Ser esperança: Uma reflexão a partir de Rute, uma mulher estrangeira, pobre e viúva

Ser esperança: Uma reflexão a partir de Rute, uma mulher estrangeira, pobre e viúva é o nosso tema para esta meditação bíblica.

INTRODUÇÃO À NARRATIVA

Hoje quero compartilhar com vocês, meus irmãos e irmãs, sobre esperança.

Mas ao falar de esperança, também falamos de medo, de dificuldades, de dúvidas. Quer ver?

Quando alguém tenta nos motivar diante de um momento de dor, geralmente nos diz:  Não perca a esperança!

Quando a gente desabafa com alguém sobre algo que nos frustrou, geralmente dizemos: “minhas esperanças foram frustradas neste relacionamento, eu achava que era uma coisa e foi outra”

Quando estamos diante da perda e da morte, falamos: “Deus é a minha única esperança diante desta situação.”

E no meio popular, sempre afirmamos: “Meu amigo, minha amiga, a esperança é a última que morre.”

TRANSIÇÃO:

Ao falar esse dito popular eu lembro da história de uma mulher na Bíblia, onde, de fato, ele se concretizou. Uma história que se passou há muitos séculos, mas que continua sendo atual e nos inspira hoje.

NARRATIVA – PARTE UM

O nome dela é Rute.

Creio que muitos aqui já leram essa história.

Ela foi uma mulher que esperançou diante da morte e do desconhecido e cantou em meio a dor como Cássia Eller – “Deixo a tristeza e trago a esperança em seu lugar”.

É importante lembrar que a palavra Esperança vem do verbo esperançar e não do verbo esperar.

Esperar é passivo. Senta e espera acontecer.

Esperançar é ativo. Você se torna o ator/a atriz da história e faz acontecer.

Rute, assim como muitos de nós neste ano de 2020, perdeu família, perdeu sonhos e se viu numa situação delicada.

Rute estava casada, ainda não tinha filhos e morava na cidade onde nasceu, Moabe. Ela encontrou seu marido, chamado Malom, por lá. Ele, o irmão, o pai e a mãe haviam saído de Judá, da cidade de Belém, porque a fome tinha assolado a cidade. Eles se deslocaram em busca de melhores condições de vida.

Rute tinha um ótimo convívio com a família do marido, porque decidir viajar e viver com a sogra em terra desconhecida, como a gente vai ver mais adiante, só mesmo amando essa sogra, né gente? Pois bem….

Após alguns anos de casada, Rute perdeu o marido, bem como o cunhado e o sogro. A Bíblia não relata como morreram, mas o certo é que as três mulheres – Rute, Orfa e Noemi ficaram desamparadas. As três viúvas, sem filhos, sem dinheiro e nenhum parente por perto. Se hoje a gente já vive diante de um sistema patriarcal, imagine naquele tempo o que era não ter um marido e filho, e sequer uma herança, a não ser um terreno em uma cidade distante.

Noemi, a sogra das duas, se sente tão desampara diante destas perdas que diz para as noras: “O Eterno foi severo comigo! Eu vou voltar para minha terra, mas vocês devem ficar e continuar a vida de vocês. Vocês têm que se casar e ter filhos.”

Como a gente bem sabe e já ouviu várias pregações sobre essa parte do livro de Rute, ela não abandona a sogra. Rute olha para a condição daquela mulher, que era a sua amiga e se faz esperança para ela.

Ela diz, “não me peças para te abandonar, eu irei com você e o teu Deus será o meu Deus”.

O que faz uma mulher jovem, abandonar sua cidade, sua família, para seguir com sua sogra para uma terra distante?

Noemi era um testemunho vivo da presença de Deus para as duas noras. O nome Noemi significa Agradável, Amável. Ela chamava as duas noras de filhas.

Não sei como era a família de Orfa e Rute, mas Rute, nome que significa Amiga também, abandona a segurança do seu lar e segue o desconhecido, na esperança de partilhar a vida com quem foi vida para ela.

APLICAÇÃO

Na vida, no chão de cada dia, quantas vezes temos a oportunidade de ser esperança para o outro. Nossa mãe, pai, filho, filha, marido, esposa, amigos…. e a gente se exclui de ser esse lugar de fé, de confiança, de partilha de dor e esperança para o outro?

Por vezes nós estamos tão focados nas nossas necessidades, no nosso pão, que a gente esquece que o pão é nosso, que vida é partilha.

Quando eu leio o livro de Rute, eu percebo que a Bíblia antes de ser livro foi vida. Vida que soube ser esperança.

E a história de Rute fala diretamente a vida de cada um de nós.

O testemunho de Rute questiona nosso testemunho como cristãos e cristãs hoje. E nos pergunta: você tem sido um lugar de esperança? Não apenas para si, mas para o outro, para o próximo?

Quando a gente prioriza mais o touch do que o toque a gente nega esperança.

Quando a gente é membro de uma instituição, mas não somos membros de um corpo, a gente nega um lugar de esperança.

Quando a gente prioriza o próprio bem-estar no lugar do bem comum, a gente nega esperança.

Mas quando a gente se oferece como lugar de partilha, a gente é esperança.

Quando a gente decide caminhar a segunda milha, a gente é esperança.

Quando a gente está presente para o outro, verdadeiramente presente, e a gente o escuta com o coração, a gente é esperança. 

Dar esperança em um mundo que abraça o individualismo e um sistema que nos faz competir arduamente todos os dias um com o outro, é um desafio humanizador diário.

NARRATIVA PARTE DOIS

Rute soube ser esperança para sua sogra Noemi.

Ela disse: “Jamais te deixarei só Noemi, onde tu fores eu irei”

Quando as duas chegam, após tanto tempo, em Belém, Rute faz tudo aquilo que Noemi orienta. Uma era esperança para outra.

Rute, na cidade de Belém, era a estrangeira, a viúva, a pobre. Ela deixou Moabe, sua terra, sua família e expectativa de vida para viver na marginalidade. Começou a apanhar espigas numa fazenda de um parente próximo de Noemi.

A terra da qual Rute foi colher espigas era de Boaz.

O nome BOAZ significa Força. De fato, ele foi um homem forte, não como muitos que a gente vê por aí, que usa de sua força corporal para maltratar mulheres e até matá-las. Boaz foi um homem forte de caráter. Ele, como um dos parentes mais próximos, assumiu a responsabilidade de resgatar a dignidade daquelas duas mulheres, que precisavam preservar sua herança e linhagem. Para quem quiser saber mais a lei do resgate pode conferir no livro de Levítivo 25.  

APLICAÇÃO

Deus conhece a motivação do nosso coração, e quando plantamos esperança, colhemos esperança.

Rute, assim como eu e você, precisamos fazer escolhas na vida, principalmente diante de tempos difíceis.

Rute esperançou sendo autora de sua própria história. Ela foi corajosa ao aceitar o desafio de se deitar aos pés de Boaz e pedir que resgatasse não apenas o terreno da família dela, mas que resgatasse a descendência, se casando com ela. Ao decidir ir até Boaz, ela lutou por sua dignidade e pela dignidade de sua sogra.

Essa história de Rute narrada nas Escrituras nos mostra a importância de buscar no texto sagrado exemplos de esperança que nos inspiram.

Por isso, devemos…

Ler a vida a partir da Bíblia e ler a Bíblia com a vida nos olhos.

Vocês sabem por que muitos de nós não temos contato com este livro (Bíblia) e por vezes ele parece chato ou distante de nossa realidade?

Porque aprendemos a lê-lo distante da vida.

Antes da Bíblia ser livro, ela foi vida. É vida que está em todas essas linhas.

Nosso encontro com a Bíblia tem que ser humanizador e não opressor, ao ponto de termos medo do que está escrito aqui.

Precisamos ler a bíblia, mas a bíblia também tem que nos ler.

O livro de Rute fala de esperança em meio a dor. O livro de Rute fala ao nosso ano de 2020, ano difícil, ano de dores. É o nosso lugar de fala abraçando uma narrativa bíblica. Isso faz sentido, isso nos faz ser próximos da Bíblia, e não apenas isso, mas encarná-la, sendo esperança para aqueles que querem distância deste livro.

O objetivo último da Bíblia não é a investigação científica do seu sentido literal e histórico, mas é preparar homens e mulheres para a luta que nos é proposta, como diz Hebreus 12:1.

A melhor interpretação da Bíblia é aquela que nos faz procurar dentro do texto um sentido para a vida, recebendo a iluminação necessária para a nossa realidade familiar, cultural, social, econômica, religiosa política, fazendo da vida DA gente, vida DE gente.

Ler o livro de Rute deve ser uma atitude sagrada diante da vida.

Ela se tornará sagrada quando encarnarmos o esperançar nos nossos dias. Porque o sagrado sempre se encarna. Jesus efetivou esta verdade.

CONCLUSÃO:

A Esperança de uma mulher estrangeira deu luz a linhagem de Jesus.

O filho de Rute e Boaz se chamou Obede, avô de Davi.

Que tamanho privilégio para uma mulher estrangeira, pobre e viúva!

Talvez hoje você esteja se perguntando sobre os últimos acontecimentos em sua vida e se vale mesmo a pena continuar tendo esperança.

A história de Rute nos ensina que sim, que devemos não apenas ter esperança, mas ser esperança nesse caminhar tão desafiador que é a vida.

Autora: Alynne Sipaúba
Teóloga
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Faculdade Teológica Sul Americana

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