeira vida de Deus. Não é de estranhar que hoje em dia, alguns escândalos no meio evangélico acontecem porque este princípio não é pregado? Quem quer Jesus o quer geralmente sem compromisso, sem doutrina, sem negação, sem senhorio. Isto produz algo que Paulo denomina de ignorância, e esta por sua vez leva a uma dureza de coração. Esta palavra “dureza”, podia ser usada num sentido médico para o endurecimento caloso.
Paulo tinha esta preocupação de alertar a igreja pois sabia que a sociedade da época tinha inúmeros desvios morais e éticos. Uma sociedade que não tem conhecimento de Deus está fadada a viver em uma colisão direta com a imoralidade. Por esta razão a igreja e cada crente em Jesus deve influenciar a sociedade em que vive. Agora a questão é, se esta igreja e/ou o crente não anda como devia, como poderemos influenciar a nossa sociedade? Como transformar o mundo, se fazemos tudo ao contrário da Palavra de Deus?
Esta é a nossa situação hoje. Muitos falam em um crescimento do evangelho no Brasil e, triunfalisticamente falam em conquistar o Brasil para Jesus. Mas como conquistar o Brasil para Jesus sem uma profunda base bíblica? Crescimento não é enchimento. Não adianta termos igrejas cheias se o proceder cristão não é exercido dia-a-dia, com o próximo, comigo mesmo e com Deus. O sociólogo cristão Paul Freston nos faz uma importante indagação: “Tudo indica que os evangélicos vão ter considerável influência sobre a história do Brasil nos próximos cinqüenta anos. Mas, que faremos com essa responsabilidade?”. Se não refletirmos sobre isto agora, mais adiante vamos ter problemas com o nosso cristianismo, que começará a andar nos conceitos puramente humanos e não bíblicos. Temos que ensinar a Palavra de Deus e mostrar um novo conceito de vida, conceito este que nos leve a uma profunda comunhão com Deus e que se reflita em um estilo de vida diferente. Sendo assim o crescimento vem porque é Deus quem dá.

II – PROCEDIMENTO CRISTÃO, REVESTIR DE UM NOVO HOMEM (v.20-24)

Paulo continua sua dissertação tentando mostrar quem deve ser o exemplo de cada cristão. Ele começa lembrando: “Mas não foi assim que aprendestes a Cristo.” (v.20). É importante ressaltarmos que este vocábulo “aprendestes”, vem do grego “emathete” (emaqete), que também tem o sentido de discípulo. Esta palavra do apóstolo nos faz lembrar o que Jesus diz no evangelho de Mateus: “…e aprendei de mim…”(Mt.11:29). Jesus falava dos fardos terríveis que os fariseus colocavam sobre o povo e, por isto, mostra aos seus ouvintes que para fazer a vontade de Deus tem de ser mais que legalista, tem que renunciar a si mesmo e ser seu discípulo, segui-lo, andar como Ele andou. É isto que Paulo quer que cada um faça, que se lembrem do que aprenderam de Cristo. Para isso é necessário despojar-se do procedimento anterior. Aqui esta palavra tem sentido de tirar, remover, despir (roupas), onde a metáfora exprime a mudança de vida quando uma pessoa passa a estar em Cristo. O tempo do verbo denota uma ação conclusiva, definida e de uma vez por todas. Segundo Barth, este despojamento deve ser feito de uma vez e para o bem. Paulo vai mais fundo quando nos diz que, este velho homem de procedimento anterior, “se corrompe segundo as concupiscências do engano,” (v.22). O caráter do homem velho não somente era corrupto mas estava crescendo cada vez mais em sua corrupção. Como escreveu Karl Barth:

“Cada aspecto do Velho Homem é pútrido, corrupto ou infeccionado e corroído, como uma massa de cadáveres, prontos apenas para serem enterrados e esquecidos.”

Paulo quer com esta explanação nos mostrar que este estilo de vida do velho homem nada tem a ver com o ensinamento de Cristo. É interessante perceber que, muitos que vivem desta forma em nossas igrejas, quando confrontados, não só com estes mas outros textos da Palavra, logo se esquivam e começam, ou a fazer referência a outras pessoas ou a considerar o texto ultrapassado. No primeiro caso podemos dizer que esta pessoa tem certa semelhança com os fariseus da época de Jesus, onde Ele não chamaria de nada menos que hipócrita. No segundo caso percebemos aquele tipo de pessoa que, para justificar o seu pecado, tem as mais variadas desculpas e acusações à doutrina bíblica, à igreja, ao pastor, etc. Nisto o apóstolo nos mostra que, viver no procedimento anterior nada tem a ver com o que aprendemos de Cristo.
Nos versos 23 e 24, Paulo trabalha a questão do novo homem que, diferente do velho, é criado em “verdadeira justiça e santidade”, criado à semelhança de Deus. No verso 23 ele nos diz: “e vos renoveis no espírito do vosso entendimento;”. Esta palavra “renovar” vem significar “fazer novo”. Aqui há uma ênfase a renovação contínua e que, o lugar deste rejuvenescimento (gr. ananeousthai = ananeousqai) se dá na mente (ver Rm.12:2). Em seguida, Paulo fala em “revestir do novo homem…”, mostrando que o velho deve ser retirado, para que se possa vestir o novo. “Requerem-se duas coisas para a formação positiva do caráter cristão, a renovação contínua e progressiva de nossa mais alta faculdade, e a aceitação decisiva do ‘novo homem'”(Westcott).
O ser humano foi feito a imagem e semelhança de Deus. Com o pecado esta imagem foi distorcida e manchada. Em Cristo somos criados segundo o projeto original de Deus, onde esta imagem e semelhança se refletirá em nosso caráter. Ser cristão é ser de Cristo. Mais do que isto, é ser por e para Cristo. Muitos gostam de afirmar que participam desta ou daquela igreja, que dão o dízimo, que freqüentam inúmeros cultos de oração, que têm dons maravilhosos, que faz e acontece. Só que tudo isto está no nível do ter, ou seja, muitos têm uma igreja, dízimo, cultos de oração, dons “maravilhosos”, os seus próprios profetas, etc. O grande problema é que poucos percebem que tudo isto é secundário. Jesus afirma que muitos ficarão decepcionados com Sua vinda porque, segundo Ele, muitos irão afirmar que fizeram muitas coisas e o Senhor dirá: “…não vos conheço”(Mt.7:21-23). O profeta Amós nos diz que o dia do Senhor “é trevas e não luz”(Am.5:18-27), fazendo uma clara exposição de que ter a religião não assegura a salvação. O que devemos realmente perceber é que ser é melhor que ter. É melhor ser igreja (participante do corpo), é melhor ser dízimo (bênção de Deus para outros através de uma vida dedicada), é melhor ser profeta (instalando o Reino de Deus e sendo agente de Sua Palavra). É bem melhor assim do que ter e estar longe da vontade de Deus. Para Paulo, o procedimento cristão é refletido com uma vida em verdadeira justiça e santidade. Justiça, no sentido de se referir ao desempenho do homem e de seus deveres para com os semelhantes. Em santidade, ou retidão em outras versões, significa à observação pelo homem de seu dever para com Deus. Como citado acima, Paulo nos faz lembrar mais uma vez aquilo que Cristo ensinou sobre o amor a Deus e ao próximo. Um verdadeiro proceder cristão se baseia nisto, em ser justo para com meu irmão no perdão (Cl.3:13), no amor (Cl.3:14; Rm.12:9-10), na vida em geral (Tg.2:1-13). E também em uma vida de santidade através da oração (I Ts.5:17; Rm.12:12), da leitura e meditação da Palavra (Js.1:8; Sl.1:2), da pregação (II Tm.4:2), consagrando-se a cada instante, tomando consciência do que somos (I Pe.2:9).

HOMEM
PRÓXIMO

Minha relação com Deus é exemplificada na vida com o próximo.

III – PROCEDIMENTO CRISTÃO – O MOSTRAR DA ÉTICA DO NOVO HOMEM (v.25-32)

Como vimos acima, Deus nos criou “em verdadeira justiça e santidade”. Nestes sete versículos, Paulo trabalha a questão numa visão mais ampla, ou seja, no dia-a-dia de cada um de nós. A partir do verso 25 podemos perceber que a preocupação do apóstolo é de relacionar aquilo que não faz parte do novo homem, e qual deve ser a atitude nossa diante de um mundo corrompido. Podemos ver que Paulo leva seus ouvintes a uma reflexão de certas atitudes que, não só prejudica a nós mesmos, como também aqueles que nos cercam.
No verso 25 ele inicia: “Pelo que deixai a mentira,…”. Em contraste com o versículo anterior que fala da “verdadeira justiça e santidade”, o apelo do apóstolo é que a mentira deve ser colocada de lado pelos cristãos. A palavra grega traduzida por mentira refere-se ao falar do que não é verdadeiro. Aqui há uma menção do texto do profeta Zacarias (Zc.8:16) onde Paulo que ressaltar a importância da verdade nas relações humanas. Por isso ele, querendo mostrar este ensinamento e sua relevância a comunidade cristã em Éfeso, escreve: “…pois somos membros uns dos outros.”. Paulo quer não apenas lembrar um conceito moral, mas mostrar que, quando há mentiras entre os irmãos não há como ter comunhão, amor, franqueza, lealdade, pelo contrário, só desunião, desordem e problemas. Em nossos dias a mentira é ensinada com a maior naturalidade. Muitos vivem de ilusões e aparências, e nisto a mentira é a vestimenta ideal. O mais interessante é perceber que o mundo trocou a palavra “mentira” por “faz de conta”. Então, todos fazem de conta que estão felizes com o mundo, que a esposa está feliz com o casamento, o filho com o pai, o empregado com o emprego e assim por diante. Até mesmo na igreja tem irmão que faz de conta que está em comunhão com o próximo, que se amam como verdadeiros filhos de Deus. Para Paulo, quando os membros são francos e verdadeiros, estes vivem em perfeita comunhão e confiança uns com os outros. Vale salientar que este falar com verdade não é falar para machucar o outro. Quem age assim está em pecado porque age sem amor.

“Eis as cousas que deveis fazer: Falai a verdade cada um com o seu próximo, executai juízo nas vossas portas, segundo a verdade, em favor da paz.” (Zc.8:16)

Para que os irmãos melhorem o seu estilo de vida não é apenas necessário uma língua verdadeira, mas também um temperamento que reflita o princípio cristão da mansidão. Portanto, Paulo faz lembrar que a ira injustificada, que vem de um temperamento deliberadamente mau, faz parte da velha natureza e que nada tem a ver com os padrões do novo homem. No verso 26 o apóstolo cita o texto dos Salmos (Sl.4:4): “Irai-vos e não pequeis; consultai com o vosso coração em vosso leito e calai-vos.”. O verbo hebraico “ragaz” (YOB) significa basicamente “tremer”, quer por temor, quer por ódio. Toda e qualquer ira deve ser resolvida pois, Paulo tinha consciência de que a natureza humana poderia transformar uma ira justa em amargura, quando acolhida e alimentada no coração. É bem possível que Paulo saiba da recomendação dos pitagóricos, que dizia: “…quando atarídos ao revide irado, tinham por norma reconciliarem-se antes do pôr do sol.”. O vocábulo que aparece neste verso como ira é “parorgismós” (parorgismoV), e significa raiva, uma irritação violenta, expressa por várias maneiras, como por exemplo escondendo-se das pessoas, olhares fulminantes, palavras ásperas, ações impensadas, etc. Ao contrário da ira o que deve ser valorizado é o amor e o perdão entre os irmãos. É interessante refletirmos sobre esta recomendação paulina porque, muitos que estão dentro da comunidade cristã, vivem com ira guardada em seus corações, não são verdadeiros consigo mesmos e com os irmãos, ou seja mentem (v.25) e nisto se cria na igreja um clima propício para a atuação do diabo que Paulo chama a atenção no verso 27.
O verso 27 está intimamente ligado com o anterior. O perigo da ira é justamente a porta aberta ao diabo, e esta se abre quando alimentamos o espírito de orgulho ou ódio. A ação de não dar o lugar (gr. tópos = topoV) deve ser nossa. A Bíblia nos traz exortações quanto a isto: “Resisti ao Diabo e ele fugirá de vós”(Tg.4:7); “Sede sóbrios, vigiai. O vosso adversário, o Diabo, anda em derredor, rugindo como leão, e procurando a quem possa tragar.”(I Pe.5:8); e outros textos que nos chamam a atenção quanto a vida de vigilância (cf. Ef.6:11). Vale salientar que Paulo nãi fala da ira em um sentido de não aceitação do que é mal e corrupto, e sim a alimentação desta que pode ser uma grande porta para a atuação do inimigo em nossas vidas.
O verso 28 nos mostra qual deve ser a atitude do cristão quanto ao sustento, que deve ser pelo trabalho e não pelo furto. O estilo de vida que Paulo defende é o trabalho honesto e esforçado (gr. kopiátô = kopiatw; trabalhar arduamente). Este trabalho tem uma finalidade: o de repartir “com o necessitado”. O sustento através do furto além de não ser digno, é uma afronta ao mandamento do Senhor (Êx.20:15). Falar de trabalho digno e de uma filosofia cristã do trabalho em tempos de globalização da economia mundial parece destoar. Em um mercado movido pelo amor ao dinheiro e pelo consumo, o repartir parece algo insignificante. Mas, como não andamos nos rudimentos deste mundo, devemos observar a palavra do apóstolo que nos lembra o sermão do monte no evangelho de Mateus, desde como dar esmolas (Mt.6:2-4), a como valorizar e buscar o verdadeiro tesouro e como fugir da maior praga que é a ganância e a ansiedade (Mt.6:19-34). Vale salientar também que o repartir é simbolizado na ceia do Senhor (I Co.11:17-34; Lc.22:17-20), onde todos estão no mesmo nível e mostram a união do corpo de Cristo. Portanto, o trabalho deve ser ensinado e divulgado porque, se não tivermos cuidado, a “cultura” do levar vantagem em tudo, do pão e circo, da prosperidade fácil e da malandragem vão influenciar até mesmo a igreja. Para isso temos a recomendação do apóstolo em Tessalonicenses: “Porque, quando ainda estávamos convosco, isto vos mandamos: se alguém não quer trabalhar, também não coma.”(II Ts.3:10; cf. também os versos 11 e 12; I Ts.4:11).
No verso 29 Paulo nos mostra que, pior que a mentira, a palavra torpe é uma desgraça para a comunhão da igreja. Evitar a má linguagem deve ser uma virtude na vida do crente. O termo torpe (adj. Grego saprós = saproV) significa, basicamente, “podre”, dando o sentido de “sem valor”. Este tipo de conversação deve ser substituída por uma que produza “necessária edificação” (gr. oikodomén = oikodomhn; construção) e que faça mais do que isto, que “ministre graça aos que a ouvem” (gr. cháris = cariV; graça, no sentido de conferir favor, dá a idéia de benefício ou dar prazer). Assim escreveu Fancis Foulkes:

“Relativamente ao trabalho e salário, o modelo cristão é elevado acima da conveniência pessoal, e acima mesmo da questão sobre o que seja moralmente certo ou errado. O teste que um homem faz uso do dinheiro é: ‘O que darei aos necessitados?’. O teste de sua conversa não é apenas: ‘Estou mantendo verdadeiras e puras as minhas palavras?’ e sim: ‘Minhas palavras estariam sendo usadas para transmitir graça aos que ouvem?'”

As palavras podem mudar muita coisa quando ditas de uma maneira certa ou errada. Dizer a palavra certa numa hora errada, ou vice-versa, pode produzir estragos dos mais variados tipos. O apóstolo Tiago ciente disto, nos deixou uma grande reflexão sobre a língua e quão difícil é contê-la. Ele diz que o homem que não “tropeça na palavra” é perfeito. Só que a língua, diz Tiago, ninguém pode domar (Tg.3:8). Para a solução deste problema o apóstolo recomenda que cada um busque a sabedoria do alto que é “primeiramente, pura, depois pacífica, moderada, tratável, cheia de misericórdia e de bons frutos, sem parcialidade, e sem hipocrisia.” (Tg.3:17). Para Tiago ninguém pode bendizer ao Senhor e amaldiçoar o próximo, portanto, inconcebível partir da mesma boca bênção e maldição (Vale salientar que, quando falamos em bênção e maldição, não falamos conforme muitos que distorcem este assunto). Para Paulo, a boa palavra deve construir e ser agradável. O interessante é que, muitos de nós – senão todos – temos um “cardápio” bem variado para nossas fofocas, que vão desde ao “pastor à cabidela”, passando pelo “irmãozinho orgulhoso ao molho rosê”. Lutar contra as fofocas, as palavras cheias de inveja e coisas parecidas deve ser a nossa meta. Se não temos uma boa palavra a respeito de alguém é melhor ficarmos calados.
Portanto, para o apóstolo Paulo, a atitude do cristão é a de não entristecer o Espírito (gr. lypeite = lupeite; causar dor, aflição), não somente através da língua mas também de qualquer outro pecado(v.30). Devemos ter a consciência de que é pelo Espírito que temos uma vida de comunhão com Deus (Is.63:10; Rm.8:26,27), muito mais que isto, Ele habita em nós e é Santo. Devemos viver esta santidade, mas não aquela santidade farisaica, e sim uma santidade que reflita em nosso viver, caminhar e falar a verdadeira vida de Jesus, o evangelho e seus princípios acima de tudo. Viver em santidade não é a observação de leis, regras e conceitos simplesmente, mas acima de tudo estar debaixo da vontade de Deus. Tanto a libertinagem como o legalismo entristecem ao Espírito. Jamais devemos esquecer o que Paulo nos fala no restante do versículo: “…no qual fostes selados para o dia da redenção”, ou seja, foi pago um alto preço por nós na cruz, para que a nós fossemos salvos. E o selo desta salvação é o Espírito de Deus.
Nos versos 31 e 32, percebemos com maior clareza o que deve e o que não deve fazer parte da vida cristã. No verso 31 vemos seis sentimentos que devem ser expurgados da vida do crente em Jesus. São eles: amargura, cólera, ira, gritaria, blasfêmia e malícia.
O primeiro sentimento que o apóstolo relaciona é a amargura (gr. pikria = pikria), que denota aquele estado irritado da mente, que mantém um homem em perpétua animosidade, que se inclina a ter opiniões duras e descaridosas acerca das pessoas e das coisas. Geralmente é um sentimento que torna o ser humano fechado, irritadiço e repulsivo em seu relacionamento em geral. Segundo Aristóteles a amargura é como “o espírito ressentido que recusa reconciliação”. Para Paulo, este sentimento deve ser retirado do temperamento cristão.
A cólera (gr. thimós = qumoV) e a ira (gr. orgê = orgh), devem ser distinguidas. A primeira expressa a ira temporária, a segunda refere-se a uma ira mais sutil e profunda. Estas palavras aparecem em outros textos (Rm.2:8; Cl.3:8) e mostram o mais alto grau de animosidade que o homem pode alcançar quando não se submete a ação do Espírito de Deus.
A gritaria (gr. kraugê = kraugh), segundo Findlay é “a reivindicação da parte do homem irado em alta voz, fazendo com que todos ouçam sua queixa”. As discussões e “bate-bocas” de hoje podem muito bem ser gritaria. Saber aceitar a posição do outro sem “queimá-lo”, só por ser diferente à sua opinião é uma questão a ser refletida por cada um de nós. A gritaria nasce quando as pessoas pretendem impor seus pensamentos e opiniões, deixando de lado a troca de idéias e o amadurecimento das questões. Quando deixamos acontecer a gritaria, se formam os grupos, as ideologias e consequentemente um sentimento de não cooperação que fica a um passo da discórdia. Saber evitar a gritaria e conversas que não trazem proveito nos são mostradas por Paulo em outras cartas (Cl.3:8; Tt.3:9; I Tm.1:4, 4:7; II Tm.2:14,23).
A blasfêmia (gr. blasphemia = blasfhmia) é geralmente usada na Bíblia como o falar contra Deus. Ela significa caluniador, falante mal dos outros. É uma manifestação mais duradoura da ira interior, que se mostra na linguagem de insultos (I Co.10:30; Cl.3:8; Tt.3:2). Este sentimento é um tipo de exteriorização dos sentimentos já acima falados. Este proceder não pode fazer parte da vida do cristão, que acima de todos os defeitos, deve amar o próximo.
E finalmente a malícia (gr. kakía = kakia), que também significa maldade, dureza má, deve ser aniquilada de todo pensamento do crente. A malícia leva alguém a fazer ou falar mal de outrem. Paulo chama a atenção de que todas estas coisas “sejam tiradas” (gr. arthêto = arqhtw; pegar, levar embora, carregar, fazer limpeza), ou seja, deve ser feita uma limpeza geral onde estes sentimentos desapareçam da vida cristã.
O que deve realmente existir como base do proceder cristão está no verso 32, onde vemos três sentimentos bem diferentes do que vimos acima. São eles: bondade, ternura e perdão. Segundo Francis Foulkes, “a erradicação das más palavras e ações depende, em última instância, da purificação do pensamento.”. Em Colossenses 3:12 lemos:

“Revesti-vos, pois, como eleitos de Deus, santos e amados, de ternos afetos de misericórdia, de bondade, de humildade, de mansidão, de longanimidade”

Para Paulo, este revestimento se dá em três níveis, onde o apóstolo faz ressaltar as três qualidades que devem existir no cristão.
A primeira é a bondade (gr. chrestós = crhstoV; útil, bom, digno, benevolente), que é exposta aqui como uma virtude cristã fundamental. É o amor na prática, que não está estagnado, que se envolve. Segundo Barclay: “é a disposição mental que pensa nos interesses do próximo, como o faz com o seus próprios”. Vemos aqui novamente um eco das palavras de Cristo: “…ame ao teu próximo como a ti mesmo” (Lc.10:27;Mc.12:33). É o amor altruísta, que se dá sem se preocupar em receber. Este tipo de atitude é necessária na comunidade cristã pois, agindo assim, não mentimos uns apara os outros (v.26), não furtamos (v.28), pelo contrário aprendemos a dar generosamente, não maldizemos e sim tratamos com palavras de amor e graça (v.29) e, mesmo que aconteça algo que nos desagrade, e nasça em nós uma ira até justificável, não desenvolveremos este sentimento pois não condiz com o Espírito de Cristo (v.30,31). Enfim, exercer a bondade é, acima de tudo, tratar o irmão com dignidade e ser útil. A grande questão é que , tudo isto é muito bonito, mas a prática esta bem distante. Mas isto não deve jamais servir de desânimo para nós. Devemos nadar contra a maré e desenvolvermos uma atitude de perseverança. Portanto, façamos o bem (Rm.12:21).
A segunda qualidade do cristão é a ternura, que Paulo coloca aqui como compassivos (gr.eusplagchnoi = eusplagcnoi). Ela significa, no sentido físico e literal, “tendo intestinos saudáveis”. Os órgãos internos eram considerados a sede das emoções e das intenções. Esta palavra, “compassivos”, significa também “coração terno”. Para Paulo não pode haver atos de bondade sem um coração de simpatia e amor, dispostos a tais atos. Portanto, fazer “bondade” sem coração compassivo, nada mais é que hipocrisia. Não podemos nos esquecer de I Coríntios 13:1: “Ainda que eu falasse a língua dos homens e dos anjos, e não tivesse amor, seria como o metal que soa ou como o címbalo que retine.”. Quando temos um coração compassivo não precisamos nos esforçar a fazer o bem.
A terceira qualidade do cristão é o perdão (gr. charizomenoi = carizomenoi; perdoar). No sentido mais amplo desta palavra pode-se traduzir como “tratar graciosamente”. Paulo sabe que, ressentimentos e coisas não resolvidas podem se tornar um obstáculo à prática da bondade e da compaixão. Em Colossenses 3:13 vemos um acréscimo, “caso alguém tenha motivo de queixa contra outrem…”. Para o apóstolo, Jesus é o exemplo maior do perdão, e isto deve ser exercido pela igreja. A verdade é que, em nossos dias, muitas pessoas estão em uma crise de relacionamentos onde a convivência é uma verdadeira prova de fogo. Muitos dizem que querem morar sozinhos para não terem de passar por este tipo de crise, outros casam já com a pré-disposição de, se não der certo, a saída é separar. E pior, o perdão é uma palavra que não existe no vocabulário de muitos destes casos. Perdoar não é fácil, mas também não é impossível. Quando não perdoamos quem sai perdendo somos nós mesmos. O perdão faz bem, evita que os sentimentos negativos descritos por Paulo no verso 31 nos destruam por dentro. Muitos ficam doentes, não por uma complicação patológica, mas por aquilo que os psicólogos chamam de doenças psicossomáticas, ou seja, a somatização de coisas desagradáveis (amarguras, decepções, iras, invejas) que, quando direcionadas a alguém ou alguma coisa, são refletidas na parte mais vulnerável do corpo. Aqui a falta de perdão contribui e muito. Muitos chegam ao fim de suas vidas dilaceradas e não abrem mão de seu rancor. Alguns até mesmo dentro das nossas igrejas que não conseguem ver mais aquele irmão que fez isto, ou aquela irmã que falou assim e não agradou muito o que ela disse, etc. Como falamos acima, perdoar não é fácil, mas não é impossível. Portanto, oremos ao Senhor para que a visão de Cristo na cruz do Calvário nos perdoando e nos reconciliando com Deus esteja na nossa mente. Assim será melhor porque, se Deus me perdoou em Cristo, por que não perdoar meu irmão? Maior falta cometi contra Deus e Ele me concedeu o Seu maravilhoso perdão. Quem sou eu para não perdoar o outro? “E perdoa as nossas dívidas, assim como nós também temos perdoado aos nossos devedores.”(Mt.6:12).

Que o Senhor nos abençoe. Amém!

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